domingo, 9 de abril de 2017

2017 - CAETANO - uma biografia





DRUMMOND, Carlos Eduardo; NOLASCO, Marcio. Caetano - uma biografia - A vida de Caetano Veloso, o mais Doce Bárbaro dos Trópicos. Editorial Seoman. 1ª edição, 2017. 544 pág.





Foto da capa: Thereza Eugênia (1984)

A biografia foi realizada de 1997 a 2004. Não foi publicada na época, por falta de autorização formal desse tipo de trabalho.
 


 2013 - Marcio Nolasco e Carlos Eduardo Drummond
Foto: Rony Maltz / Folhapress


Sinopse: 

Caetano Veloso dispensa apresentações, porém sua história e suas facetas ainda foram pouco exploradas. Existem livros que que abordam quase que exclusivamente a sua fase Tropicalista, porém, os longos trechos ainda desconhecidos de sua história não podem permanecer sem registro. Por isso, torna-se necessário contar sua trajetória de vida de modo amplo e irrestrito, com o respeito e a isenção que o artista merece. Este livro é resultado de uma pesquisa de vinte anos dos autores, e conta a história completa do carismático músico brasileiro, passando por todas as suas fases com igual peso, permitindo ao grande público entender e conhecer um pouco mais sobre Caetano Veloso.





Para
Rodrigo Velloso,
Antônio Nunes
e Maria Sampaio





Prólogo                                                                        9
Capítulo 1 ● Lua de São Caetano                                    15
Capítulo 2 ● Rua do Amparo                                           31
Capítulo 3 ● Back in Guadalupe                                      47
Capítulo 4 ● Estrada da Vida                                          61
Capítulo 5 ● O Casarão Amarelo                                    73
Capítulo 6 ● [Re] União de Apóstolos                              89
Capítulo 7 ● Nós, por Exemplo…                                   108
Capítulo 8 ● Casa, Comida, Diversão e Arte                   129
Capítulo 9 ● A Manhã Tropical se Inicia                          145
Capítulo 10 ● Tropicalismo: Vida, Paixão e Banana         165
Capítulo 11 ● Acorrentados                                           187
Capítulo 12 ● Frio, Drogas e Rock and Roll                     209
Capítulo 13 ● Começar de Novo                                    231
Capítulo 14 ● Uma Temporada Joia                                251
Capítulo 15 ● Barbarizar… Sem Perder A Doçura             269
Capítulo 16 ● Dentro da Estrela Azulada                         291
Capítulo 17 ● O Que É Que o Baiano Tem?                     311






