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viernes, 22 de mayo de 2026

2016 - Revista CULTURA!Brasileiros


14 de junho de 2016

Brasileiros lança titulo voltado à cultura

A nova revista circulará mensalmente junto à Brasileiros e terá tiragem de 40 mil exemplares


A editora Brasileiros lançou, na sexta-feira, 10, a revista Cultura!Brasileiros. O título circula mensalmente junto à Brasileiros, com tiragem de 40 mil exemplares. As áreas de cobertura são literatura, cinema, música, teatro e TV.

“Não é de agora que notamos uma diminuição das publicações de cultura ou de cadernos, seções e suplementos culturais nos diversos veículos de imprensa do País e, com isso, queremos que o novo título se torne uma referência”, diz Daniel Benevides, redator-chefe da Cultura!Brasileiros. 

A edição de estreia tem na capa Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, finalistas do Prêmio Montblanc de la Culture Arts Patronage.



Apesar da crise, editora Brasileiros lança revista focada em cultura

 

14/06/2016

Buscando suprir a falta de publicações voltadas para a cultura, a editora Brasileiros na última semana a revista Cultura!Brasileiros. 

Com periodicidade mensal, o veículo terá tiragem de 40 mil exemplares e traz na capa de estreia Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, finalistas do Prêmio Montblanc de la Culture Arts Patronage. 

Editora aposta em revista voltada para temas de cultura

Daniel Benevides, redator-chefe da Cultura!Brasileiros, diz em que a revista nasce fruto do "golpe contra a cultura". "Se essa crise é produto de um golpe – e de um golpe que sintomaticamente atropelou a cultura num de seus primeiros atos –, o entusiasmo da criação ganha também a força da resistência. Assim nasce a CULTURA!Brasileiros". 

Para a editora, o lançamento do veículo é um ato de ousadia num momento em que a grande maioria está recuando. "Para nós, no entanto, o momento deve ser exatamente esse: se tentam nos acuar, avançamos".

A revista falará de temas como cinema, literatura, televisão, mídias digitais, teatro, dança, música etc. O primeiro número sai em junho nas bancas, junto com a Brasileiros.


Créditos: Reprodução

 

Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, finalistas do 

Prêmio Montblanc de la Culture Arts Patronage




Maria Bethânia em poesia e prosa



Sonia Braga 


lunes, 16 de marzo de 2026

2016 - MARIA BETHÂNIA e CHICO LOBO - "MARIA"


Maria Bethânia na gravação da música 'Maria' para o álbum "Viola de mutirão – Do sertão ao mundo", do Chico Lobo.


27/5/2016 - Foto: Marcos Hermes






 

MARIA

(Chico Lobo)


Quando o som de uma viola

Ponteia em louvação

Os olhos tristes da fera

Se enchem de emoção

Seja no campo ou cidade

Nas quebradas do sertão


Lua branca que alumia

O breu dessa solidão

Minha alma brasileira

Se desmancha em devoção

Canto sagrado se escuta

Nas veias do coração


Ai ai

Maria dos sonhos meus

Maria do meu encanto

Que a sagrada Maria

Lhe cubra com o seu manto


Cantiga de encantamento

Água, terra, fogo e ar

Dos seres da natureza

Pra Maria do meu cantar

A viola traz consolo

Pras dores do meu penar


A requinta que ecoa

Nas rezas de uma folia

Os tambores que retumbam

Louvando a Virgem Maria

Venho te trazer oferta

Na viola caipira


Maria dos sonhos meus

Maria do meu encanto

Que a sagrada Maria

Lhe cubra com o seu manto


Maria dos sonhos meus

Maria do meu encanto

Que a sagrada Maria

Lhe cubra com o seu manto









miércoles, 28 de enero de 2026

2016 - MARIA BETHÂNIA REINAUGURA CONCHA ACÚSTICA

 

Maria Bethânia em show de reabertura da Concha Acústica do TCA, 

em Salvador - Foto: Manu Dias /GOVBA



13/05/2016

Maria Bethânia reinaugura Concha Acústica com show emocionante


Apresentação foi realizada na noite desta sexta-feira (13/5), em Salvador. 

Show ainda contou com a participação de Margareth Menezes.


Maiana Belo e Lílian Marques

Do G1 BA


A cantora Maria Bethânia abriu nesta sexta-feira (13/5) o Festival "Eu sou a Concha", que marca a inauguração da nova Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador. 

