jueves, 13 de diciembre de 2018

2018 - O CU DO MUNDO



“Fuçar a obra alheia é o meu trabalho de intérprete. Eu sou uma compositora, mas eu sou igualmente uma intérprete. São canções que eu gostaria de ter feito, que de alguma maneira quero trazer pra mim no sentido da apropriação”
[Adriana Calcanhotto]




2018 – ADRIANA CALCANHOTTO
“O cu do mundo"
Single Sony Music Entertainment



Vídeo da faixa estrelado pelo grupo do Teatro da PombaGira



Ficha técnica
“O Cu do Mundo”
Compositor: Caetano Veloso
Intérprete: Adriana Calcanhotto
Produção Musical: DJ Ubunto e DJ Zé Pedro
Mixagem de Áudio: Rafaela Prestes
Duração: 2min30s
Clipe – “O Cu do Mundo”
Direção e Montagem: Murilo Alvesso
Conceito Visual, Cenografia, Coreografia, figurinos e encenação: Teatro da PombaGira
Performers: Andrew Tassinar, Hugo, Lua Negrão, Mateus Rodrigues, Marcelo D’Avilla, Promiskua, Renato Teixeira, Ricardo Mesquita, Snoo, Victor Rosa e Wesley Lima
Direção de Fotografia: Lola Zola, Murilo Alvesso e Rogério Dragone
Direção de Produção: Jorge Yuri
Produção Executiva: Victor Dias
Assistência de Produção: Aline Miniussi
Produção – Galpão 833: Wilma Santos
Making of / Still: Sillas Henrique e Vini Poffo

Apoio
Estúdios Quanta
Galpão 833

Realização
Assum Filmes
Xirê Eventos




Correio Brasilienze

Adriana Calcanhotto ao Correio: "Estou ficando cada vez mais brasileira"


Integrando o corpo acadêmico da Universidade de Coimbra, Adriana Calcanhotto conta que a experiência em Portugal a aproximou do Brasil e retrata isso em canção inédita



Adriana Izel
09/12/2018


Adriana Calcanhotto foi buscar em Oswald de Andrade as referências para A mulher do Pau Brasil - Foto: Renan Perobelli / Divulgação



Dedicar-se à vida acadêmica nunca foi algo esperado na vida da cantora Adriana Calcanhotto, que, aos 18 anos, largou os estudos para seguir com a carreira musical. Porém, no ano que vem, a gaúcha completará dois anos de residência em Coimbra, cidade universitária em Portugal onde ministra aulas, faz pesquisas e atua como embaixadora da universidade.

“É interessante a sensação de me ver inserida na tradição acadêmica, de olhar o Brasil do ponto de vista de Coimbra. Sendo que, na verdade, eu larguei o colégio para me aventurar pela música. Eu achei que a coisa acadêmica na minha vida estava cumprida. Apesar de ser de uma família de professores, eu tinha convicção de que o mundo acadêmico não me interessava, muito porque eu sempre achei que se perdia tempo com os métodos acadêmicos. Sempre preferi estudar sozinha. Mas esse momento, com pessoas lá que pensam o Brasil, a história do Brasil, de Portugal e do mundo, a origem da literatura e da poesia ocidental... Tudo isso é muito interessante”, revela, em entrevista ao Correio.

Essa conexão com o estudo também levou Adriana a um momento de envolvimento com a música mesmo durante um período de afastamento dos palcos. É que uma das atividades previstas na programação da cantora em Coimbra era uma residência artística. “O produto disso poderia ser qualquer coisa. Aí me dei conta de que, durante esse semestre, eu fiquei pensando sobre o Brasil, sobre isso que o Oswald de Andrade falava, que, na verdade, permeou a minha trajetória e o meu trabalho desde sempre de modo mais ou menos explícito. Então achei que cabia naquele momento, uma vez que as pessoas estavam me perguntando muito se eu estava ficando europeia ou portuguesa e eu respondia: ‘não, estou ficando cada vez mais brasileira, quanto mais eu vou, mais brasileira eu sou e me sinto’”, revela.