PRÓLOGO

Música e cinema. Essa combinação deu certo desde as primeiras sessões no Eden francês, onde as primeiras obras foram exibidas no cinematógrafo dos irmãos Lumière, lá pelos idos de 1895. Apesar de a película ainda não conseguir registrar som em paralelo, as apresentações eram acompanhadas por música de toda espécie. Cinema e música. Continuou assim quando o som se fez presente na voz pioneira do cantor de jazz Al Jolson. Daí para o cenário atual, foi um longo caminho dentro de uma sequência evolutiva natural. Em algum ponto dessa estrada luminosa, entre os anos 1940 e 50, Caetano Veloso pegou esse bonde para as estrelas e dele nunca mais desceu. Ainda na infância se deixou levar pelas luzes que saíam da tela grande e logo entendeu sua magia arrebatadora. Nunca esqueceria as lágrimas de seu Agnelo Rato Grosso, matuto rude, que reconhecia nos filmes de Federico Fellini a história de sua própria vida. E em Fellini também passou a se reconhecer. Chorou por Giulietta Masina, suspirou ao lado de Dasinho e aprendeu com Chico Motta a gostar de Gene Kelly nas noites claras da Praça do Rosário. O traquejo com as palavras o levou a escrever críticas em O Archote e a ler os Cahiers du Cinéma. E mais. A paixão pelas divas, a fraternidade com Álvaro Guimarães e Glauber Rocha, as participações em filmes de Júlio Bressane e Cacá Diegues, os trabalhos com Neville d’Almeida e Fábio Barreto. A amizade com Pedro Almodóvar e o reconhecimento a Michelangelo Antonioni. Teve até seu O Cinema Falado. Se nem tudo na vida dele mantinha relação com o cinema, muita água desse rio de sonhos banhou momentos de sua vida. Tanto assim que o ano de 2002 revelou-se prolífico nesse ramo da arte. Primeiro foi a ponta em Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar, cantando “Cucurrucucu Paloma”. Depois, o inusitado convite para gravar “Burn it Blue”, tema do filme Frida, de Julie Taymor. Este o levaria ainda mais longe. Ou não. Atribulado por uma série de compromissos no primeiro semestre daquele ano, não pôde ir aos Estados Unidos para fazer o trabalho. Além disso, a música pareceu-lhe grandiosa demais para uma voz com o timbre da sua. Mas a singeleza de seu canto era exatamente o que a diretora queria. Ouvi-lo seria como ouvir Diego Rivera encantado pelo magnetismo exuberante de sua Frida Kahlo. Ainda mais tendo como contraponto feminino na canção, a presença morena da mexicana Lila Downs, outra artista acostumada a rodar este mundo com desenvoltura. Tinha de ser Caetano. E Julie sabia ser persistente, como prova uma passagem de sua história. Para conseguir encenar seu musical O Rei Leão, na Broadway, precisou dobrar vozes dissonantes até mesmo da própria Disney. Alguns produtores da divisão teatral da empresa achavam uma temeridade a montagem ganhar a luz do palco. Não tinham ideia do megassucesso que quase deixaram de lado. Encenado sem interrupção desde 1997, o espetáculo atrai milhares de pessoas todos os anos e continua a correr o mundo sempre envolto da mesma fascinação. Se Frida faria algo semelhante ainda não dava para dizer, mas a certeza particular de Julie Taymor é que contaria com a voz do cantor brasileiro Caetano Veloso. Vencidas as barreiras, Julie e o maestro Elliot Goldenthal, seu marido e também autor da música, desembarcaram no Brasil acompanhados da cantora Lila Downs, para gravar com o baiano. Os trabalhos aconteceram no Rio de Janeiro. Foi tudo muito rápido, mas ficou um cheirinho bom no ar. Corria o início de 2002. Meses depois, em novembro, nessas andanças da vida, Caetano passava por Nova York em sua turnê norte-americana, quando o casal eufórico foi vê-lo. Prenunciavam a indicação ao Oscar. Seria algo inédito apenas para Julie Taymor, uma vez que Goldenthal conseguira a façanha por conta de trilhas incidentais como as de Entrevista com o Vampiro e Michael Collins: o preço da liberdade. Mais comedido, Caetano preferia esperar até fevereiro do ano seguinte, quando a Academia anunciasse oficialmente os indicados. Como em um roteiro bem planejado, o anúncio se confirmou e a felicidade bateu fundo. O filme obteve seis indicações ao Oscar, entre elas as de melhor trilha e melhor canção. Tudo conspirava para que Caetano fosse também o intérprete de “Burn it Blue” na festa do cinema mundial. A escolha abriria um precedente histórico: pela primeira vez um cantor brasileiro teria a chance de se apresentar ao vivo na cerimônia de entrega do prêmio. E bem que poderia ter um parceiro à altura. Cidade de Deus, longa-metragem dirigido por Fernando Meirelles, escolhido pelo Ministério da Cultura como representante brasileiro para concorrer à estatueta de melhor filme estrangeiro, não conseguiu ver sua candidatura prosperar. Ao menos naquele momento, a premiação ficaria na saudade. A chance de o filme concorrer de fato só vingaria no ano seguinte e a injustiça seria corrigida com juros e correção monetária. Na festa de 2003, Caetano poderia ser o exclusivo representante do Brasil. O plano começou a ganhar mais corpo quando o Carnaval chegou, e com ele Julie Taymor e Elliot Goldenthal. Além de aproveitar o agito de Salvador, o casal queria acertar os detalhes para a cerimônia de entrega do Oscar. Nada apagava uma ideia da cabeça de Julie: o cantor brasileiro apresentaria a música também na cerimônia. A pouco mais de um mês de sua realização, e-mails recebidos por parte da Academia e da Miramax, distribuidora do filme, tratavam de tirar qualquer dúvida sobre sua participação. No meio de todo o disse me disse estelar, Caetano Veloso estava garantido na festa. E ela só não seria completa porque havia a perspectiva de uma guerra EUA versus Iraque eclodir a qualquer momento. O problema era pior do que se imaginava. Osama Bin Laden, esse falso profeta, decidira abalar estruturas quando enviou aos ares seus anjos da destruição. Derrubadas as torres gêmeas, demonstrou o poder de seu desvario. O mundo mudou desde 11 de setembro de 2001. Passada a tormenta, nada mais seria como antigamente. A essa altura, as consequências do atentado ganhavam a forma de um ultimato, lançado por George W. Bush, o filho, em 17 de março de 2003. O presidente americano deixou o mundo perplexo ao comunicar pela TV que o ditador Saddam Hussein teria 48 horas para deixar o Iraque. Desde que George H. W. Bush, o pai, tinha invadido o país nos anos 1990 sem conseguir derrubar o chamado “regime do mal”, uma pulga persistia atrás da orelha. Motivado pelos fracassos na caçada a Bin Laden, apoiado na falácia da produção de armas de destruição em massa e para justificar a fortuna aplicada em medidas antiterroristas, Bush escolheu o caminho da guerra. A decisão não tinha apoio do Conselho de Segurança da ONU, o que, cá entre nós, de pouco importava. Se o ditador não saísse por conta própria, os EUA e seus aliados se encarregariam de tirá-lo de lá à força. E Bush, o “rei da brincadeira”, dizia a verdade; Saddam, o “rei da confusão”, não acreditava e aguentou tão firme quanto podia. Expirado o prazo, uma chuva de bombas desabou sobre as terras antes mágicas de Bagdá. Entre bombas e Brigitte Bardot, a grande maioria prefere a segunda opção. A indústria do cinema também. Apesar do clima de instabilidade, a Academia decidiu manter a cerimônia de premiação na base da velha máxima the show must go on. A guerra estava em andamento, quando Caetano Veloso e Paula Lavigne viajaram para os EUA. A entrega do Oscar aconteceria em 23 de março, no Kodak Theatre, em Los Angeles. Depois de 74 edições, finalmente o evento ganhava uma casa para chamar de sua. Localizada no coração do Hollywood Boulevard, pertinho da “Calçada da Fama” do Chinese Theatre, onde as estrelas, mais e menos conhecidas, deixam suas marcas no concreto do chão. E se no local, nove entre dez turistas disputam o gosto de sentir os pés sobre as “mãos” de Marilyn Monroe, seria mais difícil ainda chegar até a porta do teatro. Para evitar maiores problemas, não haveria a tradicional aglomeração de curiosos na entrada. O espaço aéreo estava controlado; os arredores, cercados; e as ruas em volta, isoladas. Podese dizer que, por medida de segurança, havia mais policiais que caçadores de autógrafos. Nas ruas próximas, ninguém entendia nada. A manifestação de um lado era a favor da guerra, a passeata do outro, contra. Ao menos ali, ninguém matava, ninguém morria. É o lado bom de haver lugares onde se respeita a opinião do outro. Coisas da democracia. Dentro do teatro, o clima era parecido. Os pinguins engomadinhos de gravata borboleta que organizavam o movimento recomendavam evitar discursos políticos. Naturalmente a orientação era posta de lado pelos “Che Guevara” de plantão. O galã mexicano Gael García Bernal, antes de chamar Caetano Veloso e Lila Downs, deu sua espetada elegante naqueles imperialistas que gostavam de dar porrada em outros, quase todos barbudos. Lembrou que Frida Kahlo “pintava sua realidade e não seus sonhos”. Em seguida, emendou dizendo que “a necessidade de paz no mundo não era um sonho, era uma realidade”. E só depois de emitir tais palavras anunciou, com muitos elogios, a entrada dos intérpretes de “Burn it Blue”, tema de Frida. O filme conta a história da pintora mexicana Frida Kahlo. Na interpretação do tema, Caetano Veloso, brasileiro, cantou em inglês, e Lila Downs, mexicana, em espanhol. A combinação de culturas, o tom épico da canção, o brilho pessoal dos artistas no palco. Por alguns momentos foi possível esquecer que o homem, além de produzir um espetáculo artístico de rara beleza, é capaz de fazer a guerra, matar seus semelhantes. No fim da apresentação, enquanto a plateia hollywoodiana aplaudia com entusiasmo, o cantor brasileiro, abraçado a Lila, fazia questão de agradecer em bom português: “Obrigado!” “And the winner is…” Como tantos cinéfilos, Caetano já tinha ouvido pela TV a categórica frase que anunciava cada premiado. Não ouviria daquela vez. No fim dos anos 1980, os tempos do politicamente chato a derrubaram em troca do “And the Oscar goes to...” E não seria apenas essa parte que ele deixaria de ouvir... A escolhida como melhor canção original foi “Lose Yourself ”, do rapper Eminem, tema do filme 8 Mile: Rua das Ilusões. Embora Frida não tenha vencido nessa categoria, ganhou o Oscar de melhor trilha sonora e melhor maquiagem. Indiretamente, Caetano também se sentiu premiado. E não só por Frida, mas também por Fale com Ela, no qual fez uma ponta sob a direção de Pedro Almodóvar. O Oscar de melhor roteiro original foi parar nas mãos do amigo espanhol. Naquela noite ímpar, Caetano cantou no idioma bretão, mas provou mais uma vez o quanto acha saborosa a língua de Luís de Camões. Muitos pares de olhos cheios de cores assistiram à sua apresentação. Jamais poderia se dizer que voltou de lá americanizado. Com seu singelo “Obrigado!” ressoando baixinho, simbolicamente colocou na história do cinema internacional a imagem desse país ilhado pelo idioma e quase totalmente excluído da nova ordem mundial. Embora não fizesse tanta diferença para ele, um fato não poderia ser ignorado. Caetano Veloso tinha se apresentado para o maior público de sua carreira até então. Muitos foram os caminhos percorridos por ele até chegar àquele momento, mas, como acontece com qualquer pessoa, tudo começou num piscar de olhos.





Você já foi à Bahia, meu nego? Não?! Então venha. Mergulhe nela com essa força estranha, presença de todas as cores, nascida e criada nas regiões profundas do ser do Brasil, que aqui é de papel, mas em outra verdade tropical é concreta como o Planalto Central. A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. Muita sorte teve, muita sorte tem e muita sorte terá. Tudo lá faz a gente querer bem. E é engraçada a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer...