A apresentação, que emocionou o público presente, começou pontualmente às 19h. Com os pés descalços e saia longa, com bastante brilho, a diva da MPB arrancou muitos aplausos do público ao iniciar a apresentação com uma interpretação impecável de "Sangrando", de Gonzaguinha.


Maria Bethânia em show de reabertura da Concha Acústica do TCA
Foto: Manu Dias / GOVBA


"Começaria tudo outra vez", também de Gonzaguinha, e "Mortal loucura", que embala o romance dos personagens Santo e Tereza na novela Velho Chico, da TV Globo, "Brincar de viver", "Reconvexo" e "Non, Je Ne Regrette Rien, de Edith Piaf, fizeram parte no repertório. 

"Que beleza ver a Concha de novo, quente, viva. Dia 13 de maio é Dia de Nossa Senhora de Fátima, o mundo precisa de misericórdia e que ela estenda seu manto de luz sobre todos nós", disse Bethânia. Logo após, ela puxou a oração à Ave Maria. O público aceitou o convite da cantora e todos, de pé, fizeram a oração. Em seguida, ela cantou a música "Yá Yá Massemba". 

Enquanto cantava "É o Amor", da dupla sertaneja Zeze Di Camargo e Luciano, Bethânia surpreendeu o público, que aplaudiu, ao também cantar o refrão da música "Vai dar Namoro", de outra dupla, Bruno e Marrone.

A cantora Margareth Menezes também subiu ao palco da Concha na noite de reinauguração do espaço e junto com Bethânia cantou "Os Mais Doces Bárbaros". Depois, Maria Bethânia deixou o palco e Margareth Menezes cantou sozinha "É d'oxum", de Gerônimo, e "Luz de Tieta".


Bethânia cantando com Margareth no show de reabertura da Concha Acústica, 

em Salvador - Foto: Maiana Belo/ G1 BA


Ao som de "O que é, o que é", Bethânia cantou junto com Margareth Menezes e deixou o palco, mas voltou e colocou todo mundo para sambar ao cantar a música "Menina dos Olhos de Oyá" enredo da Mangueira, escola de samba que a homenageou e foi campeã do Carnaval do Rio de Janeiro neste ano.



MARIA BETHÂNIA SE APRESENTA NA CONCHA ACÚSTICA EM SALVADOR

14/05/2016 

A primeira noite do Festival Eu Sou a Concha, que marca a inauguração da nova Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), contou com o show de Maria Bethânia, que recebeu no palco a cantora Margareth Menezes, nesta sexta-feira (13/5). 

Às 19h, e ao som de ‘Sangrando’, de Gonzaguinha, Bethânia reinaugurou o palco e cantou grandes sucessos de sua carreira, além das canções mais novas, como ‘Mortal Loucura’. “Parabéns, Salvador! A Concha está um show!”, disse Bethânia no palco. “Que beleza ver a Concha de novo viva, quente. Salvador merece, a Bahia merece, nós merecemos. O Brasil merece. A música merece”, completou Bethânia durante a apresentação. 

No espetáculo, a artista lembrou que dia 13 de maio é dia da abolição da escravatura e de Nossa Senhora de Fátima, afirmou que o mundo precisa de misericórdia e pediu aos espectadores que rezassem uma Ave Maria com ela.

Alternando com a anfitriã da noite, Margareth Menezes realizou mais uma apresentação na Concha, palco onde já se apresentou diversas vezes e agitou o público com canções, como Tieta e É D’Oxum. 

Margareth comemorou a entrega do equipamento e já faz planos para novas apresentações. “Hoje é um dia muito especial. A concha é um espaço que engrandece a cultura do nosso estado e toda a classe artística. Cantar aqui hoje, fazer um show com Maria Bethânia torna esse dia muito especial, estou muito feliz”, comemorou.







