sábado, 1 de julio de 2017

1971 - ROSA DOS VENTOS - Show encantado



O exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, desde 1969, funcionou como uma das forças motrizes do show "Rosa dos Ventos". 


"Cantávamos a volta dos dois, sem ser explícitos, e isso acabou por acontecer. Após uma longa negociação, Caetano veio ver o show" 

[Fauzi Arap]


Na plateia: Caetano, Marisa Alvarez Lima, Wilma Dias, Waly Salomão, Gal Costa, Paulinho Lima




1971 - Teatro da Praia, Rio de Janeiro - Autoria desconhecida








Estréia

15 de junho de 1971
Teatro da Praia
Rio de Janeiro - RJ


Interpretação

Maria Bethânia


Roteiro

Fauzi Arapi


Direção

Fauzi Arap


Direção Musical

Terra Trio


Cenografia

Flávio Império


Figurino

Flávio Império


Realização

Benil Santos


Assistente de Direção

Leina Krespi












O show encantado – assim foi chamado o espetáculo que entrou para a história como um dos acontecimentos artísticos mais importantes da década de 70. Rosa dos Ventos foi o primeiro de uma série de shows originados do encontro de Maria Bethânia com o diretor Fauzi Arap, com o cenógrafo/figurinista Flávio Império e com os músicos do Terra Trio.

Montado em 1971, o objetivo era cantar a volta dos brasileiros exilados, sobretudo Caetano Veloso e Gilberto Gil. O roteiro conjugava canções e textos de autores como Fernando Pessoa e Clarice Lispector. Fauzi dividiu o espetáculo em cinco blocos inspirados nos elementos da mandala jungiana: Terra, Água, Eu-difícil (o centro), Fogo e Ar. Em cada um deles, Flávio Império concebeu figurinos específicos para a intérprete, além de túnicas que representavam a qualidade dos elementos para os músicos.

Nos blocos do Eu-difícil e da Água – que, segundo Jung, remete à infância - Flávio reproduziu o vestido de primeira comunhão de Bethânia, amareleceu o tecido, desgastou-o, como se tivesse sofrido a ação do tempo. Para o Ar, elaborou uma indumentária preta com a qual a intérprete dissolvia-se no cenário da mesma cor, de forma etérea. Esta foi, aliás, a última ocasião em que Bethânia utilizou em cena um figurino preto, atendendo a uma recomendação religiosa.

A cenografia era uma espécie de não-lugar onde os elementos interpretados por Bethânia poderiam se manifestar: um palco levemente inclinado, forrado de tecido escuro, que subia pelas paredes. Havia apenas duas entradas laterais mais claras onde eram projetadas imagens - fotografias de Marisa Alvarez Lima, mandalas desenhadas por pacientes da instituição psiquiátrica Casa das Palmeiras e grafismos criados pelo próprio Flávio. O conteúdo de protesto do show passou ileso pela revista de treze censores.



 Estudos para estandarte entrada do teatro.
Grafite, esferográfica e hidrográfica sobre papel

Acervo Flávio Império © Flávio Império


Flávio Império era um maestro visual que operava, junto do diretor, a poiesis do show.

O próprio cenógrafo explica: “O Fauzi é uma espécie de autor do que Bethânia falava e eu era uma espécie de tutor de como ela se apresentava”. Sua atuação era preponderante na transformação de todo o espaço. Em “Rosa dos Ventos”, por exemplo, o público já era recebido na porta do Teatro da Praia (RJ) com um estandarte que unificava o rosto de Bethânia com o de Caetano, então exilado.





Desenho de Flávio Império, Maria Bethânia como a Lua e Caetano Veloso como o Sol e, simultaneamente, um olho. 



Desenho de figurino de Flávio Império para Maria Bethânia, representando o elemento Ar. Hidrográfica e grafite sobre papel. 


Desenho de figurino de Flávio Império para Maria Bethânia - Primeira comunhão



Os alquimistas estão chegando

… A concepção do show “Rosa dos Ventos” bebia nos estudos de alquimia que Fauzi Arap fazia desde 1963. As quatro partes do espetáculo eram inspiradas nos elementos terra, água, ar e fogo. O cenógrafo Flávio Império fez uma catedral no palco.
Um dos figurinos de Bethânia era um vestido igual ao de sua primeira comunhão, já gasto e surrado, para parecer o original… [O GLOBO, 4/1/2015]







Fonte: Acervo Flávio Império




Rio de Janeiro, Novembro / 1971




Salvador, Dezembro / 1971




FOLHA DE S.PAULO


2/5/1972

HOJE BETHÂNIA
PARA IMPRENSA

Será hoje a estréia para a
imprensa, do show “Rosa dos
Ventos”, estrelado por Maria
Bethânia, dirigido por Fauzi
Arap e producido por Benil
Santos, no Teatro Maria
Della Costa, às 21. Hs.


