martes, 18 de octubre de 2016

1996 - CAETANO, o polêmico



  Foto: Pedro Agilson
1996
Revista ISTOÉ
Edição nº 1.389 – 15 de maio



Caetano,
o polêmico

O cantor prepara seu primeiro livro
e fala com exclusividade a ISTOÉ







Outras 
     palavras

Caetano Veloso escreve
livro sobre os anos 60 e
não abandona a polêmica
APOENAN RODRIGUES


Poucas pessoas sabem do pavor que Caetano Veloso sente de baratas. Os militares da ditadura da qual ele e centenas de outros presos políticos foram vítimas também não sabiam. Mas era como se soubessem. Na semana em que passou encarcerado incomunicável na solitária minúscula e fria do quartel da rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, o baiano teve uma visão aterradora. Aninhado sobre um cobertor do Exército que, dobrado sobre o chão, fazia as vezes de cama, Caetano avistou o inseto passeando pela parede iluminada apenas pela luz que entrava do corredor. "Fiquei apavorado", conta ele. "Imediatamente chamei o guarda e falei: 'Olha, aqui dentro tem uma barata.' Ele foi maravilhoso, viu que eu estava com medo, aproveitou que o oficial estava dormindo, pegou a chave da cela e matou a barata. Eu sou eternamente grato a ele." Caetano Veloso, hoje com 53 anos, nunca tinha tornado esta história pública. Queria reservá-la para o livro que há mais de um ano vem desordenadamente escrevendo num laptop Macintosh. Ainda sem título, a estréia literária do polêmico artista rondará a riquíssima década de 60. "Será parte autobiográfico, parte crônica, parte um ensaio sobre as manifestações culturais do País."

O livro do cantor, compositor, cineasta, ex-crítico de cinema, ator e artista plástico esporádico, modelo recente, e agora escritor foi uma encomenda da editora americana Alfred Knopf, que entrou em parceria com uma outra editora brasileira. O editor George Andreous ficou encantado com um artigo que Caetano escreveu para o jornal The New York Times, em 1991, falando da revitalização estética que Carmen Miranda provocou nas cabeças dos líderes do movimento tropicalista e da importância artística da performer que conquistou a América do Norte com seu estilo peculiar. Depois de ler o enorme ensaio, bem no estilo caudaloso do autor de Alegria alegria, Andreous propôs que o baiano produzisse algo sobre o período da contracultura no Brasil. "Ele viu no artigo o esboço de uma mesma história que aconteceu nos Estados Unidos, França e Inglaterra, mas que no Brasil ainda não tinha sido contada." O resultado deste passeio da memória do mais inquieto compositor nacional em breve estará nas livrarias americanas e brasileiras.

Caetano não sabe calcular exatamente quanto já escreveu. Habitualmente intenso nas suas descrições, acredita que deva ter o equivalente a cerca de 500 páginas. O curioso é que por ser um livro de não-ficção, tudo até agora registrado só veio das suas lembranças. Nada ou quase nada foi pesquisado. Quando começou a rabiscar os primeiros trechos que falam do impacto da chegada da bossa nova à sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, ele pensava mergulhar em vasto material escrito e nas entrevistas que normalmente se faz neste tipo de projeto. "Não consegui rever os filmes nem reler os livros", reclama. "Agora é tarde." Ele só vai conferir as datas. Para não esquecer, ao lado de cada uma delas colocou um ponto de interrogação. "Eu sou uma pessoa sem método, escrevi muita coisa, mas não sei que tipo de unidade posso dar a elas. Não sei o que vou cortar, embora saiba que muito daquilo não vou usar", diz Caetano, que afirma não ter contratos assinados com nenhuma das duas editoras.

O processo um pouco caótico do livro que já nasceu com a aura de cultuado não envolve apenas a parte burocrática. Até o verão deste ano, que passou na sua casa em Salvador, Caetano não havia arquivado em disquete uma linha. Foi preciso que amigos interferissem. "O meu computador é daqueles que entram num outro grande, ele não aceita disquete", diz ele, demonstrando não ter grandes afinidades com a informática. "Algumas coisas eu perdi e outras apaguei sem querer." Diferente de Chico Buarque - que numa maneira muito própria e sofisticada guardou um bom período da sua produção literária para se trancar no seu apartamento em Paris e terminar os livros Estorvo, de 1991, e o mais recente Benjamim, de 1995 -, Caetano Veloso não reservou momentos especiais para se dedicar à nova atividade. "Eu nunca quis escrever um livro porque não sabia que tipo de livro podia ser, apesar de gostar de escrever. Agora tenho que me deparar com uma situação para a qual não estava preparado", confessa.

As principais queixas do cantor são a falta de tempo e o desleixo. Depois de gravar, em 1994, o maravilhoso disco Fina estampa, no ano seguinte saiu em turnê nacional com o show homônimo atualmente em temporada no Canecão carioca. No espetáculo ele desfia um irretocável repertório de canções em espanhol e português que desembocou no álbum Fina estampa ao vivo, um sucesso de 180 mil cópias vendidas que se soma a mais 280 mil do gravado em estúdio. Até a semana passada, dava os retoques finais na trilha sonora que compôs para Tieta, filme de Cacá Diegues previsto para estrear em agosto, com Sônia Braga, Marília Pêra e Chico Anysio no elenco. "Fiz dez temas e deles as variações para a música incidental." A trilha deve sair em CD. Será seu 25o. disco solo, sem contar coletâneas e parcerias com outros cantores.