 











Foto: Sergio lsensee


lunes, 29 de diciembre de 2025

2016 - BETHÂNIA, DO OPINIÃO À MANGUEIRA

 





16 de junho de 2016





Abelha Rainha da MPB, Bethânia brilha com repertório e teatralidade nos palcos

No show Opinião em 1965, cantora baiana, que agora lança nova turnê, assombrou com Zé Kéti e João do Vale e depois se tornou um dos maiores nomes da nossa cultura


Fabio Ponso*

*com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBO 

 

Âmbar. Talismã. Diamante verdadeiro. ‘Pedrinha’ preciosa do popular cancioneiro. Sua voz, grave e mítica, carrega a ancestralidade da lendária Bahia, ressoa à luz do sincretismo, filha de Oyá e de Maria. Maria, que no Recôncavo sonhou ser trapezista e dançou samba de roda. Bethânia, que nos palcos declamou poemas, e entoou canções de amor e drama. Pés descalços, correr de águas claras que cantou o Brasil em vários tons, da dor e da saudade, da mistura e da diversidade... Com devoção, a MPB celebra nova turnê de um de seus maiores nomes. A cantora abre o calendário de apresentações de "Claros breus" com quatro apresentações intimistas no Clube Manouche, no Jockey Club da Gávea, em julho. 

Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu em 18 de junho de 1946, em Santo Amaro, na Bahia. Seu nome foi uma sugestão de seu irmão, Caetano Veloso, inspirado num sucesso interpretado por Nelson Gonçalves. A cantora cresceu no seio de uma família com imensa vocação artística. Seu pai, Zezinho, apreciava a poesia, e sua mãe, Dona Canô, notabilizou-se por sua face festeira e musical. Bethânia também tem como irmã a escritora Mabel Veloso e como sobrinhos os cantores Belô e Jota Velloso. Sua opção pelo caminho da arte se deu ainda na infância, quando, inspirada pelas apresentações circenses, se apaixonou pelo universo dos palcos. Na juventude, atuou em espetáculos amadores e, em 1960, quando se mudou para Salvador, ao lado de Caetano, começou a frequentar o movimentado meio artístico da cidade. Nesse período, conheceu Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, entre outras estrelas iniciantes. Aos 17 anos, estreou como cantora na peça “Boca de ouro”, de Nelson Rodrigues, interpretando, por detrás das cortinas, o sucesso “Na cadência do samba”, de Ataulfo Alves. Sua primeira apresentação solo ocorreu em 1964, no espetáculo “Mora na filosofia”. Na ocasião, conheceu a cantora Nara Leão, num encontro que selaria o seu destino. 

Em fevereiro de 1965, Nara estava em cartaz no Rio de Janeiro com o musical “Opinião”, ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Com problemas de saúde, decidiu convidar Bethânia para substituí-la no espetáculo. A estreia da baiana, interpretando de forma visceral a música de protesto “Carcará”, provocou um verdadeiro assombro no meio musical. Brotava ali uma grande revelação, “com toda a pinta de ser musa e mito”, como previu O GLOBO na edição de 20 de fevereiro de 1965. 

No mesmo ano, ela lançou seu primeiro álbum e participou de dois musicais dirigidos por Augusto Boal. Em 1966, voltou ao palco do Teatro Opinião, ao lado de Vinícius de Moraes e Gilberto Gil, com o show “Pois é”, e participou do I Festival Internacional da Canção, defendendo a música “Beira-mar”, de Caetano e Gil. 

Lançou outros LPs e se apresentou, até 1970, em teatros e casas noturnas do Rio. Sua projeção definitiva no cenário nacional se deu em 1971, após o lançamento do LP “A tua presença”, elogiado pela crítica especializada. Foi também nesse ano que introduziu, no aclamado espetáculo “Rosa dos ventos”, dirigido por Fauzi Arap, uma linguagem teatral mais apurada em seus shows, ideal ao exercício de seus múltiplos talentos de cantar, dançar, interpretar papéis e recitar poemas. 

Sua discografia é composta por quase 50 álbuns, com destaque para “Pássaro proibido” (1976), que lhe rendeu seu primeiro disco de ouro, “Álibi” (1978), que a tornou a primeira cantora brasileira a alcançar a marca de 1 milhão de cópias vendidas, além do premiado “Brasileirinho” (2004). Merecem ser lembrados ainda o álbum em dueto com Chico Buarque, gravado ao vivo no Canecão, em 1975, e “Doces bárbaros”, fruto de turnê emblemática com Caetano, Gil e Gal, idealizada por ela, em 1976. Em 2002, sua luta pela liberdade de criação culminou com a ruptura com as grandes gravadoras e o lançamento de “Maricotinha ao vivo”, seu primeiro disco por um selo alternativo. Em 23 de dezembro de 2001, Bethânia declarou ao GLOBO: "Quando me preparo para gravar, não me preocupo com o fato de a canção ser nova ou antiga, daqui ou de fora, se tocará ou não no rádio. Faço apenas o que quero fazer, livre, sem medo". 