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LUA DE SÃO CAETANO

Santo Amaro, Bahia • Brasil • Agosto de 1942


Seu Zezinho não era afeito a jogos de azar, mas no dia em que comprou uma rifa para ajudar um vendedor de Santo Amaro, ganhou um bilhete da loteria federal. O cestinho de roupas do filho recém-nascido, perfumado com alfazema, parecia um bom esconderijo, e ali ficou esquecido o mapa do tesouro. Bem que dona Canô desconfiou do marido mexendo nas coisas do bebê, mas deixou por isso mesmo. Não podia imaginar que a sorte grande sorriria duplamente para o casal. Quando deu a notícia no rádio que o prêmio havia saído para a Bahia, teve gente rumando cedo em direção ao telégrafo de Santo Amaro. O bilhete 24966 dava direito à quantia de trezentos contos de réis. A soma considerável não deixaria ninguém rico, mas ajudaria um bocado. O ganhador daquele sorteio pensava assim também. Com uma família numerosa, seu Zezinho achou melhor dividir o dinheiro entre os parentes. E olha que sobrou até para os amigos mais próximos. De qualquer forma, o bilhete premiado seria apenas uma anunciação. Muitas alegrias ainda estavam por vir para aquela família. Os Velloso moravam na rua Conselheiro Saraiva nº 39, mas como na Bahia se dá apelido em tudo, era mais conhecida como rua Direita. O velho sobrado em que viviam fora vendido por João Cardoso para os Correios e Telégrafos, cujas atividades passaram a funcionar no mesmo endereço. Localizada no trecho mais movimentado da cidade, a construção com traços do século XIX se comunicava com a rua Direita pela frente, e com a rua do Amparo pelos fundos. A ligação entre as duas vias e os portões sempre abertos permitiam à vizinhança usar a passagem como atalho, mas isso não chegava a incomodar quem trabalhava no local. O serviço era conduzido por José Telles Velloso, o seu Zezinho, e sua irmã Jovina, a Minha Ju. Responsável pelo correio e pelo telégrafo, seu Zezinho era o agente postal telegráfico, ou APT, como se dizia na época. Disciplinado, levantava todos os dias às cinco da manhã para fazer a chamada e conferir se as linhas estavam em condições normais de operação. Com tudo checado, tomava o café da manhã nos fundos da casa, onde ficavam a cozinha e a sala, e depois abria o correio. Enquanto Minha Ju operava o telégrafo, seu Zezinho passava telegramas pelo telefone operado à manivela. Dono de voz firme mas tranquila, às vezes precisava aumentar o tom para vencer o ruído da linha precária. E só assim conseguia se comunicar com o operador de São Francisco do Conde, localidade próxima a Salvador. O telégrafo ficava na parte da frente da casa. Colocado inicialmente no andar de cima, desceu conforme mais cômodos foram preparados para abrigar a família que não parava de crescer. Vez por outra, diversão e trabalho se misturavam. As soluções químicas necessárias ao funcionamento das máquinas exerciam fascínio natural nas crianças. Na bateria eletrolítica, o azul produzido pelo sulfato de cobre atraía as mãozinhas curiosas, mas a tentação em mexer diminuía quando o pai explicava com paciência que aquilo não era brinquedo. Com o expediente dividido em dois turnos, um pela manhã, outro à tarde, o trabalho exigia atenção dobrada. Mesmo com a rotina cansativa, o respeito à profissão fez com que seu Zezinho nunca tirasse férias. A estrutura enxuta do serviço, tocada por ele e sua irmã, não o deixava confortável para esquecer, mesmo por alguns dias, a obrigação que tinha com seus conterrâneos. O que poderia ser um fardo, no entanto, deu-lhe um presente maravilhoso. O trabalho realizado na própria casa permitiu que estivesse sempre presente. Além da convivência natural com a família, pôde acompanhar o desenvolvimento de cada filho, primo ou sobrinho sob sua tutela. Essa praticidade proporcionou uma união que de outra forma não seria possível.


No Nordeste do Brasil as estações nem sempre são bem caracterizadas como em lugares onde claramente existe verão, outono, inverno e primavera. Em agosto, no Recôncavo Baiano, e, portanto, inverno no Hemisfério Sul, os dias são quentes, e as noites, frias. Na noite de 7 de agosto de 1942, o vento úmido que soprava baixinho trouxe boas novas. Mais um filho de seu Zezinho e dona Canô veio a este mundo. Às 22 horas e 50 minutos, sob o signo de leão, nasceu Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso. Na ocasião nem todos da família estiveram na plateia para assistir ao parto. Margarida e Mariinha, sobrinhas de seu Zezinho, iam à Igreja toda sexta-feira, e aquela não tinha sido diferente. Embora estivessem ansiosas pela chegada do primo, acharam por bem pedir aos céus que dona Canô tivesse uma boa hora. E as preces foram atendidas. Quando chegaram acompanhadas de minha Ju encontraram o menino repousando ao lado da mãe. Dormia um sono tranquilo depois de aparado por mãos experientes. No sobrado não havia criança que acreditasse em cegonha. Por mais que se contasse esse conto da Carochinha, ninguém embarcava na história. Naquela família, todo mundo sabia que para tirar criança da barriga tinha que trazer Iá Pomba e vó Júlia, mães de seu Zezinho e dona Canô, respectivamente. Daquela vez, porém, não foi assim. Apenas vó Júlia aparou o pequenino Caetano. Iá Pomba tinha deixado saudades quase um ano antes, vítima de problemas cardíacos.


Maria Clara Velloso, a Iá Pomba, era parteira, ou aparadeira, como se costumava dizer na época. Nascida em Santo Amaro, conheceu e se uniu a José Cupertino Telles, comerciante de Berimbau, hoje Conceição do Jacuípe. José foi abrir uma casa de negócios na cidade e se apaixonou por Iá Pomba, que estava viúva e cheia de filhos. De seu primeiro relacionamento teve Francisco, Maria Pacífica, Arabela e Isabel. Nem a existência de toda essa filharada tirava o ímpeto de José Cupertino em ser pai. Realizaria seu sonho antes da virada para o século XX, com o nascimento de sua primeira filha, Jovina. Jovina Telles Velloso foi batizada segundo o costume antigo, que pedia o sobrenome do pai vindo antes do da mãe. Na tradição do apelido, embora o natural fosse chamar de Jô, ou Jó, com o som aberto característico do sotaque baiano, acabou chamada de Minha Ju. O possessivo ficava por conta do tratamento carinhoso da família. Minha Ju ganhou um dengo todo especial do pai e teve educação digna de princesa. Entrou para o Colégio das Irmãs Sacramentinas, onde lecionaria anos mais tarde. Na instituição exclusiva para meninas aprendeu francês e a tocar piano. A desenvoltura com o instrumento despertou também o interesse pelo canto. Com o passar do tempo, Minha Ju uniu o útil ao agradável. Católica praticante, entrou para o Coro Santa Cecília, da Igreja da Matriz da Purificação, e por muito tempo faria ecoar sua bem colocada voz de soprano. Fosse na Matriz ou no Rosário, em Oliveira dos Campinhos ou na Lapa, e onde houvesse festa, lá estaria Minha Ju. Em coração de pai e de mãe sempre cabe mais um. Se Minha Ju era a menina dos olhos da família, em 14 de outubro de 1901 nascia José Telles Velloso, para dividir um pouco as atenções. Zezinho e Minha Ju cresceram juntos sob a proteção dos pais e influência dos irmãos mais velhos. Francisco, o primeiro filho de Iá Pomba, já era casado e morava em outra casa. Foi ele quem estimulou os caçulas na educação. Homem de forte presença, proveu a família dos recursos necessários e botou os mais novos para estudar. Zezinho gostava de música, poesia, serenata e era bom aluno. Minha Ju não ficava para trás. Podia parecer muito, mas não era suficiente. Influenciados por Francisco, os dois resolveram prestar concurso para os correios. A aprovação chegou, mas nem todas as notícias soaram boas. Precisariam colocar os pés na estrada. As vagas eram para trabalhar em Salvador. Fazer o quê? O jeito foi encarar o desafio. O tempo passou e alguns anos de experiência foram acumulados até surgir a chance de retornar. Fizeram novo concurso, desta vez interno, e, pela boa classificação obtida, tiveram prioridade de escolha. Passaram ainda por Ilhéus, mas não demoraria muito até que estivessem de volta à tranquila Santo Amaro. Aliás, tranquila naquela época. Bem antes disso, porém, índio não queria só apito...