Desse sentimento veio a canção inédita A mulher do Pau Brasil, que leva o nome do show feito por Adriana Calcanhotto pela primeira vez em 1987, em Porto Alegre, e que retornou aos palcos em Coimbra e depois seguiu para uma turnê no Brasil que termina em fevereiro, quando a gaúcha precisa retornar para assumir um novo ano acadêmico em Coimbra.

“Eu tinha que fazer um show em Coimbra bem no finalzinho do semestre, que serviu como despedida, então eu encarei isso como um show-tese, um show que toca nos assuntos sobre os quais eu pensei durante esse semestre de aulas e residência. Aí escrevi essa canção que abre o show e fala sobre essa trajetória”, explica. A música é a primeira inédita de Calcanhotto desde 2015 e está disponível nas plataformas digitais desde 23 de novembro, além de ter tido um clipe dirigido por Dora Jobim e Gabriela Gastal com imagens da turnê.

Temas atuais
Em A mulher do Pau Brasil, Adriana Calcanhotto resgata os impactos da poesía Pau Brasil, do Movimento Modernista e de Oswald de Andrade em sua trajetória musical em trechos como: “Nasceu no Sul,/ foi para o Rio/ E amou como nunca se viu/ Depois do Rio que tragou/ No além-mar onde emergiu/ Chamou-se a mulher do Pau Brasil”. E também, de certa forma, está alinhada com o momento atual da mulher no cenário artístico, desafio que ela diz ter sido mais fácil para ela graças à presença de Marisa Monte na cena brasileira.

“Quando Marisa Monte apareceu, ela abriu muitas portas para nós, mulheres da geração dela, porque ela é dona das canções dela, produz, canta. Tudo isso parece muito normal hoje, mas não era assim naquele momento. Então, ela ajudou muito as cantoras contemporâneas delas, como eu, Cássia (Eller) e Zélia (Duncan). O mundo executivo da música, os técnicos, os produtores, as pessoas dentro do estúdio, em geral, era exclusivamente masculino. Hoje isso está mudando. Quem faz a engenharia de som do meu show é uma menina. Vejo meninas dentro do estúdio. É muito lento e muito batalhado, mas acho que estamos andando”, analisa.

Uma semana após ter lançado A mulher do Pau Brasil nas plataformas digitais, Adriana Calcanhotto divulgou uma versão de O cu do mundo, música de Caetano Veloso, que ganhou um remix com produção musical dos DJs Ubunto e Zé Pedro. “O cu do mundo foi uma surpresa, porque eu não tava pensando nela para o show. Não fiz na versão lá de Portugal. Mas quando terminei os ensaios no Brasil, eu tinha uma tarefa, que era pegar vários samples de Caetano para usar na música Vamos comer Caetano para interagir com a base da música. Fiz essa gravação em 1998, de lá pra cá, tem muito mais sonoridade (na carreira do músico). Fui rever para ver se tinham sonoridades e frases que tinha a ver com A mulher do Pau Brasil. Peguei o disco Circulador e escutei O cu do mundo, que eu tinha esquecido como era. Quando eu ouvi, eu tive um impacto, um choque e falei: ‘Meu Deus, essa música está falando de hoje e não de 1991’”, lembra.

Assim veio a ideia de Adriana Calcanhotto fazer uma versão própria para a música que diz: “O furto, o estupro, o rapto pútrido/ O fétido sequestro/ O adjetivo esdrúxulo em U/ Onde o cujo faz a curva/ O cu do mundo, esse nosso sítio/ O crime estúpido, o criminoso só/ Substantivo, comum/ O fruto espúrio reluz/ À subsombra desumana dos linchadores/ A mais triste nação/ Na época mais podre/ Compõe-se de possíveis/ Grupo de linchadores”.

“Não me lembro de ter achado tão atual em 1991. O show tava todo ensaiado, mas quando cheguei no estúdio falei: ‘vamos tirar mais uma, porque agora que eu ouvi essa música, tive esse impacto, eu não vou conseguir fazer o show sem ela, sempre vou sentir que está faltando alguma coisa’”. A faixa também ganhou um clipe.