Espelhando esse princípio de independência artística, seu repertório é caracterizado por um forte traço autoral, valorizando a brasilidade, a cultura regional, a poesia, e a diversidade de gêneros, e mesclando grandes compositores com novos talentos da música popular. Entre seus maiores sucessos, além da emblemática “Carcará”, figuram canções que a tornaram fenômeno de execução nas rádios, como “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque; “Explode coração”, de Gonzaguinha; “Brincar de viver”, de Guilherme Arantes; “Fera ferida”, de Roberto e Erasmo Carlos. Já a simbólica “Mel”, de Caetano Veloso e Waly Salomão, lhe rendeu o título de “Abelha Rainha” da MPB. 

Entre as premiações de sua carreira, estão a conquista do Prêmio TIM em mais de uma categoria, em 2004, 2006 e 2007, e do Prêmio Shell, em 2008, concedido pela primeira vez a um intérprete. Em 2001, foi escolhida pelo GLOBO como personagem da música brasileira. Também não lhe faltaram reverências no cinema, em documentários como “Música é perfume”, de 2005, e “Pedrinha de aruanda”, de 2007. Em 2015, ao completar 50 anos de carreira, recebeu outras homenagens, entre elas a festa de gala promovida pelo Prêmio da Música Brasileira, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, uma exposição dedicada à sua vida e obra, no Paço Imperial, e a escolha como enredo da Mangueira, que rendeu à escola de samba o título de campeã do carnaval. 

No início de 2011, a cantora esteve envolvida numa polêmica por ter sido autorizada pelo Ministério da Cultura a captar R$ 1,3 milhão para um blog de poesia. Desse valor, Bethânia receberia R$ 600 mil como diretora artística do projeto. A notícia gerou indignação, principalmente entre internautas, e inspirou um grande debate sobre os meios de captação e investimentos em cultura. Diante da repercussão negativa, o projeto acabou não indo adiante. Bethânia, que não se envolveu muito na polêmica, declarou que o blog seria muito útil para disseminar a poesia pela internet, e que o projeto não era seu, mas do cineasta Andrucha Waddington e do pesquisador Hermano Vianna. Ela apenas participaria recitando, em vídeo, trechos de poemas no blog. 

Bethânia não se casou e não teve filhos. Sempre dispensou maior atenção à sua carreira, e, discreta, cultiva hábitos caseiros e preserva sua intimidade. Há, no entanto, dois aspectos que a cantora não se furta a revelar: o papel central da religiosidade em sua vida, mesclando devoção católica e fidelidade às crenças do candomblé; e sua personalidade firme, incisiva, sempre fiel aos seus sentimentos, como um reflexo de seu próprio canto. Como definiu Sérgio Bittencourt, em críticas publicadas no GLOBO em 17 de julho de 1969 e 21 de julho de 1971: “Bethânia não canta nem diz uma canção. Ela sente (...) Está livre de todas as obrigações”. “Bethânia é drama vivo. Sacerdotisa, vive numa espécie de clausura. Faz parte dela generosamente sua vida. Ela ama a pessoa que não se trai, que não se aliena na função que exerce (...) Bethânia é uma sereia, e, se não tivermos cuidado, seu canto poderá nos levar longe demais”.

 





26/4/1973 - "Drama, luz da noite", Teatro da Praia, no Rio

 Foto: Athayde dos Santos / Agência O Globo





















8/2/2016 – Carnaval. Enredo da Mangueira
Foto: Daniel Marenco
/Agência O Globo




jueves, 6 de noviembre de 2025

2016 - ABRAÇAR E AGRADECER - DVD

 

Foto: Leo Martins / Agência O Globo


Música

Maria Bethânia: 'Só me resta o palco. Vou lá e grito feito uma doida'

 Cantora detalha seu processo de criação e lamenta a ascensão do conservadorismo

por Leonardo Lichote

01/12/2016 


Bethânia: "Vejo a gente querendo imitar o ruim. Estou morta de pena do Brasil" 
 
Foto: Leo Martins / Agência O Globo

 

