lunes, 9 de diciembre de 2019

1976 - DOCES BÁRBAROS









 
 

 



Junho/1976 - JORNAL DO BRASIL


1976
Revista ele ela
Ano VIII – Junho
n° 86


Caetano Veloso
escreve
OS DOCES BÁRBAROS

A gente (eu, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) nem sabe direito porque se juntou para fazer este 'show' em conjunto. Porque a gente já é há tanto tempo...

O engraçado é que a gente agora virou os quatros sob um nome só: Doces Bárbaros.

Outro dia, conversando com Gilberto Gil, eu disse: "Acho que a gente agora é um grupo porque foi ficando cada vez mais parecidos uns com os outros, até fisicamente".

Quando eu era menino, e mesmo quando adolescente, eu e Maria Bethânia não eramos dois irmãos parecidos: até o contrário, eramos desses irmãos de tipos diferentes dentro de uma família de muitos irmãos.

E no entanto, hoje em dia, na contra-capa do 'long-play' de Gal e Caymmi, eu vi uma foto de Gal em que eu achei ela parecida comigo.

Quando eu e Maria Bethânia viemos para São Paulo em 1965 e que Bethânia foi fazer o espetáculo Opinião, Gilberto Gil já estava morando lá e Gal foi passar uns tempos conosco.

Gal tinha o cabelo curto e fisicamente era completamente diferente de Maria Bethânia. Mas as pessoas viam Gal na rua, apontavam o dedo para ela e diziam: "Olha lá a Maria Bethânia".

A gente ficava assustado porque achava que Gal e Maria Bethânia eram duas pessoas totalmente diferentes. Que as pessoas deviam achar uma parecida com a outra assim como a gente acha um japonês parecido com o outro.

Gil, por sua vez, era gordo, não tinha ângulo nenhum no corpo e comia muito, muitíssimo.

Depois, ele fez macrobiótica, emagreceu e foi ficando com o corpo muito parecido com o meu, que é muito parecido com o corpo de Bethânia.

Tempos mais tardes, quando apareceu o grupo Novos Baianos, a gente (eu, Gal, Gil e Bethânia) ainda não se achava parecido.

Mas quando eu voltei de Londres falava-se muito no "morro da Gal, nas dunas do barato" e constatei que Gal Costa tinha criado uma moda, um modo de ser, de vestir, de usar o cabelo.

Foi mais ou menos nesta época que 'O Pasquim' começou a reclamar como quem reclama contra a raça. Aliás, uma das canções mais lindas dos Novos Baianos dizia: "Saindo dos prédios para a praça, uma nova raça..."

Depois, todo mundo viu, na televisão, o Chico Anísio fazendo uma imitação do baiano e eu acho que ele fazia muito bem, de um modo bonito. De maneira que a gente, aos olhos dos outros, já era, sem saber, os Doces Bárbaros.

Mas não só a gente mesmo não se achava parecida ainda, como também estava mais do que nunca cada um individualizando tudo o que fazia. Talvez foi por isso mesmo que a gente tenha conseguido agora se tornar capaz de ser um grupo, resultado de nossas vivências comuns e separadas durante todos esses anos em que fazemos música.

De modo que Doces Bárbaros é uma coisa que se formou em nós, através de nós e até mesmo a despeito de nós. É uma nova raça.

As músicas que iremos tocar e cantar são todas nossas, com exceção de algumas de outros autores, como Caymmi, Milton Nascimento e Herivelto Martins. A partir do 'show', gravaremos um 'Long-play'. Gostaria também de mencionar todos os músicos que vão tocar com a gente. Na guitarra, Perinho Santana, no contrabaixo, Arnaldo Brandão, na bateria, Chiquinho Azevedo, no piano, Tomás, na percussão, Djalma Correia, na flauta e saxofone, Tuzé e Mauro.

Se eu fosse lembrar a nossa história, digo, a história de Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e eu, eu teria de falar no Teatro Vila Velha, de Salvador, em uma porção de coisas que todo mundo já sabe e talvez até em algumas que ninguém sabe.

Ia falar também em Roberto Santana, que me apresentou a Gilberto Gil, em Álvaro Guimarães, que faz cinema e teatro e, de uma certa forma, me levou a fazer música, em Maria Muniz, em mil outras gentes.

Mas se eu quiser mesmo contar ou resumir a história dos Doces Bárbaros, vou ter que falar talvez em outros planetas, em outras dimensões, em coisas que nem sei...

Mas para as pessoas que já nos vêem como um grupo há tanto tempo, ou seja, como um punhado de gente que tem características comuns, mesmo físicas, Doces Bárbaros não é senão o óbvio. Para nós, é a maior novidade. E é tudo igual.

Somos muito diferentes uns dos outros. Todo mundo sabe que fui eu que escolhi o nome de Maria Bethânia. Eu tinha quatro anos quando ela nasceu. Por isso, ela, necessariamente, aprendeu muito comigo. Mas ela é estruturalmente uma rebelde e terminou me ensinando as coisas fundamentais desta vida.

Gal, eu encontrei pronta. Uma vez, há tanto tempo que nem me lembro mais, ela cantou uma música qualquer e eu disse que ela era a maior cantora que já surgiu no Brasil.

Quando morava na Bahia, eu ouvia João Gilberto dia e noite e eu ouvia João Gilberto dia e noite. Quando nos vimos pela primeira vez, já eramos, musicalmente irmãos.

Hoje em dia, Gilberto Gil está refazendo a cabeça de todo mundo. Um dia, Rogério Duarte (que também teve grande importância nesta história toda) falou que Gil era o profeta e eu o apóstolo. Entre outras coisas, acho que a gente trabalhar em grupo está sendo maravilhoso, porque nós três vamos aprender e estamos aprendendo muito com Gil. Acho que ele é mesmo o mestre. Gilberto Gil faz e refaz a cabeça de todo mundo.

Vocês, que me lêem, já ouviram falar em 'supergroups'? Pois bem, Doces Bárbaros é um subgrupo. No sentido de um grupo étnico. Ha-ha-ha-ha!

E agora eu pergunto a mim mesmo: como será a nossa cara? Queremos ser Doces Bárbaros assim como o doce de jenipapo é um doce bárbaro! Gilberto Gil disse que ele é cocada-puxa e que eu sou 'amada', um doce que se faz na Bahia usando gengibre, farinha de mandioca e rapadura.

Para mim, Gal Costa é centro. O meio de tudo. A voz. A voz da qual nós (inclusive ela - todos os bárbaros doces) somos apenas vozes.

Mas que horda é esta que vem do planeta terra bahia, todos os santos?

Está bom. Os ensaios estão bem calmos, nos divertimos e cantamos canções cantáveis. E, para finalizar, não há nada que eu possa dizer sobre qualquer um de nós que ajude a me dar, a te dar, a dar a todo mundo uma idéia do que seremos.