No início eram os índios Abatirás. Os primeiros colonos que chegaram ao Recôncavo Baiano, lá pelos idos de 1557, perceberam que aqueles eram inimigos dos Tupinambás e ficaram satisfeitos. Inimigo de meu inimigo é meu amigo. Enquanto os nativos se matavam, os portugueses tomavam suas terras. Para catequizar os sobreviventes, uma turma de jesuítas do Colégio Santo Antão de Lisboa subiu pelas margens do rio Traripe. Ergueram a capela de Nossa Senhora do Rosário e nos arredores cresceu o povoado. A paz foi ameaçada quando divergências entre índios, colonos e jesuítas, levaram à morte um padre em plena missa. O fato ocasionou uma diáspora e o início de um novo povoado na margem do rio Subaé (1). Dizia Pero Vaz de Caminha que no Brasil em se plantando tudo dá. O massapê, terra escura rica em húmus, era abundante naquelas plagas. Sabendo disso, o 3º Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, chegou com seu engenho e mudas de cana-de-açúcar. Deixou tudo nas mãos de seu filho e foi cuidar de outros assuntos no Rio de Janeiro. Ele só não contava com a morte prematura do filho. Sem herdeiros homens na linhagem, apressou o casamento da filha Felipa com Fernando de Noronha, o Conde de Linhares. O Conde assumiu o engenho e expandiu a freguesia rumo ao interior, dando vez a outros povoados, como Brotas, Saubara e Acupe. Com a antiga capela abandonada desde a morte do padre, mandou construir uma nova dentro do próprio engenho, agora em nome de Nossa Senhora da Purificação. Sem filhos com Felipa, sua devoção cristã fez com que as terras fossem doadas ao colégio de jesuítas, depois de sua morte. Em 1600, as terras foram repartidas em sesmarias, e um bom quinhão do povoado ficou sob a tutela de João Ferreira de Araújo. Pouco tempo depois formava-se o distrito. Para aumentar ainda mais o alcance da fé, a expansão pedia também uma nova capela. Em 1667, construiu-se outra, desta vez em nome de Santo Mauro, ou Santo Amaro na forma mais utilizada em português. Do abraço da fé entre os povoados surgidos ao redor das duas igrejas, cresceu a localidade denominada a partir de 1727 de Vila de Santo Amaro da Purificação. Em 1837, a promoção de Vila à Cidade custou a terminação do nome, daí em diante denominada apenas por Santo Amaro. Os responsáveis pela mudança, porém, esqueceram de uma coisa: casamento que Deus ordena, homem não desfaz. A cidade seria para sempre conhecida como Santo Amaro da Purificação.


De volta à sua terra, Zezinho continuou a servir à comunidade. E voltou a morar no sobrado da Conselheiro Saraiva. O agente postal ainda tinha direito a se instalar na sede do correio. Melhor assim, pois eles precisariam mesmo de espaço. Maria Pacífica tinha morrido e seus filhos, Edmundo, Mariinha, Lindaura, Detinha, Nair e Zequinha, foram morar lá também. Arabela tinha se casado com Silvino Salles, mas como ele trabalhava nas usinas de Santo Amaro, ela e as filhas, Tereza, Mariana, Lourdes e Margarida, ficaram no sobrado. Isabel, a Mãe Mina, única irmã solteira de Zezinho, também morava lá. Não perca a conta. Com mais Iá Pomba e Minha Ju, ao todo eram 15 pessoas vivendo sob o mesmo teto. E mais gente ainda estava para chegar. Eunice de Souza Oliveira, a Nicinha, era filha de Domingos Gaudino de Oliveira, barbeiro que morava com a mulher, Gracilina Souza de Oliveira, algumas casas depois do sobrado. Vivia brincando na casa das meninas do telégrafo. Certa vez foi acometida de sarampo e aí é que não sairia mais de lá. Ainda hoje a doença é perigosa se o paciente não receber o devido tratamento. Naquele tempo os riscos eram ainda maiores. Como não existia antibiótico, o medo fez o sobrado ficar de quarentena. Iá Pomba foi escalada para cuidar da criança e Mariinha ajudava passando as noites zelando Nicinha. Quando a febre baixou e os sintomas enfraqueceram, a afeição se tornou tão grande que ficou difícil afastar-se da menina. Depois de curada, Nicinha voltou a passar os dias no sobrado, só voltando em casa para dormir. Acontece que lá não tinha Mariinha, e assim não daria para continuar. Aos poucos foi ficando por mais tempo na casa dos Velloso, e, se já era tratada como se fosse da família, passou a ser de fato. Zezinho acabou escolhido por Nicinha para ser seu segundo pai. Cuidar de pessoas não chegava a ser uma novidade para ele, responsável por aquela grande família. Em 1930, porém, ainda não tinha casado nem tinha filhos. Só não demoraria a achar sua alma gêmea. No início dos anos 1930, com a cidade girando em torno dos 16 mil habitantes, não era difícil as pessoas se conhecerem ao menos de vista. Fora o cotidiano normal, boa parte da população se encontrava em ocasiões festivas. Festa do Padroeiro Santo Amaro, festa de Nossa Senhora da Purificação, Bembé do Mercado, Ata da Vereação, 2 de Julho, festa de São Pedro. Encontros não faltavam naquela cidade. E como se não bastasse, havia também os “assustados”, que eram festas organizadas de improviso na casa de quem cedesse o espaço para a diversão. Tendo sempre contato com aquela jovem bonita e de atitude, pequena, de cabelos compridos e negros feito a asa da graúna, Zezinho já estava interessado em conhecê-la. Só não sabia seu nome. Sem problema; um “passarinho” assoviou em seu ouvido: Canô.