RIO - Antes de surgir no palco e gritar “feito uma doida”, como diz, Maria Bethânia entra numa calmaria ritualística. A cena é o abre-alas de “Abraçar e agradecer”, DVD (com versão em CD também), que chega agora ao mercado, encerrando as celebrações de seus 50 anos de carreira (em 2015). “Abraçar e agradecer” traz dois discos. No primeiro, está a íntegra do show de mesmo nome, que estreou por aqui em janeiro do ano passado, com músicas como “Começaria tudo outra vez”, “Rosa dos ventos” e “Viramundo”. No segundo disco, estão extras, incluindo cenas das demais comemorações em torno da data. Enquanto lança “Abraçar...” e começa a preparar um novo disco, a cantora baiana de 70 anos concedeu a seguinte entrevista ao GLOBO. E falou de seus rituais, do processo de criação, de influências e de política: “Temos uma natureza diferente da desses brancos europeus e americanos. Somos outra cor. E vejo a gente querendo imitar o ruim. Ah, me deprimo demais (...). Tô morta de pena do Brasil”.

 

- Qual é a importância do ritual?

Acho que me equilibra. Sou muito livre, solta, e é bom ter uma sequência de atitudes a tomar, ter hora para cada coisa... Isso me dá um norte. Chegar três horas antes é imprescindível para mim. Desde a hora em que saio de casa, a maneira como rezo, olho o tempo, vejo as pessoas, aquilo já vai me vestindo para a cena. Ninguém nunca me mandou nem ensinou. Achei um modo de me separar da rua. Não gosto de usar em cena o que uso na rua. Nada que me traga a rua. Quero só aquela caixa preta, que é a plateia, e está ótimo para mim. É meu paraíso. 

- Como você reage quando, por algum motivo, um ritual é quebrado?

Sou disciplinada e me organizo pra que tudo dê certinho. Mas a vida existe pra isso. Às vezes não é aquele ambiente que eu quero, às vezes não consegui fazer minhas etapas no meu tempo de relaxamento. As coisas acontecem, mas eu tenho que acatar, respeitar, não volto atrás não. Não vou fazer de novo. Já passou. Às vezes a rua entra, invade, os aborrecimentos caseiros, tudo. Ninguém morre pra cantar, né? Pelo contrário. Tem que cantar vivo. 

- No DVD aparece também um pequeno camarim montado ao lado do palco.

Os camarins, principalmente no Brasil, nunca são no andar da apresentação. Há muita escada, fios, passa-se por baixo, por cima, uma aventurazinha. E, quando se tem que passar por isso antes de entrar em cena, o diafragma vai embora. Tenho que parar, rezo, gosto de rezar, faço uma respiração e fico pronta para a hora de entrar. Aquele pequeno camarim é onde me troco no intervalo. Porque não daria tempo de fazer o percurso até o camarim, o trânsito engarrafado (risos). 

- Você tem rituais para criar?

O mais importante é o ócio. Ficar soltinha para filtrar o bom, o mau, o médio. Anoto o que vem à cabeça. Música, pensamento, livro, conversa, uma planta que vi, um problema que tenho que resolver. Vou anotando. Isso tudo faz parte para mim do que vou inventar. Tenho milhares de cadernos. E me perco, lógico. O Waly (Salomão) dizia: “Você é igual a mim, risca, escreve, anota tudo”. É uma imundície. Mas é um modo de organizar. 

- O que anda criando?

Estou levantando repertório para o próximo disco. A alguns compositores peço, para outros digo: “Tô começando a fazer, se tiver algo...”. Eles perguntam: “Já tem ideia?”. Digo: “Não, vocês é que vão me dar”. Neste momento estou com ideia nenhuma e com todas as ideias. Porque agora espero o que eles vão me dizer. Como intérprete, eles é que me passam os recados, o que está quente neles, vivo, precisando ser falado. Aí vem política, amor, dor, degradação, paraíso, vem tudo. E vai me ajudando. Adoro este momento, mas ultimamente tem sido mais difícil ter tempo para o ócio. Lembro quando fiz “Mar de Sophia”. Cheguei a Salvador, acordei muito cedo, sentei na varanda, em cima do mar, peguei um papel. Quero fazer alguma coisa sobre água, Dona Sophia (a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen), eu estava com os livros dela. Peguei o papel e fiz os dois discos, escolhi praticamente todos os poetas que queria ali. Parece que fiquei estudando, mas só sentei ali para olhar distraída. 