Porém, o lançamento de duas faixas não quer dizer que Adriana Calcanhotto pretende lançar um material da turnê A mulher do Pau Brasil, pelo contrário. “Não tenho pretensão de fazer disco ou DVD de A mulher do Pau Brasil. Ele nasceu para ser um show, tenho a felicidade que virou uma turnê enorme no Brasil, mas ele precisa fechar em fevereiro, porque eu volto para Coimbra”, explica;

Duas perguntas / Adriana Calcanhotto

Você está lançando uma versão de O cu do mundo, do Caetano Veloso. Você é uma artista que também gosta de interpretar a música dos outros?
Gosto muito. Eu sou e me considero uma intérprete, dessa escola de intérpretes que gosta da apropriação. Quando eu vou cantar uma música, eu vou cantar aquela música porque eu gostaria de ter feito. Então, ela é tratada por mim como se fosse minha, eu trago para o meu universo. Por isso, eu fracassei na noite, porque eu não sei fazer cover, só sei cantar do meu jeito. (risos)

Como foi para você acompanhar todo esse ano atribulado no Brasil de Portugal?
Tem sido riquíssima essa experiência de olhar para o Brasil com esse afastamento um pouco físico. Dá uma ideia um pouco mais otimista. Na verdade, dá essa sensação de que as coisas estão andando, estão em movimento, não importa a direção, importa que estamos em movimento. E é isso que eu acho mais interessante.




martes, 11 de diciembre de 2018

2006 - CHERCHE LA ROSE



Letra: René Rouzaud (1905/1976)
Música: Henri Salvador (1917/2008)

Dans le sable du désert
Sur les dunes de la mer
Et tant pis si tu te perds,
Cherche la rose {la rose}

Aux lucarnes des prisons
Où l'on rêve de pardon
Où se meurt une chanson
Cherche la rose {la rose}

Sous les mousses, les orties
Dans les flaques de la pluie
Sur les tombes qu'on oublie
Cherche la rose {la rose}

Où s'attristent les faubourgs
Chez l'aveugle, chez le sourd
Où la nuit rêve du jour
Cherche la rose {la rose}

Au fond de ton cœur meurtri
Où la source se tarit
Où dans l'ombre monte un cri
Cherche la rose

Et battant tous les pavés
Si tu n' l'a point trouvée
Tu l'auras au moins rêvée
Cherche la rose {la rose}
Cherche la rose {la rose}
La rose {la rose}
La rose {la rose}
La rose {la rose}
La rose {la rose}...






2006 – HENRI SALVADOR
Duo avec CAETANO VELOSO
Álbum”Révérence”
V2 Music /Warner Music France CD WR 1043438, Track 4.





2000 - PRENDA MINHA - Turnê européia


Paris, 13/6/2000 - Foto: Frederic Reglain


4/6/2000 - Basel - Suisse - Stadt Casino
5/6/2000 - Zurich - Suisse - Kongress Saal


7/6/2000 - Koln - Germany - Philarmonic Hall

9/6/2000 - Telaviv - Israel - Perf Arts Center
10/6/2000 - Telaviv - Israel - Perf Arts Center


13/6/2000 - Paris - France - Teatre Grand Rex

15/6/2000 - Londres - England Barbican
16/6/2000 - Londres - England Barbican


17/6/2000 - Bruxelles - Belgique - Palais des Beaux Arts

19/6/2000 - Milano - Italia - Teatro Smeraldo
20/6/2000 - Milano - Italia - Teatro Smeraldo


22/6/2000 - Lisboa – Portugal - Coliseu
23/6/2000 - Lisboa - Portugal - Coliseu
24/6/2000 - Espinho - Portugal - Cassino
26/6/2000 - Porto - Portugal - Coliseu
27/7/2000 - Porto - Portugal - Coliseu


29/6/2000 - Barcelona - Espanha - Pueblo Espanhol-OA
1/7/2000 - Malaga - Espanha - Teatro Cervantes
3/7/2000 - Madrid - Espanha - Cuartel Don Duque
 
5/7/2000 - Roma – Italia - Piaza Navone








 
 











Alemanha - Catedral de Colônia





13/6/2000 - Paris - Henri Salvador, Caetano e Georges Moustaki

13/6/2000 - Paris - Paula Lavigne, Caetano e Pina Bausch









 



FOLHA DE S.PAULO
16/6/2000


 






