viernes, 25 de agosto de 2017

1998 - PINA BAUSCH



Pina Bausch veio ao Brasil pela terceira vez em 1997 para apresentar pela primeira vez no País uma ópera, “Ifigênia em Tauris”, de Gluck, e a coreografia “Cravos”, ambas no Teatro Municipal do Rio. O impacto visual da segunda - o palco era inundado por oito mil cravos vermelhos - foi tão intenso que, ao contrário das visitas anteriores, desta vez sua obra agradou ao grande público. Essa coreografia inaugurou uma parceria jamais desfeita, entre Pina Bausch, Marion Cito nos figurinos e Peter Pabst nos cenários. E mais. Nessa ocasião a coreógrafa conheceu Caetano Veloso, a quem convidou para participar da festa de comemoração, na Alemanha, dos 25 anos da Tanztheater Wuppertal, em 1998.

Na programação de aniversário, estavam sete peças: “Ifigênia em Tauris” (1974), “Café Müller” e “Sacre” (1974), “Arien” (1979), “Viktor” (1986), “Palermo, Palermo” (1989), “Nur Du” (1996), coreografia que consagrou mundialmente a dançarina brasileira Regina Advento, e “Der Fenstputzer” (1997). Caetano participou com dois concertos. 

Em comum com o cantor e compositor brasileiro, Pina Bausch tem a participação num filme de Almodóvar, “Fala com Ela”. (AE)









São Paulo, segunda, 25 de agosto de 1997

Ópera de Gluck revela face inédita de Pina Bausch 


ANA FRANCISCA PONZIO
no Rio de Janeiro

A temporada que o grupo de Pina Bausch, o Tanztheater Wuppertal, iniciou na última sexta no Teatro Municipal do Rio, já pode ser considerada um dos acontecimentos artísticos deste ano.

Duas obras clássicas do repertório de Bausch -a ópera "Ifigenia in Tauris" (apresentada até domingo) e a peça de dança-teatro "Cravos" (que estréia quarta)- compõem a programação do Thanztheater nesta passagem pelo Brasil que, lamentavelmente, não se estende a outras cidades.

Com "Ifigenia in Tauris", o Thanztheater revelou uma face de Pina Bausch inédita aos brasileiros. Ao realizar, em 1974, sua versão para a ópera de Gluck (1714-1787), Bausch dava seus primeiros passos em direção à dança-teatro que a transformaria em uma das personalidades chaves das artes cênicas deste século.

Marcas que surgiriam nos anos seguintes, como bailarinos que choram, falam, cantam, fazendo do corpo uma expressão múltipla, não existem em "Ifigenia in Tauris", que também está longe dos ambientes claustrofóbicos das obras posteriores.

Invertendo papéis, Bausch fez de "Ifigenia in Tauris" uma ópera-balé, interpretada por bailarinos cujos corpos parecem ecoar as vozes dos cantores que, "escondidos" em camarotes do teatro, não aparecem em cena.

Convencionalmente, "Ifigenia in Tauris" é a obra mais dançada de Bausch que, nesta ópera, demonstra que também poderia ser uma mestra da coreografia pura.

Cenicamente, é um espetáculo luminoso. Em vez das sombras e da cor preta, comuns nas obras de Bausch, é o branco que predomina nos figurinos e cenários, com espaços delimitados por alvos lençóis. No papel de Ifigenia, a brasileira Ruth Amarante realiza uma interpretação esplendorosa ao lado de Dominique Mercy, um dos mais antigos bailarinos do grupo de Baush.

Para contar a história de Ifigenia (cuja morte, a pedido da deusa Artemis, libertaria os ventos necessários à navegação) Bausch já se valia do sentido de incompletude da condição humana. Mesmo exalando lirismo e harmonia, o enredo se constrói por meio de imagens evasivas, fragmentadas, que Bausch mais tarde dominaria com precisão única.

Mas, o mais curioso em "Ifigenia in Tauris" é observar que a dança ainda não se confunde com o teatro. Apesar da profunda expressividade que exige dos bailarinos, a obra tem como principal apoio a coreografia, baseada na técnica clássica e com uma teatralidade que revela a influência de Kurt Joos (um dos pioneiros da dança expressionista, de quem Bausch foi assistente).