FOLHA DE S.PAULO
FOLHA ILUSTRADA

São Paulo, quinta-feira, 4 de maio de 1972



O “show” de Bethânia

SERGIO MOTTA MELLO

Maria Bethânia da Terra, Maria Bethânia das Águas, Maria Bethânia do Fogo, Maria Bethânia dos Ares. Em “Rosa dos Ventos”, no Teatro Maria Della Costa, Maria Bethânia Viana Telles Veloso, moviliza em si a força dos quatro elementos para cantar suas alegrias e tristezas, as experiencias de todos.

Ao fim do espetáculo de anteontem, o público a aplaudiu de pé e seu camarim a esperava repleto de flores e gente ansiosa por cumprimentá-la ou simplesmente vê-la mais uma vez. E o sorriso largo de Bethânia –pessoa recebeu a todos, feliz e tranquila de seu trabalho.

Mas não é a realizacão profissional como cantora a meta mais importante na vida de Bethânia, que em 1964 veio da Bahia para cantar os vôos do carcará nordestino em “Opinião”. É a sua própria vida que ela faz questão de repartir generosamente com o público através de suas músicas.

É a entrega total das vivencias suas e dos poetas que ela canta e declama; são as alegrías mais simples e as angústias dos tempos que Bethânia divide com as pessoas que a ouvem, como se estivesse ouvindo o cantar de todos. A forte presença morena de Maria Bethânia se integra e se atualiza com a plateia que para ela, é ela mesma refletida em mil.

Inspirado em “Rosa dos Ventos”, de Chico Buarque de Holanda e dos antigos navegantes, o director Fauzi Arap dividiu o “show” em etapas: terra, água, eu-difícil, fôgo e ar. Musicas brasileiras de todos os tempos e lugares, dos cantores nordestinos a Caetano Veloso, identificam os temas.

Entre as canções, textos poéticos de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector e Moreno. Os cenários e as roupas de Bethânia desenhados por Flávio Império compõem o clime desejado.

O resultado é um casamento de todos ao som elaborado e dinámico do Terra Trio. Reverzando-se ao piano, orgão, pianola, violão, violino, flauta, batería e outros instrumentos de percussão, Zé Maria, Fernando e Ricardo enriquecem o espetáculo com excelentes arranjos, como os de “Movimento” e “Dez Milhões de Neurônios”, uma nova composição de Paulinho e Zequinha Nogueira. É por algo mais que os já fortes laços da música que o Terra Trio está ligado é integrado com Bethânia. O som de “Rosa dos Ventos” é o resultado atual, de um trabalho antigo e da capacidade musical de cada um.

Os textos declamados dão mais força ao espetáculo. É com versos de “O Guardador de Rebanhos”, feitos em 1911 por Fernando Pessoa, que Bethânia fala do amor que vive em cada um de nós sob a forma de Jesus, antes de cantar o Jesus rebelde embalado por cantigas de cabaré, de “Minha História”.

Num encontro de dois, “olho a olho, cara a cara”, de Moreno, ela fala da ánsia do amor total: “…eu arrancarei teus olhos e os colocarei no lugar dos meus; e tu arrancarás os meus e os colocará no lugar dos teus; então, te olharei com teus olhos e me olharás com os meus…”, para enseguida cantar “Baby” num arranjo quase sideral do Terra Trio.

Quando canta, suas sombras se projetam no cenário, e ela cresce com elas, vestida de Janaína, com uma roupa branca igual à de sua primeira comunhão. E as imagens reforçãm a voz rouca-suave ou forte e extrovertida de uma mesma Bethânia dividida em suas interpretações.

Bethânia confirmou em São Paulo a consagração de “Rosa dos Ventos” no Rio de Janeiro, cantando para todos, de todas as idades, e anunciando para depois da tormenta, a bonança universal de amor e paz.


Ela é um grito

WALTER SILVA

Bethânia é gente no palco, mostrando o que gente tem de mais belo e importante: liberdade e verdade interiores. E como tudo isso é projetado por Bethânia.

As exclamações foram há muito banidas da linguagem jornalística. Pois, Bethânia, determina que elas voltem e, se possível, em maiúscula!!!

Bethânia, falando, tem a eloqüência de um Lacerda em tempo de Getúlio.

Tem um punching digno dos maiores "pegadores" e é ao mesmo tempo da leveza de uma pétala. Seu sorriso, sempre presente, mostra aquela ingenuidade das que, antes de artistas, são "macacas" de auditório, formadas pela massificação imposta pela antiga Rádio Nacional do Rio, nos tempos dos Cesar de Alencar etc., com o que seu repertório tanto se identifica, sob uma dignidade maravilhosa.