FOLHA DE S.PAULO      


São Paulo, domingo, 27 de agosto de 2000





Pina Bausch

Aquela coisa toda


"Encontrei uma força viva que
funcionava como se estivesse
recebendo o "Sgt. Pepper's" e os
contos de Clarice"


por Caetano Veloso

Ensaio todos os meus shows sentado de frente para os músicos. Os movimentos de corpo que vou adicionando, depois subtraindo, substituindo -mas que, ao longo das temporadas, vão se multiplicando- , começam a se formar quando o show já está diante do público. Isso é o que me permite uma atitude desabusada com respeito às quase-danças que acompanham minhas apresentações de canções no palco. Não sou dançarino. Já na estréia de "Livro Vivo", em São Paulo, eu deliberadamente fazia, num determinado momento, gestos repetitivos, maquinais-obsessivos, num estilo que muitos associam ao trabalho de Pina Bausch: era um aceno a essa artista que me apaixona.

Na canção "Jorge de Capadócia", quando na letra se diz "cordas e correntes arrebentem/ sem o meu corpo amarrar", eu repetia diversas vezes (e independentemente do ritmo em que estava cantando) o gesto de desatar amarras, passando um pulso pelo outro com rispidez e abrindo os braços até meio-caminho, onde o movimento se interrompia e recomeçava. Era uma referência, parente dos flashes de Carmem Miranda ou de Mick Jagger que brilhavam por alguns segundos no show de "Transa", em Londres, 1971. Fora essa citação, não há nada da dança de Pina Bausch nas minhas dancinhas de "Livro Vivo". Embora hoje haja muito de Pina Bausch em mim.

Pina estava em Paris na platéia de "Livro Vivo", no mês passado. Lá também estava Betty Milan, que escreveu um texto muito terno sobre o show. Nesse texto, Betty conta ter percebido a presença constante da dança de Pina na minha dança. Mas a verdade é que a grande influência no desenvolvimento do meu gestual cênico vem de outra dançarina: Maria Esther Stockler, sobre quem escrevi palavras entusiásticas no livro "Verdade Tropical" (e de cuja arte se podem ver exemplos no filme "O Cinema Falado"), mas cuja contribuição propriamente artística não encontrou, no referido livro, o espaço de comentário que mereceria. Curiosamente, foi Betty Milan quem me chamou a atenção para o fato de ser esse meu tão extenso livro uma conversa entre homens, em que as mulheres não parecem ter presença de criadoras ou pensadoras.

De fato, por mais impactante que tenha me parecido o estilo pessoal (e literário) de José Agrippino de Paula, Maria Esther Stockler não poderia estar no livro apenas como sua namorada, quando, no fim das contas, há mais influência direta da arte dela sobre a minha do que poderia haver da dele. "Clube do Bolinha". (Tampouco aparece no livro referência ao trabalho de Eveline Hoisel sobre "Panamérica", trabalho que li antes mesmo de ser publicado e que desmente minha afirmação de que a "epopéia" de Agrippino não teve acompanhamento crítico significativo.) Maria Esther, com sua independência, sua feroz radicalidade, resguarda do lixo vulgar do mundo publicitário em que atuamos os passos sagrados, os acenos a um tempo viscerais e etéreos, os meneios cultos e orgânicos que ela tem sabido desenvolver. É o que vejo nela que, quase sem pensar, busco nos esforços de purificação corporal libertadora com que, entre outras coisas, tento salvar-me de mim mesmo. Maria Esther Stockler, uma bailarina brasileira.

Conquista pela surpresa
Pina Bausch é outra coisa para mim. Chegou muito depois e me conquistou pela surpresa. O importantíssimo acontecimento que foi a volta ao Brasil de Gerald Thomas como diretor de teatro trouxe às conversas que ouvi -e aos artigos que li- dois nomes: Bob Wilson e Pina Bausch. Ligavam sempre ambos a uma estética de alta formalização e a uma temática do desespero expresso em movimentos obsessivos. Nunca vi nada de Wilson. Vi as encenações de Thomas e, embora me impressionasse a adequação da produção aos efeitos almejados -e ele me parecesse, ao menos quanto a isso, deixar o resto do teatro brasileiro na pré-história-, nada chegou a me encher as medidas como o tinham feito o "Zumbi" de Boal e "O Rei da Vela" de Zé Celso -e como veio a fazê-lo o recente "Ventriloquist" do próprio Gerald.