- Agora você está completamente mergulhada nesse novo disco?

Não, porque tem esse lançamento do DVD, depois vou para a Bahia participar de um show de Margareth (Menezes). No dia 9 recebo o título (de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia). Como muda essa data... A faculdade foi ocupada, desocuparam. Farei uma leitura no dia 14. Depois, mesmo que queiram e que inventem, não vai dar. É Natal, período que fico em branco. Minha mãe morreu num Natal, não me serve não. Festejo o nascimento do Menino Deus todos os dias, prefiro. E também não sou muito de réveillon, essa gincana não me encanta. Então espero em Deus que a maluquice comece a invadir com mais força depois disso. Mas tenho recebido músicas lindas. 

- Nas canções “Mortal loucura” e “Era pra ser” (lançadas neste ano como singles, para trilhas de novelas), você trabalha com músicos mais jovens.

Sabe como foi “Mortal loucura”? Ouvi o disco da Elza (Soares). Fiquei louca. Falei para (José Miguel) Wisnik (a canção é um poema de Gregório de Matos musicado por ele): “Faz com os meninos que trabalharam com a Elza”. Fiquei muito impressionada com o trabalho deles. Elza não vou nem falar, sou perdida por ela. Com Gregório, tinha que ser uma moda de viola doida. E “Era pra ser”, canção linda da Adriana (Calcanhotto), ela disse que queria guitarra ou violão. Eu me lembrei de Pedro Sá. Depois, entrou Moreno (Veloso). 

- Pensa em trabalhar com músicos mais jovens no próximo disco?

Ainda não estou nessa parte. Mas que vou mexer, vou.

- No DVD, há a informação que o Desfile das Campeãs da Mangueira foi exatamente 50 anos depois de sua estreia no “Opinião”. Como você vê essas pontas se encontrando?

Pois é, Kati (Almeida Braga, dona da Biscoito Fino) me falou. Isso é uma coisa mágica. É lindo ter acontecido assim. E tem uma coisa bonita. Desde que terminou o desfile, toda vez que eu tenho um aborrecimento sério, ou tristeza, vem baixinho: “Quem me chamou, Mangueira...”. (trecho do samba-enredo da escola). Aí abre, porque tem uma felicidade tão grande nisso... Algo que nunca alcancei, que vou alcançar talvez noutro patamar. Toda vez, se entristecer, se doer, aquilo vem assim. E aí eu sei que é maior do que tudo que senti, que vi, que vivi. 

- Você está prestes a receber um título de Doutora da Universidade da Bahia. Na Bienal de São Paulo, você lembrou que foi educada em escola pública. Como vê a forma que a educação vem sendo tratada pelo governo Michel Temer?

A primeira coisa que o governo fez foi tirar dinheiro da educação e da saúde. Aliás, todos fazem. Bota em obra, em avião, bota no... ia dizer um palavrão, mas não fica bom para uma senhora. Mas só vejo piorar. Ao mesmo tempo, existem sinais deslumbrantes, como uma escola no Piauí, embaixo de uma árvore, com os meninos entre os melhores de matemática do mundo inteiro. Como sempre, a vida floresce. Mas a educação no Brasil é desastrosa. 

- Você chegou ao Rio em 1965...

No auge da ditadura. 

- Exatamente. Como vê a escalada do conservadorismo hoje no Rio, no Brasil, no mundo? As vitórias de Trump, da direita francesa, de Crivella, que já fez declarações de intolerância com relação a religiões afro-brasileiras...

Agora, ele (Crivella) fala que vai governar para todo mundo, todas as religiões. E tem essa história de que artista é tudo vagabundo, piranha, que tira o dinheiro do povo. As pessoas não querem entender, não querem perder tempo. Tem que passar uma mensagem no WhatsApp, é tudo muito corrido. Essa rapidez de hoje interessa para muitas coisas, mas é um trator em cima de valores fundamentais. As pessoas se desequilibram, perdem a mão. Não por perversidade, mas pela ignorância e pela volúpia da facilidade. A eleição desse senhor americano, a votação na França que a direita ganhou... E quem quer ganhar mesmo é a extremona, a moça lá (Marine Le Pen) que quer que volte Joana D’Arc, que, coitada, era uma menina que queria namorar. 

