martes, 30 de enero de 2018

2018 - CHICO BUARQUE


Ausente dos palcos desde 2012, Chico Buarque inicia em dezembro de 2017 (Belo Horizonte), a turnê nacional de Caravanas, título homônimo de seu último álbum, lançado em agosto pela Biscoito Fino.


27/1/2012 - Caetano Veloso vai ao show de Chico Buarque
Foto: Onofre Veras 



13/12/2017 - Chico Buarque durante estreia da turnê 'Caravanas', em Belo Horizonte – Foto: Leo Aversa / Divulgação


Caetano é só elogios a Chico após assistir a show no Rio: "Artista imenso" 

Do UOL, em São Paulo
27/01/2018

Caetano Veloso usou sua conta oficial no Instagram para fazer uma bonita homenagem a seu contemporâneo Chico Buarque, após assistir à estreia de “Caravanas”, novo show do cantor, compositor e escritor no Rio.

“Fiquei extasiado, não somente porque estávamos diante de um artista imenso que nos deixa esperando anos para vê-lo atuar; nem apenas porque os lindos versos de Caravanas' trazem ‘suburbanos como muçulmanos do Jacarezinho a caminho do Jardim de Alá’”, escreveu o baiano, que também elogiou o cenário de Hélio Eichbauer, o mesmo artista que criou o da sua atual turnê com os filhos.

Caetano também menciona “a rica música que habita o coração de Chico Brown” em “Massarandupió”, parceria de Chico com o neto, filho de Carlinhos Brown, e o fato de que muitas das canções cantadas pelo público sejam posteriores aos grandes clássicos de Chico.

“Não há "Quem te viu, quem te vê", "Carolina", "Januária", "Samba do grande amor" ou "Noite dos mascarados" - nem pensar em "Pedro Pedreiro" ou "Olê olá": para um cara da geração de Chico, o repertório é todo de coisas novas”, observa.

O cantor e compositor faz críticas ainda a um jornalista que disse que não ouviria mais os discos de Chico por já saber o que iria encontrar – “um erro perfeito” – e à “acústica difícil” do local do show, compensada, afirma, pelos sons “econômicos e profundos, equilibrados e misteriosos” da apresentação –“finalmente um show que não rompe nossos tímpanos”.

“É a vitória da bossa nova verdadeira, sua vingança, sua definitiva consagração, desmentindo a sensação de que o Brasil não se respeita: ao contrário, ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova. E nada disso seria possível sem a lealdade de Chico à prosódia irretocável”, escreve Caetano.


3/1/2018 - Chico Buarque apresenta para a imprensa duas canções da turnê Caravanas, na casa de espetáculos Vivo Rio, localizada no Museu de Arte Moderna, Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro - Foto: Bruna Prado/UOL




27/1/2018

“Fui ontem à noite ver o show de Chico Buarque. Fiquei extasiado, não somente porque estávamos diante de um artista imenso que nos deixa esperando anos para vê-lo atuar; nem apenas porque os lindos versos de "Caravanas" trazem "suburbanos como muçulmanos do Jacarezinho a caminho do Jardim de Alá"; nem só porque o cenário de Hélio Eichbauer, com esfera armilar esboçando assimetrias a partir do sistema concêntrico, estende suas cordas de assinatura a uma complexidade de rede de ondas, movimento e poesia; nem mesmo porque "Massarandupió" traz a rica música que habita o coração de Chico Brown. Ou porque o repertório contenha sucessos cantados pela multidão e que estes sejam todos posteriores aos clássicos que fincaram Chico no lugar que ocupa em nossas vidas: não há "Quem te viu, quem te vê", "Carolina", "Januária", "Samba do grande amor" ou "Noite dos mascarados" - nem pensar em "Pedro Pedreiro" ou "Olê olá": para um cara da geração de Chico, o repertório é todo de coisas novas, a maioria datando de quando ele entortou seus caminhos harmônico-melódicos, toreou suas rimas (justo quando um idiota da imprensa disse que não ouviria seu novo disco por já saber o que iria encontrar: era um erro perfeito). É uma exuberância. Os arranjos de Luiz Claudio levam ao máximo a elegância musical que ele sempre apresenta. Mas a força vem de como tudo isso foi estruturado dentro da concepção bossa nova. Um homem de voz pequena e anasalada domina o universo, rodeado por sons econômicos e profundos, equilibrados e misteriosos. Da forma dos arranjos (que contam com o canto perfeito de Bia Paes Leme) à política de volumes da amplificação (finalmente um show que não rompe nossos tímpanos toma toda a grande sala de difícil acústica!), tudo funciona para expor a realização da bossa nova, do seu essencial. É a vitória da bossa nova verdadeira, sua vingança, sua definitiva consagração, desmentindo a sensação de que o Brasil não se respeita: ao contrário, ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova. E nada disso seria possível sem a lealdade de Chico à prosódia irretocável, à rima que vem com a ideia, à melodia que homenageia a tradição e amadurece para quase se desmelodizar. Ouvindo Chico assim, somos obrigados a crer no povo brasileiro.”

Caetano Veloso



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