Se tivesse parado em "Ifigenia in Tauris", a obra de Pina Bausch já seria relevante.


Apesar da inovação gigantesca que ela promoveu após esta ópera, Bausch já teria concedido à composição de Gluck a mais arrojada e atemporal das versões, cujo frescor permanece até hoje.

Espetáculo: Tanztheater Wuppertal
Quando: dias 27, 28 e 29 de agosto às 20 h; dia 31 às 17 h
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Pça Floriano, s/nº; tel. 021/297-4411)
Quanto: R$ 70,00 a R$ 10,00 (reservas: 021/262-3935)




O Estado de S.Paulo, 30/8/1997



O festival cultural dirigido por Pina Bausch aconteceu pela primeira vez em 1998, por ocasião da comemoração dos 25 anos de existência da companhia "Teatro-Dança de Wuppertal" (Alemanha).







Na ocasião em que Caetano esteve em Wuppertal, em 14 de outubro de 2001, atuando como um dos principais convidados de Pina Bausch no festival internacional de cultura organizado por ela, o baiano contou como conheceu a amiga:

"Pessoas ligadas ao ambiente de teatro e de dança falavam muito nela quando se referiam ao Gerald Thomas, dizendo que ele tinha muita influência de Pina. Quando Gerald voltou para o Brasil e começou a dirigir suas peças, fui assistir a quase todas, mas não achei isso, não. Achei Pina Bausch parecida com o Trate-me Leão [obra do grupo teatral carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone, que tinha Perfeito Fortuna e Regina Casé como integrantes]".





São Paulo, sábado, 24 de outubro de 1998.

TEATRO-DANÇA


Caetano festeja Pina Bausch na Alemanha

CARLOS GARDIN (*)
especial para a Folha

Caetano Veloso é hoje a bola da vez em Wuppertal (Alemanha), localidade que adotou uma das mais famosas companhias de dança do mundo, a de Pina Bausch. O cantor protagoniza um show-homenagem para a coreógrafa que comemora 25 anos de sua dança-teatro na cidade alemã.

E Wuppertal, até o dia 31 deste mês, se converte num espaço de celebração mundial da trajetória inovadora de Bausch.

Os convidados para a festa confirmam as referências e a importância desta artista para a diversidade da arte no século 20: Sankai Juku, do Japão; Marie Claude Pietragalla, da Ópera de Paris; o grupo Rosas, da Bélgica; Mikhail Baryshnikov; companhias de Bali e hip hop dance da Alemanha.

De quebra, o mundo terá a oportunidade rara de presenciar uma síntese do trabalho realizado pela homenageada em 25 anos de coreografias que foram causadoras das mais radicais mudanças na linguagem da dança neste século.

Pina Bausch apresentará oito de suas principais coreografias, começando por uma das primeiras, "Ifigênia em Táuris", de 1974, que foi apresentada no Rio de Janeiro no ano passado.

Trata-se de um momento único em que se pode verificar com clareza a evolução da linguagem do movimento que fundamenta o estilo específico dessa artista -cujo trabalho não só revolucionou o conceito da dança como interferiu na linguagem do teatro com um diálogo perturbador.

Ela criou sua linguagem própria na busca incansável da síntese do movimento no espaço. A sua referência primeira são os gestos recolhidos no cotidiano das pessoas.


Seus bailarinos/atores, além de exibirem uma técnica precisa, fruto de um árduo trabalho, são pesquisadores do movimento.

Colhem suas idéias na pesquisa pelas ruas das cidades do mundo, idéias que são transformadas numa celebração poética do palco, numa encenação radical que, como uma cápsula, ao ser deflagrada, provoca o espectador pela forma, pelos sentidos e pela construção lógica.

O padrão de Bausch é a diversidade. Sua síntese é a da mônada, ou seja, a do signo que contém inúmeras possibilidades de sentido, que passam pelo sensorial até atingir o lógico e o intelectual. Por isso, a diversidade como marca está presente em todos os níveis do seu trabalho: seus bailarinos são de múltiplas raças, a sonoplastia utilizada nas coreografias contém desde clássicos a canções populares de diferentes países.

