“Sempre tive a impressão de que ele não era uma
pessoa de quem eu um dia fosse saber que morrera”
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| The Round House
(casa de shows ao norte de Londres) |
"O
lugar mais louco de Londres" (Carlos Freire,1970)
"O lugar mais quente de Londres" (Gal Costa, 1970)
David Robert Jones
(8/1/1947 - 10/1/2016)
Facebook Caetano Veloso, 14/1/2016.
"Soube da morte de David Bowie com atraso. Estava
entre Austin, Houston e o Rio, sem me comunicar com ninguém. Tardei a admitir
que certos emails que abri logo ao chegar estivessem dando conta disso. Bowie
era 4 anos mais novo do que eu e, apesar de ter tido notícias de que ele
sofrera ataques cardíacos, sempre tive a impressão de que ele não era uma
pessoa de quem eu um dia fosse saber que morrera. Assinalo o fato porque não
queria que parecesse que ostento desprezo por figura tão importante na história
da atividade a que eu próprio me dedico. Na verdade, Bowie e eu nos
encontramos, de modo breve e pouco significativo para ambos. Ralph Mace, o
produtor dos meus dois discos londrinos (e que tinha colaborado com Bowie) quis
aproximar-me dele: cria que eu devia colaborar com seu trabalho. Levou-me para
ver um show dele na Round House e depois nos apresentou no camarim. Eu não
tinha gostado do show. Isso deve ter sido em 1970. Sendo de uma geração que se
empolgara com o clima contracultural dos anos 1960, eu achava o corte de cabelo
dele um prenúncio da adesão dos locutores de noticiários televisivos à rebeldia
hippie. Eu gostava dos discos dos Beatles e dos shows dos Rolling Stones. Mick
Jagger criava um clima de transformação do mundo em comunhão com a plateia.
Bowie esboçava uma estilização intencional que, no entanto, era, aos meus
olhos, pouco rigorosa. Vi muitas coisas que cresceram nos anos 70 dessa
maneira. Por outro lado, toda a dialética do pop, que me interessava, ficava
abaixo do significado que o Brasil ganhava para mim. Há a questão geracional:
pessoas 10 anos mais novas do que eu se sentiram liberadas pelo estilo de
Bowie. Eu me liberara com Jorge Ben, John Lennon e Mick Jagger - além das
experiências próprias nossas dos tropicalistas de 1967. Bowie parecia ter
surgido para me prender de novo a convenções de palco-e-plateia. Ou seja: perdi
o bonde de Bowie. Só décadas depois é que admiti a grandeza histórica do
artista que ele chegou a ser. Vendo o vídeo de "Lazarus", fiquei
impressionado com a força expressiva. Nunca nenhuma canção de David Bowie ficou
em minha cabeça. Hermano Viana me provou que os discos alemães, com a presença
de Brian Eno, eram sonoramente instigantes. E sempre vi que Bowie poderia ser
grande só pelo "Walk on the Wild Side" de Lou Reed.
"Lazarus" me soou mais forte como concepção de arranjo do que quase
tudo dele. E a inserção dessa dança meio robótica, meio espiritual que ele fez
e refez tantas vezes ao longo da vida (de fato, um dos mais belos ecos dos
espasmos de Elvis) transforma todo o vídeo num acontecimento poético. Me lembro
de uma entrevista em que ele diz ser o Harry Langdon do Rock. Beatles e Stones
poderiam ser Chaplin e Keaton, mas ele, Bowie, era a figura menor - e talvez a
mais lírica. Tudo somado - e a História dando perspectivas diferentes das
anunciadas pelos utopistas da minha juventude - , David Bowie foi um dos
artistas mas importantes do pop, desde que o rock é rock. Enquanto eu fazia
"clips do Fantástico" ele redesenhava-se como capas de revistas de
moda ou de móveis modernos. Pôs a obra em Wall Street, casou-se com uma modelo
preta, gravou um belo vídeo sobre a morte que aconteceu de ser lançado logo
depois de ele morrer. Nesse vídeo ele nos diz que está no céu. E que tem
cicatrizes invisíveis. Tem algo das obras de arte arrebatadoras e
inesquecíveis."
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| Ralph Mace, produtor dos discos de Caetano e Gil em Londres e promotor do encontro Bowie-Caetano na Round House. |
18/3/1970
n° 80
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| 3/2/1970 - Ordem dos Músicos do Brasil |
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22/2/1970
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1970
Revista inTerValo
Fevereiro
Ano
VIII – n° 372
Editora Abril
1970
Revista inTerValo
Ano VIII – n° 375
Editora Abril

1970
Revista fatos e
fotos
Brasília,
26 de março de 1970
Ano
X – n° 477
Fotos: Alécio de Andrade
Gal Costa visita os seus amigos baianos em Londres
A
garota atravessou a pista do Aeroporto de
Londres,
correndo em direção aos dois casais que
a
esperavam. Chegou e quis abraçar
todos de uma
vez,
mas não foi possível. Então os cinco ficaram
juntos,
rindo e chorando ao mesmo tempo. Depois
de
um ano, Gal Costa reencontrava Caetano e
Dedé,
Gil e Sandra. Mais tarde, vestindo as roupas
mais
loucas que encontrou em Carnaby Street
e
usando uma peruca desgrenhada ela falou para
“Eu vim para ver os
meninos, não interessa
a paisagem, eu
quero é ver os meninos. Quando
acabar a saudade,
vou pensar em sair a ver esse
negócio de estátuas
e o resto. Agora, não. Você
sabe, não consigo
esquecer o que passamos juntos,
tristezas e alegrias.
Quando cheguei ao
Rio, faz tempo, eu
era magrinha, magrinha.
Começamos a trabalhar juntos e deu certo, tudo
combinava direitinho.
Quando os meninos viajaram
foi aquela fossa. A
única consolação
era saber
que aquí eles
estavam bem, com mais chances.”
Gal
está morando com os baianos em Redesdale
Street,
no bairro de Chelsea, a cinco minutos
de
King’s Road. Ela sai pouco a noite.
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| Caetano na Round House (Foto: Alécio de Andrade / Blog do Emílio Pacheco) |
“Sabe, só gosto do ir ao Round House, que
é realmente o lugar mais quente de Londres. Lá
a gente canta, danca, pula, pinta o diabo, e tudo no
ambiente mais saudável do mundo. Nunca vi coisa
igual. Tem um gurizinho de dez anos no meio do
salão, de repente vem alguém que recita um poema
da bomba atômica, acontecem as coisas
mas loucas. O que é mais bacana: cada um está
na sua, pouco ligando para os outros. Não é genial?”
A
pesar de sair pouco. Gal gostou de Londres.
“Gostei mesmo.
Daqui a um ano voltarei para
trabalhar com os
meninos. O Guilherme Araújo
disse que isso é
bem possível. Para mim, é
uma perspectiva
sensacional. Quero criar algo de
novo, como eles estão
fazendo. Hoje, por exemplo,
o Gil compôs uma
nova canção
com letra do
Capinam, que vai
chamar Jardim Zoológico.
Gostei muito, é
superquente, um rock violento, que
mexe com tudo. Eles
estão uma brasa, bicho.”
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| Revista InTerValo |
1970
Revista do Rádio e
TV
n°
1066 – Ano XXIII
30
de maio de 1970
1970
Revista do Rádio e
TV
n°
1068 – Ano XXIII
13
de junho 1970
Capa
Gal
Costa, que muda de penteado e de estilo é quem está na capa desta edição, num
ecktachrome de Sérgio de Souza, exclusivo da RR-TV