16 de junho de 2016
Abelha Rainha
da MPB, Bethânia brilha com repertório e teatralidade nos palcos
No show Opinião em 1965, cantora baiana, que agora lança nova turnê,
assombrou com Zé Kéti e João do Vale e depois se tornou um dos maiores nomes da
nossa cultura
Fabio Ponso*
*com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O
GLOBO
Âmbar. Talismã. Diamante verdadeiro. ‘Pedrinha’ preciosa do popular
cancioneiro. Sua voz, grave e mítica, carrega a ancestralidade da lendária
Bahia, ressoa à luz do sincretismo, filha de Oyá e de Maria. Maria, que no
Recôncavo sonhou ser trapezista e dançou samba de roda. Bethânia, que nos
palcos declamou poemas, e entoou canções de amor e drama. Pés descalços, correr
de águas claras que cantou o Brasil em vários tons, da dor e da saudade, da
mistura e da diversidade... Com devoção, a MPB celebra nova turnê de um de seus
maiores nomes. A cantora abre o calendário de apresentações de "Claros breus" com quatro
apresentações intimistas no Clube Manouche, no Jockey Club da Gávea, em julho.
Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu em 18 de
junho de 1946, em Santo Amaro, na Bahia. Seu nome foi uma sugestão de seu
irmão, Caetano Veloso, inspirado num sucesso interpretado por Nelson Gonçalves.
A cantora cresceu no seio de uma família com imensa vocação artística. Seu pai,
Zezinho, apreciava a poesia, e sua mãe, Dona Canô, notabilizou-se por sua face
festeira e musical. Bethânia também tem como irmã a escritora Mabel Veloso e
como sobrinhos os cantores Belô e Jota Velloso. Sua opção pelo caminho da arte
se deu ainda na infância, quando, inspirada pelas apresentações circenses, se
apaixonou pelo universo dos palcos. Na juventude, atuou em espetáculos amadores
e, em 1960, quando se mudou para Salvador, ao lado de Caetano, começou a
frequentar o movimentado meio artístico da cidade. Nesse período, conheceu
Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, entre outras estrelas iniciantes. Aos 17 anos,
estreou como cantora na peça “Boca de ouro”, de Nelson Rodrigues, interpretando,
por detrás das cortinas, o sucesso “Na
cadência do samba”, de Ataulfo Alves. Sua primeira apresentação solo
ocorreu em 1964, no espetáculo “Mora na
filosofia”. Na ocasião, conheceu a cantora Nara Leão, num encontro que
selaria o seu destino.
Em fevereiro de 1965, Nara estava em cartaz no Rio
de Janeiro com o musical “Opinião”,
ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Com problemas de saúde, decidiu convidar
Bethânia para substituí-la no espetáculo. A estreia da baiana, interpretando de
forma visceral a música de protesto “Carcará”,
provocou um verdadeiro assombro no meio musical. Brotava ali uma grande
revelação, “com toda a pinta de ser musa
e mito”, como previu O GLOBO na edição de 20 de fevereiro de 1965.
No mesmo ano, ela lançou seu primeiro álbum e participou
de dois musicais dirigidos por Augusto Boal. Em 1966, voltou ao palco do Teatro
Opinião, ao lado de Vinícius de Moraes e Gilberto Gil, com o show “Pois é”, e
participou do I Festival Internacional da Canção, defendendo a música “Beira-mar”, de Caetano e Gil.
Lançou outros LPs e se apresentou, até 1970, em
teatros e casas noturnas do Rio. Sua projeção definitiva no cenário nacional se
deu em 1971, após o lançamento do LP “A
tua presença”, elogiado pela crítica especializada. Foi também nesse ano que
introduziu, no aclamado espetáculo “Rosa
dos ventos”, dirigido por Fauzi Arap, uma linguagem teatral mais apurada em
seus shows, ideal ao exercício de seus múltiplos talentos de cantar, dançar,
interpretar papéis e recitar poemas.