Os bailarinos são também atores no sentido de executarem ações dramáticas, e essa atitude cênica fez com que o teatro, depois de Bausch, tivesse que se alimentar da capacidade de movimento do corpo na dança. O corpo, enfim, é visto como signo e, como tal, tem intenções de provocar interpretações tanto lógicas como sensoriais.

A festa de 25 anos de dança-teatro de Pina Bausch em Wuppertal consagra a síntese da diversidade. Como queria Oswald de Andrade, uma forma canibal de ser.

(*) Carlos Gardin é doutor em Comunicação e Semiótica, professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP e diretor de teatro.




Novembro 2001

Solo para Pina Bausch — Caetano Veloso brilha em festival da coreógrafa alemã

Wuppertal, Alemanha - O doce bárbaro de Santo Amaro fechou sua turnê européia de 2001 participando no dia 14 de outubro do festival internacional de cultura organizado pela prestigiada coreógrafa Pina Bausch e sua companhia, o Wuppertaler Tanztheater. Caetano, que já tinha sido em 1998 uma das maiores estrelas das comemorações dos 25 anos do grupo de Pina, fez um show solo em que se deu ao requinte de interpretar canções em francês, italiano, espanhol, inglês e, claro, português, encantando do começo ao fim uma platéia tão serena, quanto extasiada.




Era uma homenagem das mais condizentes à essa artista que possui bailarinos das mais diversas partes do mundo e que surpreende Caetano desde a montagem que ele assistiu anos atrás de «Um Grito Ouviu-se na Montanha», no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. «Fiquei completamente apaixonado pelo espírito da obra dela, que tem uma vida impressionante, rara em artes da representação», afirmou Caetano, que já tinha gravado a marchinha carnavalesca «Dama das Camélias», de Braguinha e Alcir Pires Vermelho, como um tributo à Pina em seu álbum «Omaggio a Federico e Giulietta», de 1999.

O festival deste ano, que aconteceu de 12 a 28 de outubro, trouxe como destaques o coreógrafo e dançarino japonês Saburo Teshigawara, o violinista húngaro Félix Lajkó, além do diretor espanhol Pedro Almodóvar, que terá três de seus filmes exibidos no evento. Outro brasileiro convidado por Pina Bausch para a mostra de cultura foi o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos.

Vários espetáculos de Pina foram reapresentados como «Os Sete Pecados Capitais», «Venha Dançar Comigo», «O Dido», além da sua útima peça, inspirada no Brasil, que ela vem apresentando pelo mundo afora com sucesso. 



Carisma à toda prova 


O show de Caetano Veloso bem que poderia ter durado mais do que os seus setenta minutos. A platéia que lotou os setecentos lugares da Schauspielhaus pagou cerca de oitenta reais pelo ingresso e parecia não querer voltar mais para casa, depois que ouviu «Coração Vagabundo», «Cajuína», «Menino do Rio», «Terra» e a porto-riquenha «Lamento Borincano», dentre outras. A inclusão no roteiro de «Manhatã», composição que Caetano escreveu sobre Manhattan, Nova York, extraída do disco Livro, de 1997, foi muito oportuna, dando densidade comovente ao concerto, com seus versos tornados mais trágicos depois dos ataques ao World Trade Center: «todos os homens do mundo/ voltaram os seus olhos para aquela direção» (...) «e aqui dançam guerras/ no meio da paz das moradas de amor». 



Caetano iniciou sua performance com muita timidez, mas a reverência a Bertolt Brecht e Kurt Weill com Stars Fall on Alabama já insinuava que o tropicalista estava afiado para o evento. E o cenário não poderia ter sido mais feliz, com um rochedo litorâneo criado por Peter Pabst para Masurca Fogo, peça encenada minutos antes. Ali, como que à beira-mar, Caetano foi de «Qualquer Coisa» a «Leãozinho», espalhando aquele sorriso largo que os caricaturistas tanto adoram. Desacostumado com tanta passividade da platéia, o artista começou a instigar os poucos brasileiros presentes a subverter o silêncio do público, no que foi atendido prontamente. 