As primeiras peças dele a que assisti me sugeriam vitrines bem-arrumadas em que se expunha, não sem uma certa ironia, a estetização de um pessimismo de convenção. Quando vi o grupo de Pina pela primeira vez, no Municipal do Rio, com um espetáculo em que se dizia que os bailarinos dançavam sobre lama e uma mulher chorava por 15 minutos, com grito e montanha no título, fiquei estarrecido. Em vez da butique do desespero que seus supostos admiradores brasileiros anunciavam, encontrei uma força viva, uma inspiração genuína que funcionava em mim como se eu estivesse recebendo pela primeira vez (e ao mesmo tempo) os contos de Clarice Lispector e o "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".

As roupas ocidentais modernas nunca foram comentadas pela dança com tanta profundidade. A lama era um desafio cenográfico que, por se lograr do modo como se lograva, perdia o caráter de notícia e, ainda assim, não se gastava como efeito, sempre oferecendo grandes oportunidades de experiências tenras, novas -isso ao longo de horas. A mulher que chorava no intervalo trazia um tal sinal de frescor do ânimo do grupo, era um tal testemunho da realidade do teatro e da teatralidade do real, que a gente não tinha como reagir com uma resposta pronta: a gente tinha que se demorar, conviver, pensar, parar de pensar, parar para pensar. Um uivo de lobo com lua de papel colada no fundo do palco; uma mulher que andava sobre um imaginário chão vertical na linha da cortina lateral do palco, repetidamente carregada por um grupo de homens desde o chão até o mais alto que desse; um torneio de natação (a lama sobre o palco). Em suma, eu me comovia e me esquecia de mim e reencontrava lugares do espírito que aos poucos reconhecia e era levado a outros lugares que desconhecia até então e que me faziam entender melhor os antigos lugares. Tinham me anunciado um show de idéias cromadas e eu encontrava a vida. Me falavam de Gerald e de Antunes e de Bia Lessa e de Bob Wilson e eu só me lembrava de "Aquela Coisa Toda" do Asdrúbal Trouxe o Trombone.

Instância precária
Isso aqui é uma confissão algo acrítica de um espectador que se sente artista enquanto assiste. "Aquela Coisa Toda" foi uma das minhas mais intensas experiências como espectador de teatro. Não poderia talvez criticamente comparar-se ao "Zumbi", ao "Rei da Vela", ao "Macunaíma". Contemporâneo deste último, o espetáculo do Asdrúbal era-me, então, grandemente preferível. É que a instância crítica é uma instância precária.

Os atores do Asdrúbal tinham necessariamente que ser aquelas pessoas. O palco de repente ficava nu, enquanto eles surgiam em pontos dispersos da platéia para lançar perguntas aos integrantes do grupo. Essas perguntas eram cômicas, tocantes, embaraçosas: e o palco vazio e silente deixava-nos com um espaço aberto na mente, um pouco assustados, um pouco melancólicos, como na experiência de certos poemas. Quando a situação de repente se invertia e os atores se amontoavam no palco e respondiam perguntas que não se ouviam, o silêncio da platéia saía de cada espectador como se fosse uma exposição de suas responsabilidades. De repente, Dionisos em pessoa fazia uma aparição. Quando, ao final, depois de os atores quase-dançarem um périplo pelos Estados do Brasil, eles aderiam, com palavras justas e passo marcado, às greves então arriscadas e pioneiras dos operários paulistas, a dimensão política se nos revelava como uma questão moral íntima, como um movimento do afeto.

Isso tudo era considerado pela crítica profissional como "narcisismo", um "olhar para o próprio umbigo". E, como o público convencional de teatro acompanhava a crítica no entusiasmo pelo "Macunaíma" de Antunes, e o público especial que o Asdrúbal tinha criado para si com "Trate-Me Leão" não reencontrava o costumismo dessa peça em "Aquela Coisa Toda", assisti a esta última muitas vezes quase sozinho no teatro. O que me deixou na memória um segredo estético que não compartilho bem nem com os responsáveis pelo espetáculo. De fato, foi essa qualidade de alma que reencontrei na primeira visão do teatro de Pina -mas Hamilton Vaz Pereira, o diretor de "Aquela Coisa Toda", na platéia do Municipal naquela noite, me confessou não ter percebido o encanto do Tanztheater de Wuppertal.