Os passos de Bethânia, parecem que caminham para o definitivo, como se ele existisse. E por um momento, a gente tem a impressão que sim.

Bethânia é uma alma que canta, sem saber o que; que fala apenas aquilo que sabe e se contenta muito bem com isso.

Bethânia é linda. Bethânia é única. Não houve mais nada; houve Bethânia.

A crítica especializada de São Paulo, assistiu, anteontem à noite a apresentação do espetáculo “Rosa dos Ventos”, estrelado por Maria Bethânia, dirigido por Fauzi Arap e produzido por Benil Santos. Os cenários são de Flávio Império.

Não cremos que alguém tenha saído do teatro cantarolando qualquer das músicas cantadas por Bethânia; nem comentando a direção ou o cenário, ou a produção, ou luz, ou o comportamento do conjunto musical “Terra Trio”, que a acompanha.

As pessoas saíram hipnotizadas pela beleza, pela força, pela personalidade de uma das maiores expressões humanas desta terra.

Maria Bethânia é uma explosão de verdade interior.

É um grito. Uma beleza interior e exterior que magnetiza quem a vê. Não há possibilidade nenhuma de se enquadrar Bethânia entre as cantoras, ou atrizes que militam em nossos palcos. Ela não é musical. Não precisa e faz questão de demonstrar isso. Não assume compromisso nenhum com a música, nem com a melodia, a harmonia, a divisão a respiração, ou o ritmo. Ela parece que está no palco com o único intuito de se doar. E quanta coisa dá Bethânia durante todo o espetáculo.

Bethânia também não é atriz e seus gestos que insinuam teatro, são até primários. Mas, como ela comunica.

Nesse show, há rosas e ventos, todos enviados por Bethânia, numa fúria de amor e paz, que só aos grandes compete.







ROTEIRO DO SHOW
1º Ato

ALDEBARÃ (Sueli Costa/Tite de Lemos)
ASSOMBRAÇÕES (Sueli Costa/Tite de Lemos)
Texto (Fernando Pessoa)
NOITE DOS MASCARADOS (Chico Buarque)
Texto (Fernando Pessoa)
BODOCÓ (Guio de Moraes/Luiz Gonzaga)
CARCARÁ (João do Valle/José Cândido)
VIRAMUNDO (Gilberto Gil/Capinam)
Texto (Fernando Pessoa)
CANTO DO PAJÉ (Heitor Villa-Lobos/C. Paula Barros)
PAI GRANDE (Milton Nascimento)
MENININHA (Vinícius de Moraes/Toquinho)
O TEMPO E O RIO (Edu Lobo/Capinam)
CANTO DE OXUM (Toquinho/Vinicus de Moraes)
Texto n° 1 (Fernando Pessoa)
O MAR (Dorival Caymmi)
MORENA DO MAR (Dorival Caymmi)
SUÍTE DOS PESCADORES (Dorival Caymmi)
AVARANDADO (Caetano Veloso)
O TEMPO E O RIO (Edu Lobo/Capinam)
Sambas de roda
Texto (Maria Bethânia)
TOALHA DA SAUDADE (Batatinha)
IMITAÇÃO DA VIDA (Batatinha)
HORA DA RAZÃO (Batatinho/J. Luna)
CANTIGAS DE RODA (Folclore baiano)
ADEUS MEU SANTO AMARO (Caetano Veloso)
LE LAC DE COME (Mme. G. Galos) Instrumental
Texto - Trecho do "Poema do Menino Jesus" (Fernando Pessoa)
DOCE MISTÉRIO DA VIDA [Ah! Sweet mistery of life] (Vitor Hebert - Versão: Alberto Ribeiro)