O grande momento da noite nasceu de um comentário que Caetano fez para Peter Pabst à época em que ele tinha assistido Masurca Fogo pela primeira vez, em São Paulo. O cantor e compositor baiano tinha imaginado que cantava «Garota de Ipanema» na cena em que as bailarinas do espetáculo aparecem deitadas sobre o rochedo. Resultado: o coreógrafo topou com entusiasmo a sugestão involuntária de Caetano e quando o músico começou a cantar o clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, as meninas de Pina reentraram no palco para se banhar ao sol sobre as pedras do cenário. A platéia foi ao delírio e com ela um Caetano em total estado de graça.


Felipe Tadeu [Jornalista especializado em música brasileira e produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91.]




Fevereiro de 2011.

Caetano Veloso entra na trilha de documentário sobre Pina Bausch [Pina, Wim Wenders]



P: Recentemente o cineasta Wim Wenders mandou um e-mail pra você pedindo a música Leãozinho para um documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch. Como foi isso? E como era seu contato com ela?

R: Eu tive contato com Pina diretamente aqui no Brasil. Eu fui apresentado a ela pela Monique Gardenberg quando teve uma apresentação em que ela estava envolvida. Houve um jantar na casa dela para a Pina e para o pessoal da companhia, e eu fui e a conheci Pina. Eu sou louco pelo trabalho dela. E comecei a falar com ela sobre o que eu tinha achado, com a maior cara de pau. Ela não gostava que se falasse teoricamente sobre o que ela estava fazendo. Eu sabia disso, falei mesmo assim.

Mas ela gostou de mim. E ficamos amigos, ela chegou a me chamar para participar daqueles festivais que ela fazia em Wuppertal. E uma vez ela até conjugou a minha apresentação com o balé dela. Eu estava cantando Garota de Ipanema e ela usou o cenário do Masurca Fogo: as moças de biquíni sentam numa pedra, como se estivessem tomando sol. Elas refizeram toda aquela cena enquanto eu cantava.

Então eu tinha contato com ela. Ela veio em minha casa. Uma vez ela veio para o meu aniversário. Era uma mulher muito querida e eu adorava os espetáculos dela.

E ela botou o Leãozinho numa peça que chama-se Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã. E é uma cena muito linda a do Leãozinho. É um solo de um bailarino espetacular. E o Wim Wenders estava pedindo as autorizações para as coisas que ele tem que usar para o filme da Pina e me mandou um e-mail, pedindo Leãozinho. E eu dei. Respondi dizendo que sim e ele me respondeu de novo dizendo que vinha a São Paulo para uma exposição dele de fotografia. Ele queria que eu fosse para a gente se encontrar. Eu disse que não podia, mas então ele quer que eu esteja presente se possível no lançamento do filme no Brasil. Eu estou louco pra isso porque o trailer é lindo. E saber que ele fez em 3D me animou dez vezes mais, porque se há uma coisa pra que o 3D no cinema foi inventado é um espetáculo da Pina Bausch.

[Caetano Veloso, entrevista a Renato Beolchi, Jornal do Brasil, 19/02/2011]









Lutz Förster: "Leãozinho", de Caetano Veloso











Quase dois anos após a sua morte, a companhia que a alemã Pina Bausch fundou e dirigiu, retornou à cidade em 2011 para uma série de apresentações no Brasil.

A Tanztheater Wuppertal Pina Bausch trouxe ao Theatro Municipal, no Rio de Janeiro – onde estivera pela última vez em 1997 – o espetáculo Ten Chi (Céu e Terra), uma das últimas criações da coreógrafa (días 5, 6 e 7 de abril de 2011).

Em seguida, a peça fez temporadas em São Paulo (Teatro Alfa) e Porto Alegre (Teatro do Sesi).




Rio de Janeiro, 5/4/2011





1998 - ANTROPOFAGIA











VELOSO, Caetano. Antropofagia. São Paulo: Penguin Classics/Companhia das Letras, Grandes ideias. 1ª ed. 2012. 72 pág.


Publicado originalmente no livro Verdade Tropical, este ensaio-memória remonta o conceito de antropofagia, da Semana de Arte Moderna até sua apropriação pelos concretos e tropicalistas.