Eu, porém, entre Rio e Nova York -e depois em Wuppertal, na celebração dos 25 anos da companhia- , vi tudo o que pude de Pina: quase todo o repertório. E sempre a renovação e o aprofundamento da esplendorosa impressão inicial. E sempre a surpresa.

Propus-me a saudar Pina Bausch quando aceitei escrever aqui sobre sua arte. E, no fim, me entreguei a digressões que são retalhos de autobiografia (e reparos à quase-autobiografia que já publiquei em livro). E o que sinto que falta dizer não é de outra natureza.

Devo aqui saldar uma dívida enviesada com o teatro-dança de Tom Zé. O momento em que ele tirava partido do fato de estar sentado numa cadeira diante de um microfone, com minuciosa inventividade, foi um dos mais entusiasmantes para mim do show que ele apresentou, faz poucos anos, no teatro Vila Velha, na Bahia. Paula Lavigne, que estava comigo, me disse depois do espetáculo: "Você é legal, tudo o que você faz pode ser interessante, mas isso aí é diferente: isso aí é um gênio". Foi no "Circuladô" que eu fiz, pela primeira vez, um número de cantar meio-dançando sentado na cadeira: era o tango "Mano a Mano" e eu contracenava com o violão.

Depois, no show "Fina Estampa", criei variações para isso em "Lamento Borincano".

O que vi de Tom Zé no Vila Velha era tão diferente do que faço que eu nunca pensei em relacionar as duas coisas. Muito menos em considerar precedências. Mas é certo que Tom Zé estava ali repetindo -ele o disse- um número que ele tinha feito na TV anos antes. Ao me ver recentemente no show "Livro Vivo", fazendo um número assim, Tom Zé sentiu-se mal. E me disse isso. Como muita gente viu "Livro Vivo", e muito pouca gente viu Tom Zé fazendo aquele número, preciso dizer de público que, em matéria de cantor cantar dançando-representando sentado na cadeira, o número de Tom Zé não é apenas diferente do meu, mas muito melhor. E talvez anterior. Além de não ser seguro que eu não tenha, inconscientemente, pegado algum detalhe exterior daquilo que ele fazia. Muita dor atravessa esses anos todos em que fui famoso e Tom Zé não.

Antes disso, ele e eu aprendemos muito com Boal. O "Arena Canta Bahia" era sobretudo teatro-dança. Chico Buarque acha que, no meu livro, fui injusto com Boal. Não fui. É injusto deixar parecer que, no livro, não traço, ao falar dele, o retrato de alguém grandioso artisticamente. Pediria a quem pensou como Chico que reconsiderasse o teor dos elogios ali contidos à personalidade artística de Boal. Que houve, no momento do tropicalismo, um antagonismo explícito entre nós e ele, não quis (nem deveria) negar. Narrei-o. Qualquer leitor pode decidir que Boal, e não os tropicalistas, é que tinha razão.

Deveria falar também da angústia de ter demorado tantos anos para ver Denise Stoklos no palco. Se este fosse um artigo crítico, eu não poderia deixar de medir a importância que ela tem para mim. E os que fazem dança propriamente, no Brasil: o grupo Corpo, Débora Colker, tantos. Mas a dança, em estado puro, tinha que ficar aqui representada por Maria Esther Stockler.

E Pina Bausch? Lá vai Caetano, dirão, olhando para o próprio umbigo, escrevendo sobre si e sobre o que vai escrevendo sobre si. Mas não é. É que entrar em contato com uma artista grande como Pina é arriscar-se a passar por mudanças que requerem auto-reexame. Em outras palavras: a quem me dá a vida não posso oferecer nada menos do que isto: a minha vida.


Caetano Veloso é compositor e cantor, autor do livro "Verdade Tropical" (Companhia das Letras).

domingo, 9 de diciembre de 2018

2018 - MEN OF THE YEAR – 8° Edição


Aconteceu na noite de terça-feira (27/11), a cerimônia de entrega do 8º premio GQ Men Of The Year Award.














