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domingo, 3 de marzo de 2024

GAL COSTA

 


GAL COSTA


Folha de São Paulo - Serafina

26 de maio de 2013


Subitamente, a voz se tornou a extensão de um corpo, diz Ruy Castro sobre Gal



RUY CASTRO

COLUNISTA DA FOLHA

 

Seu nome não era Gal --ainda.

Era Graça ou Gracinha, como a chamavam seus amigos do Solar da Fossa, um casarão colonial de Botafogo, no Rio, onde ela morava, e cujos inquilinos eram tão jovens, criativos, esperançosos, boêmios, bonitos e duros como ela. Caetano, um deles até pouco antes, se mandara para São Paulo. Mas Paulinho da Viola, Itala Nandi, Rogério Duarte, Claudio Marzo, Betty Faria, Maria Gladys, o pessoal do Teatro Jovem e muitos outros, seus vizinhos de porta, continuavam ali, às vésperas das grandes coisas que iriam lhes acontecer. 

Era 1967, outubro ou novembro, com o verão às portas. Novo no Solar e na vida, eu a via todos os dias no jardim -vestido e cabelos curtos, sozinha, pensativa, 22 anos, quase incorpórea. Um ano antes, Caetano gravara seu primeiro disco, "Domingo", em que dividia com ela a capa e a faixa de abertura, "Onde Eu Nasci Passa um Rio", e lhe reservara várias faixas para que ela brilhasse sozinha. 

O nome Gal estava na capa, sem dúvida, até acima do de Caetano. Mas a voz que saía da vitrola, cantando "Avarandado", "Maria Joana" e outras, parecia tão imaterial quanto sua dona. Era uma voz da bossa nova, voz de travesseiro, feita para soprar intimidades -mas etérea na afinação e quase cruel em sua perfeição. Era como se ela tivesse vindo ao mundo para cantar as canções que João Gilberto nos ficaria devendo.

Algumas semanas depois, já estaríamos em 1968 -ano de que ninguém sairia como entrou. Meninos viraram homens, homens viraram meninos. Correrias, patas de cavalos, tiros nas avenidas, novas palavras de ordem e desordem. Nos quartéis, rumor de sabres --era a noite a caminho. Nos auditórios, artistas de terno da Ducal, de vinco impecável, viam-se dividindo o palco com os de camisolão de bananas e não entendiam nada --era o tropicalismo. 

Não me lembro de Gracinha no Solar em 1968. Se continuou lá, já não era vista flanando pelo jardim em que Caetano mandara plantar "folhas de sonho", como na letra de "Panis et Circenses". Ou então fui eu que, aberto às irresistíveis solicitações das ruas naquele ano, não parei muito tempo para observar. Um dia, alguém ligou um rádio e ouvimos sua voz cantando "Baby". Cantando bonito. Por onde andaria Gracinha? Até que, em 1969, essa voz -subitamente extensão de um corpo, ríspida, descabelada, nacos de pele à mostra- anunciou: "Meu nome é Gal! Meu nome é Gal!" 

E só então descobrimos que Gracinha tinha se despedido do Solar e do mundo, e dera seu lugar a Gal Costa.

 













martes, 12 de noviembre de 2019

2019 - PAULINHO DA VIOLA


"Nasci em 1942. Se tenho uma razão para me orgulhar nesta vida, esta é o ano em que nasci. Hoje, por exemplo, @paulinhodaviola completa a mesma idade que atingi em agosto. Somos @miltonbitucanascimento, @gilbertogil, @paulmccartney, uma pá de gente mágica. Mas Paulinho sempre mereceu um lugar especial em meu Olimpo.

Quando eu o vi e ouvi pela primeira vez, tínhamos 23 anos. Em artigo que escrevi em 1965 para uma revista universitária de Salvador, em resposta aos argumentos um tanto reacionários de Tinhorão, eu já convidava quem quisesse entender o que estava acontecendo com a música brasileira que escutasse Paulinho. Depois, na ventura de ser seu vizinho de porta com porta no Solar da Fossa, foi a ele que mostrei minha primeira canção tropicalista: "Paisagem Útil". A reação de Paulinho foi uma lição de justiça e elegância. "Coisas do Mundo, Minha Nega", "Sinal Fechado", "Para Um Amor no Recife", "Coração Leviano", "14 Anos", só para mencionar as que me vieram à cabeça agora, as canções desse gênio discreto e deslumbrante são a riqueza do Brasil.

Faz muitos anos que só vejo rara e finalmente. Não faz mal. Meu amor por tudo o que ele significa é e será sempre igual: ilimitado. Feliz aniversário!"

[12/11/2019, Caetano Veloso, Facebook]





1967

1981

6/4/1987 - Semana Caetano Veloso - Paulinho da Viola e Gereba

28/2/2015











 
 
 


 
 






























Solar da fossa