Poesia concreta: Augusto de Campos, Décio Pignatari, Caetano e Haroldo de Campos [1986] - Foto: Homero Sérgio - Folha Imagem



FOLHA DE S.PAULO

14/02/2012 

Em "Antropofagia", Caetano explica origem da tropicália no modernismo

FELIPE JORDANI
da Livraria da Folha

"O sol se reparte em crimes,
espaçonaves, guerrilhas,
em Cardinales bonitas, eu vou.
Em caras de presidentes,
em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras,
bomba e Brigitte Bardot"

Na música "Alegria, Alegria", de 1967, ao descrever o cenário cheio de imagens e mensagens de uma banca de jornal, Caetano Veloso anuncia a proposta tropicalista de não se fechar ao que vinha de fora, à cultura estrangeira, e sim, devorá-la. Era o conceito da antropofagia modernista, nascido a partir dos encontros da Semana de Arte Moderna, em 1922, retomado pelas novas gerações.

Alguns versos à frente, a canção se torna ainda mais explícita, quando o eu lírico "abocanha" um dos mais simbólicos produtos americanos a ser vendido em escala global "Eu tomo uma coca-cola/ela pensa em casamento/E uma canção me consola/eu vou". No período, a arte engajada tinha sido tomada por um forte sentimento de nacionalismo e estas frases "sacrílegas" foram vaiadas com furor durante os famosos festivais de música.

No ensaio “Antropofafia” (Companhia das Letras, 2012), o próprio cantor baiano analisa a relação do movimento tropicalista e dos poetas concretistas com as ideias e questões levantadas por Oswald de Andrade, e companhia, 40 anos antes.

O artista explica o contexto histórico deste retorno da intelectualidade aos pensamentos engendrados pela Semana de 22 e, indiretamente, ajuda a entender como esta retomada transformou o evento do início do século em um episódio mitológico da cultura brasileira.

Lançado em 1997 como um capítulo do volumen “Verdade Tropical” (Companhia de Bolso, 2008), “Antropofagia” está previsto para chegar às livrarias no dia 29 de fevereiro e já está disponível em sistema de pré-venda.

No época do lançamento do livro, no final dos anos 1990, Caetano reiteraria sua opção tropicalista ao responder, durante uma entrevista com o apresentador Jô Soares, que devoraria Leonardo DiCaprio, astro que estava no auge da carreira, com o estrondoso sucesso de "Titanic" (1997).

Coincidência ou não, em setembro de 2011, uma frase parecida do humorista Rafinha Bastos chamou atenção e causou bastante polêmica. No programa "CQC", o apresentador Marcelo Tas disse "que bonitinha que está a Wanessa Camargo grávida" e, em seguida, o outro respondeu "eu comeria ela e o bebê". 

O comentário, classificado como infeliz, fez com que seu autor fosse afastado da atração.




ESTADÃO

Cultura
Antropofagia e um pouco de Pina

Acompanhei a recente troca de farpas entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz em torno do livro Vereda Tropical, de autoria do primeiro. Por isso me interessei pela brochura Antropofagia, publicada recentemente pela Penguin/Companhia das Letras, na qual estão enfeixados alguns trechos daquela obra de Caetano, que, quando publicada em 1997, apesar da curiosidade que me despertou, não me animei a ler por ter-me parecido excessivamente copiosa. Agora, de uma sentada só devorei as 70 páginas divididas em quatro capítulos - o encontro com os poetas concretos, com Chico, a vanguarda e antropofagia -, temas não focalizados diretamente na polêmica entre o crítico e o cantor-compositor, mas que me suscitaram lembranças e algumas ideias.

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo
12 Maio 2012

Na leitura logo ficam patentes a acuidade da mirada de Caetano, seu alto grau de informação e o absoluto domínio da língua. Mas surpreendeu-me o estilo no qual vazou o texto, em tudo diferente do que eu poderia esperar. Ao contrário de sua produção na música e nas inspiradas letras de suas canções, em que opta por uma linguagem mais solta, inventiva e inovadora, Caetano parece mostrar uma reverência compenetrada ao se embrenhar no campo da prosa, adotando uma dicção clássica, escorreita, convencional.

O texto sobre Chico Buarque me levou de volta aos tempos de faculdade e às turbulências políticas do movimento universitário, quando Chico e Caetano eram nossos ídolos. A disputa entre eles, decorrente de projetos artísticos divergentes, logo nos dividiu em dois grupos. Chico era o wunderkind da música popular brasileira. Era sua continuidade moderna, elegante, bem nascida e cultivada, banhada e perfumada, que ainda por cima era de esquerda, produzindo letras ambíguas nas quais ficávamos pescando alusões e insinuações que teriam passado despercebidas pela censura dos militares. Chico era o prosseguimento atualizado, engajado e informado do samba.