28/11/2018
POR REDAÇÃO GQ


O Men of The Year chegou à oitava edição seguindo a tradição. Não faltou gente bonita, elegante e sincera no palco e na plateia do Copacabana Palace. 

Assim como sobrou emoção na hora de receber os prêmios. Tudo como manda o figurino (de gala) da festa anual da GQ.


Zeca Veloso - Foto: Raphael Dias - Getty Images South America


Caetano Veloso entrega prêmio de surpresa ao filho Zeca no MOTY


Ninguém melhor que o pai poderia entregar a honraria ao prodígio músico


Caetano Veloso entrega o prêmio Música ao filho Zeca - Foto: Roberto Filho


Um dos grandes momentos da cerimônia do MOTY 2018 foi na entrega do prêmio Revelação. Surpreendendo a todos, Caetano Veloso surgiu no palco e entregou a honraria pessoalmente ao filho Zeca, capa da GQ no mês de novembro.

"É uma glória estar aqui. Eu vou entregar o prêmio para uma das pessoas mais importantes da minha vida: meu filhinho, Zeca", disse Caetano Veloso. O carinho foi retribuído pelo talentoso filho, seu parceiro de palco na turnê Ofetório, que ainda conta com Moreno e Tom.




"Quero agradecer aos meus pais, que me convenceram a cantar e tocar profissionalmente, quando eu nem pensava mais nisso. Os grandes homens do ano são esses que tem historias lindas de superação, como Kondzilla e Edu Lyra. Esses são os grandes!", falou Zeca.


Kondzilla

Edu Lyra






2018
Revista GQ Brasil
Novembro

Capa: ZECA VELOSO E RUBEL BRISOLLA




Foto: Pedro Loreto

2018 - CAETANO VELOSO / LETIERES LEITE & ORKESTRA RUMPILEZZ









5/12/2018

Ronaldo Jacobina


Caetano Veloso se apresenta na inauguração do Hotel Fasano, em Salvador

Caetano Veloso vai fazer uma participação no concerto que a Orkestra Rumpillez apresentará no próximo sábado (8/12), durante o segundo dia de inauguração do Hotel Fasano, na Praça Castro Alves. A proposta é que o artista baiano intreprete quatro canções do seu repertório durante a apresentação do grupo de Letieres Leitte que escolheu o repertório do artista para apresentar neste dia. Na sexta (7), o repertório escolhido pela orquestra foi o de Dorival Caymmi com o qual a Rumpillezz viajou o mundo durante sua última turnê internacional.

A informação da participação de Caetano Veloso na festa de inauguração do hotel vinha sendo mantida em sigilo absoluto pelo comando do hotel, mas a coluna apurou que muitos convidados, na ansiedade para conhecerem logo o empreendimento, estavam optando pelo primeiro dia e isso estaria criando dificuldade ao cerimonial para distribuir igualmente os mais de mil convidados nos dois dias. Diante disso, a estratégia usada pelo hotel foi prometer uma surpresa para os que optassem pelo sábado. Agora não é mais surpresa.




8/12/2018

Luan Santos



Caetano e Rumpilezz lotam praça Castro Alves na inauguração do Hotel Fasano


Apresentação ocorreu neste sábado (8) e teve a participação dos convidados para a inauguração


Foto: Almiro Lopes / CORREIO

Era para ser apenas quatro ou cinco músicas, mas Caetano Veloso foi além. Ao se apresentar pela primeira vez ao lado da Orkestra Rumpilezz, na Praça Castro Alves, o artista aproveitou a energia do público, que cantava em coro todas as músicas, e fez uma apresentação com 11 canções que fazem parte de sua história.

Caetano e a orquestra, comandada pelo maestro Letieres Leite, se apresentaram neste sábado (8) durante as celebrações de inauguração do hotel Fasano. O show contou que a participação dos convidados para a inauguração e do público que se concentrou na praça para acompanhar, gratuitamente, a apresentação. Personalidades, políticos e integrandes das administrações pública municipal e estadual marcaram presença.

A Rumpilezz iniciou os trabalhos, com canções do premiado "Saga da Travessia", álbum vencedor do Prêmio da Música Brasileira no ano passado. Caetano entrou no palco na quarta canção e começou com Oração ao Tempo e Coração Vagabundo, que ganhou nova roupagem com os instrumentos da Rumpilezz.