Canô nasceu Claudionor Vianna, filha de Anízio Cesar de Oliveira Vianna e Júlia Moniz Araújo. Assim como Iá Pomba, Júlia perdera seu primeiro companheiro e já tinha filhos, Joana e Almir, quando conheceu Anízio. Ele era fiscal do governo e morava em Salvador, mas por conta de suas andanças pelo interior, conheceu Júlia e logo se apaixonaram. Dizer que foi paixão à primeira vista seria pouco; foi um grande amor, o qual gerou como fruto uma linda menina. Nascida em 16 de setembro de 1907, dia seguinte ao de Nossa Senhora das Dores, Claudionor deveria se chamar Maria das Dores, pelo desejo da mãe. Embora respeitasse a mulher, Anízio não deu ouvidos quando foi registrar a menina. Por ser espírita, não queria um nome que lembrasse tristeza ou algo parecido. O que tinha em mente fora rejeitado de pronto. Rechevé era um pouco demais e apenas ele sabia o significado. Só quando ele voltou do cartório, Júlia soube da novidade. Nem um, nem outro. O nome escolhido foi Claudionor. Certa vez, ele não pôde comparecer ao aniversário da filha, mas lembrouse de enviar um poema de presente. Mal sabia a menina que a falta dele em breve aumentaria. Canô completava nove anos e não teria o pai por muito tempo. Anízio, que já tinha idade avançada, faleceria pouco tempo depois. Com os filhos ainda pequenos, Júlia voltou-se para o dom que Deus havia lhe dado. Era parteira e com isso sustentava a família. Na verdade, não cobrava um tostão para tirar o bebê da barriga da mãe. As famílias é que reconheciam seu valor e retribuíam de bom grado. Mais tarde, com o casamento de Canô e Zezinho, formaria com Iá Pomba a dupla de aparadeiras mais conhecida da cidade. Juntas, ajudariam a trazer ao mundo boa parte dos meninos e meninas da Santo Amaro daqueles tempos. O apelido Canô foi obra de Osvaldo Fiúza, amigo dos tempos de infância. Sendo a pronúncia de Claudionor longa e complicada para uma criança, Osvaldo só conseguia dizer Nô. Daí para Canô foi um pulo. O apelido pegou e virou muito mais que um nome. Brincadeira de criança é coisa boa e Canô se “vingou” do amigo: Osvaldo virou Dundum.


O “passarinho” era um amigo em comum de Zezinho e Canô. Mário Cardoso foi o cupido necessário para tudo acontecer. Canô, moça namoradeira, gostou do par e o amor brotou fundo. Tão fundo que a partir dali, em todas as festas da cidade, eram vistos sempre juntos e enamorados. E olha que Zezinho nem gostava de dançar. Mas isso não atrapalhou. Entre uma festa e outra, trocaram juras de amor e a relação seguiu em frente. Ainda não pensavam em casamento, mas já sabiam que eram feitos um para o outro. Em menos de um ano, teriam de considerar a possibilidade mais seriamente. Naquele momento, outra preocupação sobressaía. Estavam arrumando as malas de Zezinho mais uma vez. Em fins de 1930, a situação mundial se complicava. Um ano antes, a Bolsa de Nova York tinha implodido, piorando de vez a crise econômica que se abatera desde o fim da 1ª Guerra Mundial. No Brasil, o dinheiro de investimentos estrangeiros escorria pelo filtro de café, desde que o grão deixou de ser vendido ao mercado externo. Não bastasse tanto azedume, Getúlio Vargas dava o golpe em Júlio Prestes, presidente eleito. Tantas mudanças ocorrendo ao mesmo tempo e outro agente telegráfico chegava à cidade. Até então Zezinho tocava o serviço muito bem com Minha Ju no correio de Santo Amaro, mas a chegada do novo agente foi o estopim para uma nova mudança. A convivência se mostrou complicada e a direção da empresa decidiu pela transferência do funcionário mais antigo. Iria chefiar a agência de Nazaré das Farinhas. A notícia o pegou desprevenido. Sem saber o melhor caminho a seguir, mais uma vez ganharia apoio do irmão mais velho. Se conselho fosse bom ninguém dava; vendia. Experiente, Francisco deu a melhor dica que o irmão poderia receber: se tinha de ir embora, que fosse casado com Canô e constituísse sua própria família. Zezinho matutava a ideia fazia tempo. A transferência e a sugestão do irmão apenas apressaram as decisões. Assim seria feito, mesmo que para isso algumas pedras tivessem que rolar. Inicialmente, a família de Zezinho não aprovava o casamento. Canô era conhecida por ser uma mulher à frente de seu tempo. O Brasil, aos poucos, deixava de lado as oligarquias rurais e se urbanizava. Em Santo Amaro, a febre da industrialização também dava o ar da graça. E foi um alvoroço quando João Gualberto da Silva, o Sinhô, marido de Joana, irmã de Canô, comprou uma Fubica. Canô não perdeu tempo e pediu para guiar o carro. Atendida pelo cunhado, não foi longe, é bem verdade; limitou-se a dirigir por alguns metros além de sua casa, mas tornou-se célebre a pioneira motorista da cidade. Mulher vaidosa, Canô gostava de andar na moda, mesmo que para isso fosse necessário escandalizar os padrões da cidade interiorana. As atrizes das matinês que apareciam em cena, de calças compridas, eram seu modelo de consumo. Gostou da novidade e aderiu. Coitado de Sinhô, sempre ele, que perdeu uma peça de seu guarda-roupa. Por essas e outras, o casamento não era visto com simpatia pela família do noivo. As pedras também existiam do outro lado. Júlia não via a união com bons olhos. Seu Cupertino, pai de Zezinho, era negro e ela não queria que a filha casasse com um mulato. O amor, porém, foi mais forte e, aos poucos, as barreiras foram sendo quebradas. A intransigência racial realmente não combinava com as famílias que estavam para se juntar; afinal, vó Júlia tinha sangue índio, proveniente de sua avó. Na mistura, eles se encontraram e as vaidades foram deixadas de lado. Em 7 de janeiro de 1931 casaram-se na Matriz de Nossa Senhora da Purificação. A igreja tinha passado por uma grande reforma poucos anos antes e estalava de nova. A cerimônia foi simples, restrita a familiares e alguns convidados. A noiva não atrasou mais do que o de costume e chegou a pé, depois de percorrer as ruas empoeiradas da cidade. O noivo, apesar de tenso, não gaguejou na hora de dizer o “sim” que selaria o matrimônio. Dali em diante, até que a morte os separasse, seriam 52 anos de convivência. A lua de mel seria em Nazaré das Farinhas, onde Zezinho já era esperado para assumir seu posto nos correios. Por ora, tinham que partir, mas sabiam que iriam voltar. E nem demoraria tanto assim. Com poucos meses em Nazaré das Farinhas, dona Canô percebeu que suas regras atrasaram. Não havia dúvida: estava grávida, e seria mãe pela primeira vez. Seu Zezinho adorou a notícia. Pensava retornar a sua terra e aquele parecia ser um bom sinal. Começou, então, a mexer os pauzinhos. Para seus superiores de Salvador, demonstrou que, além de ter uma família numerosa em Santo Amaro, tinha trabalhado lá muito tempo e conhecia a rotina da agência de olhos fechados. Como se não bastasse, havia ainda a notícia da gravidez. Era o pretexto de que precisava.

(1) “Onde Eu Nasci Passa um Rio” 



 


1973 - Foto: Thereza Eugênia

1979 - Foto: Thereza Eugênia
1982 - Foto: Thereza Eugênia








 
Revista ISTOÉ.
Edição nº 2471 
20 de abril 2017

Cultura
É proibido proibir
Com aval da Justiça, biografia não autorizada de Caetano Veloso perfaz cronologia da vida e dos bastidores da carreira do artista — sem se aprofundar na análise de sua obra



Celso Masson

Caetano em 1979, durante ensaio na casa da fotógrafa Thereza Eugênia: expressão de uma era.



Aos 74 anos, Caetano Veloso ainda é uma das celebridades mais influentes do Brasil. Com uma singular carreira que percorre um arco de seis décadas, o baiano nascido em Santo Amaro da Purificação reinventou o cancioneiro nacional ao compor e interpretar músicas que sobrevivem com a aura de clássicos atemporais. Transcendendo a condição de artista, o filho mais abusado de Dona Canô se ateve desde cedo à condição de personalidade provocadora, um transgressor nato que iria interferir de forma profunda na vida cultural do País.
Figura-chave do movimento tropicalista que sacudiu a MPB no final dos anos 1960, Caetano apresentou programas de TV (em duas oportunidades, primeiro ao lado de Gilberto Gil, depois com Chico Buarque), dirigiu um longa-metragem (“O Cinema Falado” em 1986), escreveu seu livro de memórias (“Verdade Tropical”, 1997) e publicou ensaios (“O Mundo não É Chato, 2005). Biografar alguém dessa envergadura, que continua vivo, produzindo e causando, é por si só uma tarefa hercúlea. Para completar, o irmão leonino de Maria Bethânia é sabidamente uma das figuras mais narcisistas do meio artístico brasileiro, capaz de reagir de forma irascível quando confrontado com críticas a seu trabalho, suas opiniões e até as roupas que veste.


Autorização

Pois nada disso impediu os autores Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco a dedicar quase vinte anos a um exaustivo trabalho de pesquisa cujo resultado chega às livrarias na primeira semana de maio. Em 544 páginas, “Caetano — Uma Biografia” (Seoman) retrata de forma cronológica a trajetória do compositor de “Alegria, Alegria” desde antes de seu nascimento até 2016. “Foi um quebra-cabeça insano”, diz Drummond. A pesquisa começou em 1997 e foi interrompida em 2003, quando uma primeira versão do texto estava pronta. Quando pensavam que a obra ficaria para sempre engavetada, uma decisão do Superior Tribunal Federal liberando a publicação de biografias não autorizadas trouxe um novo ânimo. A pesquisa foi retomada, os autores fizeram novas entrevistas e atualizaram o texto final.
O termo “biografia não oficial” significa que o biografado não a encomendou e nem interferiu sobre o que está escrito. Isso não quer dizer que ele a desautorize. Os autores entrevistaram Caetano mais de uma vez e garantem que ele sempre teve uma atitude positiva quanto ao livro, entendendo se tratar de uma obra independente e sobre a qual ele não poderia ter qualquer controle. Apenas as imagens, tanto da capa quanto internas, precisaram de autorização.

Por retratar alguém que teve a maior parte da vida seguida muito de perto pela mídia, o livro não prima pelas revelações surpreendentes. O que ele faz é detalhar episódios conhecidos, como os tempos que Caetano passou na cadeia ou em Londres. Situações polêmicas, como as poucas experiências com drogas (lança-perfume na adolescência, maconha e ayahuasca no final dos anos 1960) que resultariam em total aversão e no apelido “Caretano”, surgem com certa superficialidade. “No nosso entendimento, um assunto só deveria ser aprofundado se fosse fundamental para compor o perfil do biografado”, diz Drummond. Tal opção resulta em uma neutralidade excessiva.

“As portas da percepção estavam abertas e começava a sua viagem. (…) Ao fechar os olhos, pontos de luz colorida surgiam aos borbotões e dançavam sem parar” 
[Trecho do livro que relata uma experiência de Caetano com a ayahuasca]

Embora o livro seja rico em informações que permitem compreender melhor o ambiente e as pessoas envolvidas na formação do artista, falta uma visão mais analítica das atitudes de Caetano e do impacto de sua obra. Um evento decisivo como a histórica performance de “É proibido proibir” no Festival Internacional da Canção de 1968, quando ele passou um sermão na plateia, não mereceu no livro espaço maior que o de bastidores das gravações de um disco sem grande repercussão.
A narrativa cronológica, que simplifica o entendimento de uma vida complexa como a de Caetano, tem como efeito colateral uma certa monotonia — algo bem diverso da natureza intempestiva do biografado.

“Caetano é cada vez mais complexo”
Carlos Eduardo Drummond fala sobre os desafios de escreveu a biografia não autorizada de Caetano Veloso
Poeta, compositor de sambas enredo e funcionário público federal a serviço da gerência de livros da Funarte, no Rio de Janeiro, Carlos Eduardo Drummond não se considera um biógrafo., Ainda assim, passou 20 anos envolvido com a pesquisa e a escrita de “Caetano – Uma Biografia”, livro que lança na primeira semana de maio em parceria com Marcio Nolasco.

ISTOÉ – Por que dedicar 20 anos a pesquisar a vida e a obra de Caetano?
Drummond – Foram 20 anos não ininterruptos. Houve um período intenso, de 1997 a 2003. Depois de 2015, com o pronunciamento do STF (permitindo a publicação de biografias não autorizadas) fizemos uma revisão minuciosa. Quando começamos, eu tinha 20 e poucos anos. Sentíamos uma carência de biografias longas de nomes importantes da MPB. Pensamos no nome do Caetano e nos lançamos ao trabalho. Não imaginávamos o longo percurso que teríamos pela frente.

O que houve em 2003 para pensarem a desistir?
Com um personagem como ele, ou se faz algo profundo ou é melhor desistir. Nós perseveramos mesmo depois de imaginar que o projeto precisaria ser engavetado em função do fato de ser uma biografia não autorizada e do entendimento que a Justiça tinha na época. Cheguei a ficar deprimido com essa possibilidade. Mas nunca me conformei com a ideia de desperdiçar tanto tempo – o nosso e de entrevistados, como Chico Buarque, Bethânia e outros que não estão mais vivos. A importância de o livro vir a público para nós era tão grande que seria uma injustiça deixar isso tudo para trás.

Vocês entrevistaram o Caetano?
Nós conseguimos entrevistar o Caetano. Sabíamos que ele deveria ficar para o final, para as perguntas que só ele poderia responder. Antes disso, outras pessoas que havíamos entrevistado ajudaram a formar uma imagem positiva do nosso trabalho. Ele nos disse claramente que o livro era nosso e deu liberdade. Não houve desautorização da parte dele.

Em algumas passagens há a impressão de que vocês tentaram evitar assuntos polêmicos…
O debate que surgiu em 2013 foi entre o direito à privacidade e o direito à liberdade de expressão. No nosso entendimento, se o assunto fosse importante para o suficiente para compor o perfil do biografado, deveria entrar no livro. A gente não entra em detalhe muito analítico.

O que o livro traz de novo?
Tivemos acesso a muito material inédito. O livro coloca numa tacada só desde a origem dele, antes mesmo de nascer, até 2016. Caetano é cada vez mais complexo. Ele se enriquece continuamente.



OS AUTORES: Nolasco (à esq.) e Carlos Eduardo Drummond: falta de uma biografia de Caetano estimulou a dupla a trabalhar no livro por 20 anos






Serviço:
 



“Caetano – Uma Biografia: a vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos”, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco. Selo Seoman (Grupo Editorial Pensamento), 544 páginas, R$ 59,90
 

Lançamentos com noite de autógrafos:
- 03/05, às 19 horas, na Livraria da Travessa/ Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon, Rio de Janeiro/RJ.
- 06/05, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – São Paulo, horário a confirmar.
- 10/05 Livraria Saraiva Salvador Shopping – Salvador, às 19 horas.







O GLOBO
Livros
Cultura




Biografia não autorizada de Caetano reúne arrazoado de histórias

CAETANO RECONTADO

Sem preocupação analítica, autores Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco vão da infância à maturidade do compositor

por Leonardo Lichote
21/4/2017



O compositor em ensaio na casa da fotógrafa, Thereza Eugênia, 1979. Foto está em "Caetano - Uma biografia" - Thereza Eugênia / Divulgação




RIO — O prólogo de “Caetano — Uma biografia — A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos” (Seoman), de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, traz a cena de Caetano Veloso cantando “Burn it blue” na cerimônia de entrega do Oscar, em 2003. Nas páginas seguintes, desfolha-se a árvore genealógica santamarense do artista, a vida de seus avós e pais, até seu nascimento, a descoberta das letras (decorando versos de Castro Alves e Arthur de Salles), da música (as melodias cantadas pela mãe Canô, o rádio em casa, as sociedades filarmônicas da cidade), do amor (aos 8 anos, a primeira namorada, a menina Dó). O livro — cujo lançamento será no dia 3 de maio na Travessa do Leblon — desenrola-se entre as duas pontas, traçando o caminho que levou o compositor de Santo Amaro a Hollywood, desde sua formação, passando por suas escolhas estéticas (a aproximação com o samba-reggae em “Livro”, o experimentalismo de “Araçá azul”), pelas polêmicas em que se envolveu (com a crítica, com o público, com Fagner, com Décio Pignatari), por questões de sua vida pessoal (as paixões, o casamento aberto com Dedé, o início do romance com a adolescente Paula Lavigne, a perda de uma filha recém-nascida).

MAIS DE CEM ENTREVISTAS
O abrangente apanhado, mais descritivo do que analítico, não traz teses ambiciosas sobre Caetano. Seu mérito é reunir histórias conhecidas do artista — contadas por ele mesmo em seu livro “Verdade tropical”, de 1997, ou em depoimentos ao longo das últimas décadas — e detalhes inéditos, colhidos em mais de cem entrevistas feitas pelos autores desde 1997, quando decidiram escrever o livro. Entre os entrevistados, estão familiares como Dona Canô e Maria Bethânia, artistas como Gal Costa e Chico Buarque, amigos de infância e músicos, além do personagem central.
Drummond, que até então tinha publicado apenas um livro de poesias, explica por que ele e Marcio Nolasco escolheram o baiano para biografar. — O primeiro personagem em que pensamos foi Roberto Carlos, mas logo percebemos as dificuldades de trabalhar com ele, algo que pudemos confirmar anos depois acompanhando os problemas que Paulo Cesar de Araújo teve (sua biografia do Rei foi proibida e recolhida das livrarias). Então decidimos por Caetano, sabendo desde o início que não podíamos ficar no meio- termo: ou faríamos direito, ou nem começaríamos. Fizemos um levantamento monstruoso de periódicos e livros, fomos diversas vezes a Santo Amaro e a Salvador, visitamos todas as escolas em que ele estudou, localizamos personagens que ninguém procurou desde os anos 1960, como Johnny Dandurand, o hippie que invadiu o palco enquanto Caetano cantava “É proibido proibir”.  




1968 - Johnny Dandurand, o hippie americano que invadira o palco do Festival Internacional da Canção enquanto Caetano e os Mutantes cantavam "É Proibido Proibir"


Desenho em aquarela feito por Caetano Veloso. Início dos anos 1960
Imagem cedida por Fernando Barros / Divulgação


O escritório de Caetano, comandado por sua mulher e empresária, Paula Lavigne, preferiu não se envolver com o projeto — que sai com status de “biografia não autorizada”. O autor conta que, por isso, a Objetiva, editora que originalmente publicaria o livro, em 2004, se retirou, temendo problemas. “Caetano — Uma biografia” ficou engavetado até 2015, quando foi retomado, desta vez pela editora Seoman. A versão que enfim sai agora foi totalmente revisada e ganhou um posfácio, que cobre em poucas páginas a última década, o que inclui a trilogia com a Banda Cê e a participação de Caetano na formação da Associação Procure Saber, que, entre suas causas, defendia a obrigatoriedade de autorização prévia para a publicação de biografias — causa perdida, aliás.
— A decisão do STF, em 2015, que derrubou a necessidade de autorização prévia para biografias, permitiu que o livro fosse publicado agora — conta Drummond. — Mas é importante ressaltar que “não autorizada” não é sinônimo de “desautorizada”. Caetano e Paula Lavigne autorizaram o uso de fotos, como a da capa (o livro transcreve um parecer de Caetano, dizendo que o que viu do material levantado pelos autores animou-o a “encorajar a continuação da pesquisa”).
Drummond vê o livro que escreveu com Nolasco (que tem como última frase a evocação: “Vida longa e próspera a Caetano Veloso!”) como complementar a “Verdade tropical”:
— “Verdade tropical” é o olhar dele, suas impressões, naquele tom ensaístico e memorialista próprio dele. Nós pusemos essa perspectiva em diálogo com outras.






Trecho


“Vai atirar em Caetano, pensou”


 “No meio do tumulto, aproveitou o momento em que recitaria o poema de Fernando Pessoa e iniciou um esporro monumental: ‘Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?!...’ Assustada, a plateia se virou para ver e deu início à selvageria. Tomate, latas, ovos, pedaços de pau, eram atirados ao palco, enquanto Caetano, aos gritos, continuava o sermão. ‘... Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém...’ Na plateia, Dedé assistia a tudo horrorizada, ao lado do bailarino Lennie Dale. No calor da confusão, viu um homem armado seguir em direção ao palco. “Vai atirar em Caetano”, pensou. Não fossem seus gritos, talvez a segurança não tivesse despertado para o que ocorria. O indivíduo foi arrastado para fora por seguranças e ainda levou uns catiripapos no pé da orelha.”


- - -

“Nos ensaios, Caetano conversava com Nara Leão, quando Fagner se aproximou. Sempre muito simpática, Nara trocou algumas palavras com o cearense. Já Caetano fingiu que nem era com ele. Ficou de costas para o jovem talento que começava a despontar. Fagner ficou sem entender. No fundo, tinha fascínio pelo baiano, queria ser como ele. Até chegar ali os dois já haviam se trombado algumas vezes pelo caminho. O ranço de um episódio anterior dera sua parcela de contribuição. Durante um encontro, pediram uma canja a Caetano, mas o cansaço não permitiu a reverência. Fagner, por sua vez, chegava motivado, cheio de gás. Nem tinha gravado disco ainda, mas trazia no bolso um repertório inteiro de boas canções. Não se fez de rogado e assumiu o posto. Saiu de lá aclamado pelos presentes. Rivalidade, vaidade, oportunismo, falta de química, muitos sentimentos se misturaram na ocasião. (...). Com o sucesso de seu primeiro LP, ‘Manera fru fru manera’, Fagner se tornou o xodó da gravadora e o paparico das grandes estrelas. Por outro lado, ‘Araçá azul’, de Caetano, continuava recordista em devoluções. O clima de ciumeira aumentou e o bolo desandou de vez.”



 



O Estado de S.Paulo
21 Abril 2017 | 05h00


Cultura


Biografia de Caetano Veloso testa a nova ordem do mercado editorial

Sai o primeiro livro não autorizado a sair depois da nova Lei das Biografias, 'A Vida de Caetano Veloso, O Mais Doce Bárbaro dos Trópicos'; aos ler os primeiros originais, Caetano os considerou "de baixo nível literário"

Julio Maria

Anunciado o ato literário que pode ser considerado como o primeiro teste à legitimidade de uma nova ordem no mercado editorial: a biografia não autorizada de Caetano Veloso. O homem que há quatro anos esteve no centro de um grupo de artistas que defendia a preservação da intimidade em detrimento da liberdade irrestrita dos biógrafos tem a vida exposta em 532 páginas escritas pelos autores Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco. A Vida de Caetano Veloso – O Mais Doce Bárbaro dos Trópicos levou ao todo 20 anos para ser publicado. Seus bastidores poderiam render um outro livro (leia mais abaixo). 


 
Caetano durante turnê de Abraçaço. Foto: Daniel Proztner



O título reverencial revela com sutileza o espírito da biografia. Não há pontos passíveis de embates que possam desagradar a Caetano. Algumas histórias aparecem mais aprofundadas, como a sequência que se passa nos tremores do regime militar, com as prisões sucessivas no Brasil sob pesado terror psicológico que deságuam no exílio forçado em Londres. Um personagem encontrado pelos pesquisadores ajudou com detalhes desse período, o coronel Respício Antonio do Espírito Santo. “O que Caetano conta em seu livro Verdade Tropical é de acordo com o que ele presenciou. O coronel tem a visão do que acontecia fora da cadeia”, conta Drummond.

Até chegar ao dia 19 de fevereiro de 1969, quando seria libertado depois de 54 dias de prisão, Caetano amargaria a incerteza do destino e a iminência da morte. Sairia em pele e osso e com a cabeleira vasta devidamente cortada, fechando o ciclo de um suplício para começar outro. Entende-se por que Caetano, em entrevistas como a que acaba de conceder para o documentário de Lúcia Veríssimo sobre Severino Filho, líder do grupo Os Cariocas, se descontrola quando fala de sua partida para o exílio. Ele faz questão de ajustar a história, não suportando ouvir que partiu para Londres por vontade própria.

Ao contrário de Gil, Caetano não tem uma adaptação fácil em Londres. As drogas que Gil sugere para viagens sensoriais são recusadas pelo amigo, o que vai caracterizar o traço “caretano” de Caetano. “A primeira experiência com as drogas foi com o lança-perfume, que acaba sendo muito traumática a ele”, diz o biógrafo. “Ele teve medo de morrer.” Com a ayahuasca, também passa mal. “Diferentemente de Gil, seu organismo não aceita essas substâncias.”

Outra sugestão de leitura importante da construção de sua personalidade está na formação cultural do jovem reflexivo. Antes mesmo da música, que não parecia deslumbrá-lo de início, suas atenções estavam voltadas à literatura, às artes visuais e às muitas sessões de cinema de Santo Amaro, com filmes franceses e italianos, e, eventualmente, de Salvador. “Acho Caetano um grande artista plástico”, diz Drummond. Ele coloca no livro um autorretrato do artista e lamenta não ter incluído uma série de pinturas da cantora Maysa.

O caldo que sorve dessas fontes com a sede dos 16 anos mistura-se ao conhecimento do ensino formal de colégio, que Caetano também aproveita bem, e acaba por dar forma a uma sensibilidade holística na qual tudo parece se misturar. Quase se entende que a música nem é o principal para ele, mas apenas o veículo de expressão ao qual se adaptou melhor. “Pintor ou professor? Cineasta ou escritor? Quem sabe filósofo? Estava de volta à estrada sem saber se queria estar nela ou não”, dizem os autores quando se aproximam de 1965.

Caetano surge assim, “de fora para dentro”, enquanto o amigo Gil, mais especializado e mais músico, emerge de dentro para o universo. Quando chega a Tropicália, fica tudo mais nítido. Gil arquiteta o que Caetano já tem na alma. A derrubada de muros entre gêneros, juntando pífanos de Caruaru com guitarras de rock-n’-roll, ganharia forma nos festivais da TV Record e seria levada às últimas consequências em shows como o da Boate Sucata, no Rio. “Acompanhado pelos Mutantes, cantou deitado no chão, plantou bananeira, deu salto, cambalhota, pintou e bordou”, conta o livro.
A história avança e a temperatura cai. Anos 90: Caetano, sempre tropicalista, assume um protagonismo na axé music. Anos 2000: seu peso na história o credencia cada vez mais a viver dela. A produção de fatos biográficos fica mais rara e os biógrafos precisam lutar para que seus textos não ganhem tons de release – o que, fatalmente, acaba acontecendo. Um ponto de ebulição é retomado em 2013, quando Caetano alinha-se ao grupo Procure Saber no debate contra as biografias não autorizadas, mas já não existe emoção. A publicação parece tomar cuidados para não desagradar ao biografado e o preço é a burocratização da narrativa. Ao final do livro, uma frase de louvação faz o que nenhuma biografia deveria fazer em prol de sua credibilidade: “Vida longa e próspera a Caetano Veloso!”.


Cantor autorizou fotos mesmo achando de ‘baixo nível literário’

Segundo Paula Lavigne, Caetano não quis participar do projeto por ter ‘sofrido lendo o material que mandaram a ele’

Os bastidores do livro que narra a vida de Caetano Veloso foram longos. Carlos Eduardo Drummond, autor ao lado de Marcio Nolasco, calcula 20 anos entre o início do projeto e agora. “Foram seis anos de pesquisa e um de redação da primeira versão. Mas ele ficou engavetado entre 2004 e 2015, até que retomamos o projeto.”

Drummond diz que já tinha quase 100 entrevistas feitas quando procurou Paula Lavigne para apresentar o projeto. “Mas acho que ela tomou um susto, deve ter se perguntado ‘o que esses caras estão fazendo?’” A editora original, Objetiva, exigia uma autorização do cantor por escrito, mas Caetano não atendeu. Drummond e Nolasco propuseram um contrato coletivo, para o livro ser assinado por todos, mas o músico também não aceitou. O livro foi então engavetado e a Objetiva desistiu de lançá-lo.

Procurada pela reportagem, Paula Lavigne diz que Caetano não aceitou participar do projeto porque achou o texto fraco. “É de baixo nível literário”, disse ele. Paula afirma que o cantor não quer se pronunciar agora sobre o lançamento por estar em uma situação difícil. “Se falar mal, vão dizer que está proibindo o livro. Se falar bem, vai mentir. Ele prefere o silêncio. Caetano é muito apegado à língua portuguesa, sofreu muito lendo o material que mandaram.” Ela diz ainda que não há nenhum fato narrado que incomode o músico.

Drummond diz que o material que Caetano leu era uma versão muito inicial do projeto. “Nós reescrevemos, o livro mudou muito.” À parte das polêmicas, Paula e Caetano Veloso assinaram as autorizações de imagem para que a editora pudesse usar as fotos.

“E não fizeram nenhuma contrapartida para isso”, diz o autor. “Se quiséssemos criar algum problema, não autorizaríamos as fotos”, diz Paula.






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