2º Ato
ALDEBARÃ (Sueli Costa/Tite de Lemos)
SOMBRA AMIGA (Sueli Costa/Tite de Lemos)
Texto (Fernando Pessoa)
PRECONCEITO (Antonio Maria/Fernando Lobo)
LAMA (Aylce Chaves/Paulo Marques)
MINHA HISTÓRIA [Gesubambino] (Dalla Pallotino - Versão: Chico Buarque)
LEMBRANÇAS (Raul Sampaio/Benil Santos)
VAPOR BARATO (Wally Salomão/Jards Macalé)
EL DIA EN QUE ME QUIERAS (Carlos Gardel/Alfredo Le Pêra)
ANDA LUZIA (João de Barro)
TA-HI (Joubert de Carvalho)
NÃO ME DIGA DEUS (Paquito/L. Soberano/J. C. Silva)
MÁSCARA NA FACE (Clecius Caldas/Armando Cavalcanti)
MORA NA FILOSOFIA (Monsueto)
Texto [Soneto de Fidelidade] (Vinícius de Moraes)
COMO DIZIA O POETA (Toquinho/Vinicius de Moraes)
ANDA LUZIA (João de Barro)
ROSA DOS VENTOS (Chico Buarque)
MARIA BETHÂNIA (Capiba)
Texto (Fernando Pessoa)
JANELAS ABERTAS n° 2 (Caetano Veloso)
Texto (Clarice Lispector)
NÃO IDENTIFICADO (Caetano Veloso)
DEZ BILHÔES DE NEURÔNIOS (Paulinho Nogueira/Zequinha Nogueira)
A TUA PRESENÇA MORENA (Caetano Veloso)
A FLOR DA NOITE (Toquinho/Vinícius de Moraes)
O TEMPO E O RIO (Edu Lobo/Capinam)
A SONHAR EU VENCI MUNDOS
"A SONHAR VENCI MUNDOS / DESCONHECIDO" (Fauzi Arap)
Texto n° 4 (Clarice Lispector)
MOVIMENTO DOS BARCOS (Jards Macalé/Capinam)
Texto n° 5 (Moreno)

Bis
MOLAMBO (Jayme Florence/Augusto Mesquita)
ÚLTIMO DESEJO (Noel Rosa)
PONTO DE OXUM (Toquinho/Vinícius de Moraes)




 Capa de disco [Setembro de 1971, Philips 6349 015, CBD, Phonogram]


                               Composição gráfica e desenhos de Flávio Império
Foto da capa: Norma Pereira Rego





Produção de Roberto Menescal















O GLOBO
Cultura


Faíscas no palco
Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não?

POR MARCIO DEBELLIAN *
04/01/2015

RIO - Dezembro de 1967, toca o telefone na casa de Clarice Lispector. É Bethânia. Na semana seguinte, o assunto vira crônica publicada no “JB”: “Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não? Dizem que é delicada. Vou resolver. Dizem que fala muito de como é. Maria Bethânia me conhece dos livros”.

O ano de 1971 não deixa dúvidas: Clarice resolveu que sim. Passou a frequentar os ensaios do show “Rosa dos ventos”, escreveu textos especiais para o espetáculo e entregou a Bethânia e Fauzi Arap, diretor do show, o manuscrito de “Água viva”, que seria lançado apenas dois anos depois. Quem foi ao show (ou posteriormente ouviu o registro em disco) se surpreende ao final do livro. O último texto do espetáculo é uma adaptação dos parágrafos de encerramento do romance.

Foi também em “Rosa dos ventos” que Bethânia passou a incluir poemas de Fernando Pessoa em seus shows. Tomou a liberdade de cortar versos e reorganizar o poema VIII de “O Guardador de Rebanhos” — que acabou ficando famoso como “O poema do Menino Jesus” — para chegar a uma construção infinitamente mais doce do que o poema original. Moldou-o para tirar o fôlego do público e encerrar o primeiro ato do espetáculo.

Ao tomar emprestadas palavras e fazer a sua colagem particular de poesia e música, Bethânia passou a inventar a sua própria dramaturgia para a cena e, por tabela, inundou o seu público de referências poéticas. Levante a mão quem primeiro se apaixonou por Fernando Pessoa num show ou disco, para depois ir buscar o livro.

“Rosa dos ventos” marca a realização plena da linguagem que Bethânia criou para si e que se desdobraria ao longo da sua carreira. A densidade poética, a fé e as referências ao Recôncavo Baiano estão evidentes. No repertório, liberdade para ir de um ponto de Oxum até um tango de Gardel.

A mística do espetáculo instaurou-se, e o público, impactado, voltou para revê-lo inúmeras vezes. No último dia da temporada, era grande a confusão na entrada. Bethânia botou parte do público em cima do palco e fez o espetáculo com o teatro de portas abertas.

Tem razão quem disse que “Bethânia fala muito de como é”. É do palco que há 50 anos ela nos conta seus mistérios e desassossegos, equilibrando em seu trapézio o canto e a palavra falada, passeando o público pelo seu mundo encantado de sereias, caboclos, lendas e magias.

Clarice foi assistir a “Rosa dos ventos” e saiu exclamando: “Faíscas no palco! Faíscas no palco!”. Voltou um segundo dia e, ao final do show, no alto de uma escada em meio à barulheira do camarim, gritou: “Esse show não termina nunca”. Fez-se silêncio, e ela continuou: “Já vim uma vez, hoje é a segunda, e eu sei que vou voltar muitas vezes. Maria Bethânia, esse show não termina nunca, é um show eterno”.


* Marcio Debellian é diretor do filme “(O vento lá fora)” (2014) e autor do argumento e roteirista do documentário “Palavra (en)cantada” (2008)


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