Depois, já com seu violão, cantou Luz do Sol, Você é Linda e Cajuína, com direito a coro da plateia, tanto dos convidados do hotel quanto do público que se aglomerou na praça e acabou ocupando também parte da rua. Com a orquestra, Caetano ainda cantou Milagres do Povo e Depois que o Ilê Passar.

Durante a apresentação, intaragiu com o público, agradeceu a parceria e homenageou o mestre de capoeira Moa do Katendê, morto após uma discussão política em um bar. "Moa do Katendê vive!", disse Caetano, que logo foi aplaudido pelo público. Ainda deu tempo para cantar parabéns para Letieres Leite, aniversariante do dia.

Após o show, Letieres disse que aquele foi um momento triplamente especial. "Primeiro, por ser meu aniversário. Segundo, pela Orkestra se apresentar pela primeira vez com Caetano. E terceiro por estarmos participando da inauguração deste prédio histórico. Esses prédios representam a memória do nosso povo, devem ser recupados como foi esse", afirmou.

Rubén Escartin, sócio-diretor da Prima, proprietária do imóvel, afirmou que o hotel era um presente para Salvador e para a Bahia. “Que seja parte da cidade”.

O maestro Carlos Prazeres, da Orquestra Sinfônica da Bahia, disse estar encantado com o hotel e com a apresentação da dupla. “Caetano e Letieres são dois ícones da música da Bahia. Bom ver essa participação do público, esse carinho com os filhos da terra”. “É um prédio maravilho, e o hotel preservou a arquitetura original, a fachada. Tudo foi muito bem feito”, complementou.

O estudante Lucas Marques, 23 anos, chegou cedo à praça para acompanhar o show. Seria a primeira vez que via Caetano ao vivo. “Como não poderia ser diferente, foi incrível. E disseram que seria um show curto, mas cantaram muito".



Revista QUEM

CAETANO VELOSO FAZ SHOW EM INAUGURAÇÃO DE HOTEL

Rogério Fasano e Constantino Bittencourt recebem convidados na abertura do Fasano Salvador, na sexta-feira (7) e sábado (8), na cidade

11/12/2018

Por Soninha Vieira


Caetano Veloso na abertura do Hotel Fasano Salvador
Foto: Tati Freitas, Lucas Assis / Divulgação

Caetano Veloso e a orquestra, comandada pelo maestro Letieres Leite, animaram os convidados do restauranter Rogério Fasano e do empresario Constantino Bittencourt, sócio-diretor do Grupo Fasano, na inauguração do hotel Fasano, na Praça Castro Alves, em Salvador, entre sexta-feira (7) e sábado (8).


Caetano Veloso e o Maestro Letieres Leite
Foto: Tati Freitas, Lucas Assis / Divulgação

O show contou com participação dos convidados para a abertura e do público que se concentrou na praça para acompanhar, gratuitamente, a apresentação. 

Isto porque o palco foi virado para a Praça Castro Alves, para que o público pudesse assistir também das ruas. Caetano cantou grandes sucessos como "Tempo", "Cajuína" e "Você é Linda".



Metro1
Cultura

Público grita 'Ele não' e Caetano Veloso responde: 'Já é'

O artista fez parte do show de inauguração do Hotel Fasano, na Praça Castro Alves, ao lado da Orkestra Rumpilezz


Por James Martins no dia 10 de Dezembro de 2018

Foto : Vanessa Aragaom / Divulgação

A Praça Castro Alves ficou lotada neste sábado (8) para o show de inauguração do Hotel Fasano, estrelado por Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz e Caetano Veloso. Em certo momento da apresentação, parte do público entoou o grito "Ele não" — criado no primeiro turno das eleições presidenciais para afirmar que qualquer candidato poderia ganhar, exceto Jair Bolsonaro (PSL), aquele que afinal elegeu-se.

De cima do palco, Caetano respondeu simplesmente: "Já é". Um breve comentário sobre o vencimento da hashtag. E o coro cessou. Resta agora torcer para que a oposição consiga se reinventar e alcançar algum êxito em suas reivindicações, para além das palavras de ordem (em geral malogradas) de Facebook.