Caetano era a deliberada ruptura com tudo isso. Sua posição na esquerda não se apoiava na conservação de formas estabelecidas, estava aberto para as novidades e a assimilação de modelos musicais internacionais. Caetano era o suprassumo do prafrentex, palavra de grande circulação na época, muito apropriada para dar conta das mudanças de comportamento que começavam a aparecer e ainda não tinham nome, e caía como uma luva naquela coisa maravilhosamente nova chamada Alegria, Alegria. Por tudo isso, ele era tido como "alienado" pelos mais extremados, que não entendiam a radicalidade de sua proposta.

Eu, que era um caetanista de carteirinha, muito me diverti com a alfinetada de Caetano ao cantar de forma debochada e depreciativa a Carolina do Chico. Mas o que importa é que respeitávamos e amávamos os dois na diferença que expressavam. De alguma forma, eram nossos modelos e sentimos profundamente quando a Ditadura os obrigou a sair do País, deixando-nos aqui entregues à nossa própria sorte.
Em seu livro, compreensivelmente Caetano põe panos quentes, procurando não exacerbar as antigas querelas. Meio a contragosto, admite ter cantado Carolina de forma "estranhável"...

O capítulo sobre antropofagia, que dá título ao livro, narcisicamente me remeteu ao artigo sobre canibalismo que escrevi na última crônica, fazendo-me lembrar dos aspectos que não pude nele incluir por falta de espaço e que abordo agora. A antropofagia (ou canibalismo) - que tem abundantes registros na mitologia, na história, na religião - viu sua importância potencializada na época dos descobrimentos, quando passou a ser considerada como o indicador mais expressivo de selvageria e de barbárie dos povos do Novo Mundo. Em 1566, o papa Inocente IV considerou-a um pecado maior e, como tal, passível de ser punido pelas armas. A rainha Isabel de Espanha baixou decreto autorizando a escravização de nativos, desde que fossem eles praticantes de canibalismo. É claro que a partir daí ficou muito conveniente declarar que determinado povo era canibal (ou antropófago), pois isso garantia a autorização da Igreja e do Estado espanhol para atacá-lo e escravizá-lo.

A grande ironia histórica é que, com a desculpa de eliminar o canibalismo e impor valores civilizatórios cristãos, os colonizadores terminaram por "canibalizar" os colonizados, apropriando-se de suas riquezas e recursos, deixando-os à míngua, quando não os exterminando pura e simplesmente. Os colonizadores projetaram nos povos "primitivos" uma violência e uma selvageria (simbolizadas pela antropofagia) que eles mesmos exerceram com uma destrutividade muito mais potente, em função de sua superioridade tecnológica.

No mundo globalizado em que vivemos, as relações antropofágicas colonizador/colonizado tomaram feições mais nuançadas. Os padrões culturais e o poder dos países que detêm a primazia tecnocientífica se impõem com força talvez ainda maior, na medida em que é mais profundo o abismo que os separa dos países pobres.

A persistência da questão colonizador-colonizado se evidencia na Semana de 22 com Oswald de Andrade e sua atualidade aparece no investimento que Caetano fez do conceito por ele proposto. Numa provocação, Oswald de Andrade inverteu o paradigma e fez da antropofagia uma virtude e modelo de assimilação cultural, proposta da qual Caetano se apropriou, usando-a como um dos fundamentos para o tropicalismo.

A relação colonizador-colonizado e a antropofagia estão diretamente ligadas ao problema da identidade dos povos colonizados. Lembremos que o colonizador encontra um sistema social estabelecido e organizado com suas próprias leis e costumes, que ele ignora e destrói para impor os seus próprios valores. Aos olhos dos povos nativos, o colonizador não é o que sustenta a lei, é aquele que destrói a lei até então vigente.
Em sendo assim, pode o colonizador em algum momento ocupar o lugar de pai e portador da lei para o colonizado ou ele será sempre o estuprador invasor que ignora a lei? Pode o colonizado se identificar com o colonizador e acatar seus valores, ou esta será sempre uma "identificação com o agressor", com toda a distorção implícita nisso?
Frente ao impasse estabelecido, sobra outra opção ao colonizado senão canibalizar o colonizador que o canibaliza?

* * *

A forma como Pina Bausch concebe a coreografia - se é que podemos chamar assim - para a música Leãozinho, de Caetano Veloso, sintetiza bem a originalidade e largueza com que ela encarava a dança. A partir de uma gestualidade espontânea ou fixada em estereotipias mecânicas, Pina cria efeitos estéticos e uma ingênua comicidade que evoca as brincadeiras e a despreocupação da infância. O filme de Wim Wenders é uma justa homenagem a uma grande criadora.


jueves, 24 de agosto de 2017

1998 - CENTRO EM QUATRO ESTAÇÕES





São Paulo, domingo, 21 de junho de 1998.



Maria Cristina Poli apresentará o documentário "Centro em Quatro Estações - 
Dado Junqueira / Folha Imagem


Projeto de Maria Cristina Poli mostra dados históricos da região central de São Paulo


RUI DANTAS

da Reportagem Local

Com o objetivo de "descobrir" o centro de São Paulo, a jornalista Maria Cristina Poli realizou o documentário "Centro em Quatro Estações", a ser exibido na Cultura, a partir de 21 de julho, às 22h30.

O documentário, dividido em uma série de quatro episódios, revela os principais pontos arquitetônicos, além de rememorar dados históricos e mostrar a visão de personalidades sobre o local.

Diferentemente do que se possa supor, as "estações" do título não são as fases sazonais do ano, mas as estações de metrô que "delimitam" o perímetro central de São Paulo.

São elas: a Sé -o marco zero de SP-, a São Bento, a do Anhangabaú e a República. Cada uma é tema de um capítulo da série.

A partir desses pontos, o programa desvenda as cercanias de cada uma dessas estações. Assim, o episódio "Sé" engloba a catedral da Sé e o Pátio do Colégio, construção considerada o berço da cidade.

Já o "São Bento" retrata o mosteiro de São Bento e a Bolsa de Valores, revelando as contradições ou coincidências entre os frequentadores de ambos os locais.

Maria Cristina Poli, 37, concebeu o projeto em 1996. Em agosto daquele ano, a jornalista obteve aprovação para utilizar a lei Rouanet, de incentivo fiscal à cultura.

Pouco mais de um ano depois, em novembro de 97, Maria Cristina conseguiu patrocínio dos Correios para o projeto, orçado em R$ 300 mil.

"Quero que esses programas despertem o apetite das pessoas de conhecer algumas "pérolas' do centro de São Paulo. Só podemos preservar aquilo que conhecemos. É impossível amarmos algo desconhecido", afirma a jornalista.

Durante a fase de pesquisa e produção, ela afirma ter descoberto uma série de peculiaridades da região central de São Paulo.

Uma delas é a existência de jazigos de religiosos dentro da catedral da Sé. Outra revelação disseca a construção da estação de trens da Luz.

Os tijolos da estação foram trazidos da Europa, para que a o local mantivesse fidelidade aos prédios ingleses da época.

Há também depoimentos de personalidades que vivem, frequentam ou viveram no local, como o compositor Caetano Veloso, o diretor teatral Zé Celso Martinez Corrêa e o professor emérito da USP Goffredo da Silva Telles.

Para produzir a série, Maria Cristina e sua equipe fizeram uma pesquisa bibliográfica e de imagem, no arquivo da TV Cultura.

A iniciativa é da Poli Produções, empresa da jornalista e apresentadora, que cedeu gratuitamente à Cultura, em troca da exibição. Maria Cristina dirigiu o documentário.


Ao ser finalizado, o projeto ainda contou com a assessoria da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik.



São Paulo, domingo, 16 de agosto de 1998.


DOCUMENTÁRIO

Centro de SP ganha série na Cultura

"O Centro em Quatro Estações", de Maria Cristina Poli, retrata a região central de São Paulo

da Reportagem Local

A Cultura exibe, a partir desta terça, às 22h30, o documentário "O Centro em Quatro Estações", com apresentação e direção de Maria Cristina Poli.

O documentário, dividido em quatro capítulos, tem o objetivo de "redescobrir" a região central de São Paulo, rememorando dados históricos, além de pontuar os principais marcos arquitetônicos do local, segundo a autora.

O nome "O Centro em Quatro Estações", diferentemente do que se possa supor, não se refere às fases sazonais do ano. O título dá conta das quatro estações de metrô que, teoricamente, delimitam o perímetro urbano do centro de São Paulo -Sé, República, Anhangabaú e São Bento.

As estações, uma por capítulo, são focalizadas a partir da área que ocupam, e o documentário mostra, assim, dados históricos das redondezas de cada uma delas.
No caso da Sé, por exemplo, dados sobre o Pátio do Colégio e a catedral são esmiuçados. Já o capítulo dedicado à estação São Bento enfoca o mosteiro de São Bento e a Bolsa de Valores, próximos ao metrô.

O terceiro episódio trata da estação do Anhangabaú, tendo o Teatro Municipal como referência. O último capítulo, sobre a estação República, mostra as origens do Minhocão e retrata o edifício Copan, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
O projeto custou R$ 300 mil e levou cerca de dois anos até ser exibido. "O Centro", patrocinado pelos Correios, é uma co-produção entre a TV Cultura e a Poli Comunicações, empresa da jornalista.

"Como uma paulistana típica, filha de mineiro com pernambucana, passei a ter mais intimidade com centro e com São Paulo. Quero retratar a história do país falando sobre coisas cotidianas, que as pessoas vivenciam", explica Maria Cristina.

O documentário ainda conta com depoimentos de personalidades que vivem, viveram ou se utilizam do local. Entre elas, estão o compositor Caetano Veloso e o escritor Ignácio de Loyola Brandão.

O vídeo foi dedicado ao jornalista e publicitário Carlito Maia, que, ainda que mineiro, adotou a capital paulista para viver.

Depois de retratar o centro de São Paulo, a jornalista finaliza a realização de outros projetos sobre capitais brasileiras. A próxima será o Rio de Janeiro.

"Quero mostrar o Rio dos portugueses, dos negros, dos nordestinos e dos emergentes. O documentário seria parecido -divido em quatro capítulos."

Maria Cristina ainda pensa em produzir programetes de cerca de 1 minuto relatando a origem dos nomes das ruas de São Paulo.



 
 




1994 - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO












São Paulo, quinta-feira, 4 de abril de 1996.


Presidentes fazem conferência

DA SUCURSAL DO RIO

O presidente Fernando Henrique Cardoso conversou ontem com seu colega argentino, Carlos Menem, em videoconferência via Embratel. FHC vai visitar a Argentina na próxima segunda-feira e terça-feira.

A conversa entre Fernando Henrique e Menem foi transmitida ao vivo pelas televisões educativas do Brasil e da Argentina. O presidente brasileiro falou do Palácio das Laranjeiras (zona sul do Rio), aonde chegou às 18h55. A transmissão do programa foi bilíngue.

Os dois presidentes defenderam a necessidade de se ensinar o português aos argentinos e o espanhol aos brasileiros. FHC disse que a fronteira entre os dois países atualmente é "uma referência, não uma barreira".

O programa de TV transmitido ontem, que começou com 25 minutos de atraso devido a problemas técnicos, é um piloto para um programa mensal com notícias sobre o Mercosul.

Depois da videoconferência, FHC tinha um jantar marcado com artistas na casa do empresário José Maurício Machline, da Sharp, em São Conrado (zona sul do Rio).

Haviam confirmado presença cerca de 40 artistas.

Entre outros, participariam do encontro Cacá Diegues, Caetano Veloso, Glória Pires, Gilberto Gil e Carla Camurati.


FHC iria pernoitar no Rio. Hoje pela manhã, ele embarca para São Paulo, onde passa a Páscoa.








O presidente Fernando Henrique Cardoso conversa com os compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso, após jantar na casa do empresário José Maurício Machline no Rio de Janeiro - Foto: Patrícia Santos/Folhapress






 
 
























4/10/1996 - Fernando Henrique Cardoso cumprimenta o cantor Caetano Veloso, após show na Espetaculus Academia de Tênis - Fotos: Sérgio Lima / Folhapress