Sua discografia é composta por quase 50 álbuns, com
destaque para “Pássaro proibido”
(1976), que lhe rendeu seu primeiro disco de ouro, “Álibi” (1978), que a tornou a primeira cantora brasileira a
alcançar a marca de 1 milhão de cópias vendidas, além do premiado “Brasileirinho” (2004). Merecem ser
lembrados ainda o álbum em dueto com Chico Buarque, gravado ao vivo no Canecão,
em 1975, e “Doces bárbaros”, fruto
de turnê emblemática com Caetano, Gil e Gal, idealizada por ela, em 1976. Em
2002, sua luta pela liberdade de criação culminou com a ruptura com as grandes
gravadoras e o lançamento de “Maricotinha
ao vivo”, seu primeiro disco por um selo alternativo. Em 23 de
dezembro de 2001, Bethânia declarou ao GLOBO: "Quando me preparo para gravar, não me preocupo com o fato de a canção
ser nova ou antiga, daqui ou de fora, se tocará ou não no rádio. Faço apenas o
que quero fazer, livre, sem medo".
Espelhando esse princípio de independência
artística, seu repertório é caracterizado por um forte traço autoral,
valorizando a brasilidade, a cultura regional, a poesia, e a diversidade de
gêneros, e mesclando grandes compositores com novos talentos da música popular.
Entre seus maiores sucessos, além da emblemática “Carcará”, figuram canções que
a tornaram fenômeno de execução nas rádios, como “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque; “Explode coração”, de Gonzaguinha; “Brincar de viver”, de Guilherme Arantes; “Fera ferida”, de Roberto e Erasmo Carlos. Já a simbólica “Mel”, de Caetano Veloso e Waly
Salomão, lhe rendeu o título de “Abelha
Rainha” da MPB.
Entre as premiações de sua carreira, estão a
conquista do Prêmio TIM em mais de uma categoria, em 2004, 2006 e 2007, e do
Prêmio Shell, em 2008, concedido pela primeira vez a um intérprete.
Em 2001, foi escolhida pelo GLOBO como personagem da música brasileira. Também
não lhe faltaram reverências no cinema, em documentários como “Música é perfume”, de 2005, e “Pedrinha de aruanda”, de 2007. Em
2015, ao completar 50 anos de carreira, recebeu outras homenagens, entre elas a
festa de gala promovida pelo Prêmio da Música Brasileira, no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, uma exposição dedicada à sua vida e obra, no Paço Imperial,
e a escolha como enredo da Mangueira, que rendeu à escola de samba o título de
campeã do carnaval.
No início de 2011, a cantora esteve envolvida numa
polêmica por ter sido autorizada pelo Ministério da Cultura a captar R$ 1,3
milhão para um blog de poesia. Desse valor, Bethânia receberia R$ 600 mil como
diretora artística do projeto. A notícia gerou indignação, principalmente entre
internautas, e inspirou um grande debate sobre os meios de captação e
investimentos em cultura. Diante da repercussão negativa, o projeto acabou não
indo adiante. Bethânia, que não se envolveu muito na polêmica, declarou que o
blog seria muito útil para disseminar a poesia pela internet, e que o projeto
não era seu, mas do cineasta Andrucha Waddington e do pesquisador Hermano
Vianna. Ela apenas participaria recitando, em vídeo, trechos de poemas no blog.
Bethânia não se casou e não teve filhos. Sempre
dispensou maior atenção à sua carreira, e, discreta, cultiva hábitos caseiros e
preserva sua intimidade. Há, no entanto, dois aspectos que a cantora não se
furta a revelar: o papel central da religiosidade em sua vida, mesclando
devoção católica e fidelidade às crenças do candomblé; e sua personalidade
firme, incisiva, sempre fiel aos seus sentimentos, como um reflexo de seu
próprio canto. Como definiu Sérgio Bittencourt, em críticas publicadas no GLOBO
em 17 de julho de 1969 e 21 de julho de 1971: “Bethânia não canta nem diz uma canção. Ela sente (...) Está livre de
todas as obrigações”. “Bethânia é
drama vivo. Sacerdotisa, vive numa espécie de clausura. Faz parte dela
generosamente sua vida. Ela ama a pessoa que não se trai, que não se aliena na
função que exerce (...) Bethânia é uma sereia, e, se não tivermos cuidado, seu
canto poderá nos levar longe demais”.


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26/4/1973 - "Drama, luz da noite", Teatro da Praia, no Rio Foto: Athayde dos Santos / Agência O
Globo |
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8/2/2016
– Carnaval. Enredo da Mangueira Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo |