domingo, 28 de noviembre de 2021

1969 - MARIA BETHÂNIA - Recital na BOITE BLOW-UP













































 


































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Brasil, São Paulo, SP, 04/12/1969.

 

Carlos Imperial e Maria Bethânia, durante a gravação do disco da cantora no estúdio da Odeon, em São Paulo. Crédito: Alfredo Rizzutti

Bethânia cantou para convidados seletos, entre amigos e jornalistas e dali foram gravadas faixas do disco “Maria Bethânia ao vivo”, que teve a produção de Carlos Imperial.



1969
Revista inTerValo
n° 362




































Folha de S. Paulo

27/02/70 

Artur Laranjeira


Bethânia precisa gravar outro elepê

Uma Bethânia sufocada pelos instrumentos que a acompanham. 
De voz abafada pelos gritos de bravo, maravilhosa, pelos aplausos. Às vezes tendo de gritar para ser ouvida, não conseguindo dar o seu recado que sempre ela soube transmitir tão bem em outros discos, com sua voz quente, amarga, com o seu canto aprendido em Santo Amaro da Purificação, Salvador, Bahia.

Muito diferente da cantora de Preconceito, Ponto do Guerreiro Branco, O Tempo e o Rio, Frevo Número Dois de Recife, Duas Contas, Andança, Onde Andarás, as melhores faixas do seu penúltimo elepê. Agora ela tenta cantar Ponto de Iansã, Meiga Presença, Sambas de Roda, Marinheiro Só, Nada Além, Com Açúcar e Com Afeto, Irene, 9º Andar, Os Argonautas, Fósforo Queimado, Voltei Pro Morro, Maria e Ponto de Oxóssi. As melhores faixas são as de seleção de sambas de rodas, Meiga Presença, Nada Além, 9º Andar, Voltei Pro Morro e Maria, uma música que Gilberto Gil fez para ela quando os dois moravam na Bahia. Em Meiga Presença, já gravada por Elisete Cardoso, a voz de Bethânia parece retomar a sua força. O mesmo acontece com o sucesso de Orlando Silva, em 1941, o fox Nada Além, de Custódio Mesquita e Mário Lago.

Mas em Com Açúcar e Com Afeto, Irene, Fósforo Queimado – sucesso antigo de Ângela Maria – parece que Bethânia não vai agüentar chegar ao fim da música. A maior parte da culpa dos defeitos desse disco deve ser dada ao orquestrador e regente Leonardo Bruno, com seus arranjos que só desvalorizam a voz de Bethânia.

A outra parte cabe a Carlos Imperial – assistente de produção que diz: "este disco foi gravado ao vivo durante uma homenagem que prestamos à Bethânia, somente com o trio (piano-baixo-bateria). Depois fizemos um estudo do som-ambiente e onde julgamos possível e necessário colocamos instrumentação condizente".

Mas era justamente isso que a voz de Bethânia não precisava para continuar cada vez mais forte. Ao contrário do que aconteceu nesse disco, às vezes irritante, gravado pela Odeon, onde ela grita, luta com os instrumentos para poder ser ouvida.

















Bethânia gravou este seu segundo disco ao vivo num pequeno auditório em sua gravadora, recriando o ambiente das boates nos quais brilhava na ocasião. Mesmo antes de seus roteiros mais teatrais dos anos 70 a consagrarem, seus shows de pequeno porte não pareciam menos apoteóticos. Pelo menos, esta é a sensação que temos ao ouvir discos como este, no qual a platéia parece em estado de êxtase. No repertório, algumas pérolas que Caetano e Gil compuseram para ela pouco antes de partirem para o exílio forçado; deliciosos sambas e sambas-canções dos cantores do rádio e dois pontos de candomblé - um para abrir e outro para fechar o roteiro, como que exorcizando a onda de baixo astral que se abatia sobre o Brasil de 1970. Ah! E foi também neste disco a sua primeira gravação de Chico Buarque, Com açúcar, com afeto, de quem se tornaria a melhor intérprete.

[2006, Rodrigo Faour]