- E o Brasil no meio disso?

Acho muito triste. Porque a gente é diferente de Europa, de Estados Unidos. A gente é caboclo, é índio. Eu vim de Maputo agora, e chorava de emoção lá. É igual a Santo Amaro. Uma pobreza sem fim e uma alegria sem fim. É como se dissessem: “Estou vivo, vou lutar”. Fui para uma escola pública em Maputo, onde me fizeram uma homenagem. Entrou um menino pequeno com uma guitarra, lindo, sozinho. Deu uns acordes e começou: “Sonho meu/ Sonho meu”. Eu me arrepio até agora. Vem Dona Ivone Lara, essa volta que a coisa deu até ali. Temos uma natureza diferente da desses brancos europeus e americanos. Nós somos outra cor. E vejo a gente querendo imitar o ruim, o que não deu certo. Ah, eu me deprimo demais. Só me resta o palco. Vou lá e grito feito uma doida. Todas as vezes que faço leitura falo disso. Mas acho que entra por um ouvido e sai pelo outro. Fico com pena. Tô morta de pena do Brasil. 

- Você acredita num futuro melhor para o país?

Acho que está longe.












2016 - 3 Singles para Trilhas de Novelas


Abril: MORTAL LOUCURA

Junho: CASINHA BRANCA

Outubro: ERA PRA SER





2016 - MORTAL LOUCURA

Autores: José Miguel Wisnik e Gregório de Matos


Na oração, que desaterra, a terra,

Quer Deus que a quem está o cuidado, dado,

Pregue que a vida é emprestado, estado,

Mistérios mil que desenterra, enterra

 

Quem não cuida de si, que é terra, erra,

Que o alto Rei, por afamado, amado,

É quem lhe assiste ao desvelado, lado,

Da morte ao ar não desaferra, aferra.

 

 Quem do mundo a mortal loucura, cura,

A vontade de Deus sagrada, agrada

Firmar-lhe a vida em atadura, dura.

 

O voz zelosa, que dobrada, brada,

Já sei que a flor da formosura, usura,

Será no fim dessa jornada, nada.

 

 


Direção Artística: Zé Miguel Wisnik

Produção Musical: Marcio Arantes

 

Gravado nos estudios:

YB (SP), por Carlos (Cacá) Lima

Biscoito Fino (RJ), por Fernando Prado / Assistente de gravação: João Thiré

Estudio Audiorama (SP), por Marcio Arantes.

 

Mixado por Gustavo Lenza, no estudio La Nave (SP)

Masterizado por Felipe Tichauer, no estudio RedTraxx Mastering (Miami/FL)

 

Músicos:

Maria Bethânia: Voz

Marcio Arantes: Baixo Synth e Guitarras

Siba: Rabeca

Guilherme Kastrup: Percussão

Paulo Dáfilin: Viola Caipira

 

Animação/Direção de arte: Rafael Rodrigues

 



Trilha sonora original da novela "Velho Chico" - Vol. 1 e 2








2016 - ERA PRA SER

Autor: Adriana Calcanhotto

Era pra ser canção de amor
Era o amor em versos
Era pra ser sobre você e eu e o meu deserto
Era pra ser para você, sempre você, pra sempre
Era pra poder ficar eternamente no presente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente
 

Era pra ser canção de amor
Era o amor em versos
Era pra ser sobre você e eu e o meu deserto
Era pra ser para você, sempre você, pra sempre
Era pra poder ficar eternamente no presente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente


Músicos:
 
Maria Bethânia: Voz
Pedro Sá: Guitarra
Moreno Veloso: Cello





Trilha sonora original da novela "A lei do amor" - Vol. 1 e 2







2016 - CASINHA BRANCA

Autores: Gilson Vieira da Silva e Joran Ferreira da Silva


Eu tenho andado tão sozinha ultimamente
Que nem vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade tanto sonho perecer
 

Eu queria ter na vida, simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal, uma janela para ver o sol nascer
 

Às vezes, saio a caminhar pela cidade
À procura de amizade, vou seguindo a multidão
Mas me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão
 

E eu queria ter na vida, simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal, uma janela para ver o sol nascer

 


Trilha sonora original da novela "Êta mundo bom!." - Vol. 2