A empolgação de Caetano pelo cinema não é recente. Antes de tentar a carreira artística no Rio de Janeiro e São Paulo, foi um contumaz crítico de filmes no tablóide O archote, de Santo Amaro da Purificação, no período de 1960 a 1962. Por trás das câmeras dirigiu o experimental Cinema falado (1986), alvo de comentários vorazes. E à frente delas atuou em Tabu (1982) e em O mandarim (1995), ambos assinados por Julio Bressane. Sem contar a participação em O demiurgo, um média-metragem cabeça de Jorge Mautner feito enquanto Caetano e Gilberto Gil amargavam exílio político em Londres, de 1969 a 1972.

Por ser multifacetado nas suas atividades, o baiano vive atormentado e atormentando quem cruza sua determinação leonina. Usina de polêmicas, tudo o que Caetano fala reverbera com a mesma intensidade de suas músicas. Um de seus maiores desafetos é o poeta carioca Bruno Tolentino, 55 anos, que criticou o fato de compositores da música brasileira serem estudados em escolas do mesmo jeito que Manuel Bandeira e Machado de Assis. "Depois que o chamei de débil mental ele resolveu escrever um livro. O Brasil é o único lugar onde compositores se passam por poetas e nenhum deles desencoraja seus próprios papéis", ataca Tolentino. "Caetano se julga uma espécie de sábio, o Göethe de Santo Amaro da Badalação. O Chico Buarque pelo menos tem formação cultural, mas é um mau escritor, já está velho para constituir uma obra literária."

O crítico literário Wilson Martins também falou mal de Chico, apontando fragilidades no seu romance Benjamim num artigo publicado no jornal O Globo, na época do lançamento do livro. Foi o suficiente para Caetano sair em defesa do amigo e vociferar em recente entrevista a Pedro Bial, no Fantástico da Rede Globo, que Martins não era "digno de lamber o chinelo de Antonio Candido" - o mais respeitado crítico literário do País. "Ele foi um pouco agressivo, ficou no plano emocional e não faço críticas no plano pessoal", rebate Martins. "Como o primeiro livro do Chico saiu bem escrito, e nenhuma publicação teve coragem de abrir espaço para os ressentidos o xingarem, no segundo esse problema já tinha passado. Aí disseram: 'Chama o canalha e ele escreve sobre o Chico', foi assim", defende Caetano. "Parece um crime a gente trabalhar em outra área. Quem é responsável pela alta cultura? Esses jornalistas mal educados, que só dão patadas para dizer que estão defendendo o refinamento? Não, não abaixo a cabeça para essa gentalha." Oposto do temperamento explosivo do baiano, Chico Buarque contemporiza. "Caetano é um pensador apaixonado, sempre foi muito enfático. Paralelo ao seu talento como artista ele se destaca pela lucidez e perspicácia."

Quando se trata de defender seu ponto de vista, Caetano Veloso nunca é econômico nos adjetivos fortes. Normalmente suave num contato mais próximo, ao se sentir cutucado seu tom de voz se transforma. As veias crescem no pescoço, as sobrancelhas arqueiam. O leão não só de signo ruge. Fica mais alto que seu 1,70m. Mais encorpado que seus atuais 57 quilos. Nestas ocasiões não sobra aconchego nem para o presidente Fernando Henrique Cardoso, em quem votou. "Não é admissível o que aconteceu no Pará. Fernando Henrique Cardoso deveria ter imposto uma atitude que desencorajasse isto. Fernando Henrique Cardoso é culpado pela chacina no Pará", dispara, lembrando que numa entrevista a ISTOÉ, em outubro de 1994, afirmou que o maior desafio do presidente seria a reforma agrária. "Mas acho um bom sintoma termos elegido Fernando Henrique Cardoso, porque é um homem com um histórico bonito e que foi eleito por causa do Plano Real. De todas as lideranças da América Latina atualmente é ele quem consegue vencer a inflação de maneira mais duradoura."

Em relação ao senador Antônio Carlos Magalhães, com o qual mais constantemente alterna farpas e elogios, Caetano é bem menos condescendente. "O que ele faz com a prefeita de Salvador é injusto e desigual, brutal e desumano. Antônio Carlos destrói quem quer destruir porque ali é o pedaço dele, só que ele não é meu dono nem da Bahia. Precisamos nos livrar de pessoas como Antônio Carlos", determina Caetano, que tem envolvimento direto com o Projeto Axé, que cuida dos meninos de rua de Salvador - os R$ 150 mil vindos da Caixa Econômica Federal como apoio ao seu espetáculo foram repassados à campanha. A contundência de Caetano Veloso é compreendida por seus mais próximos. Gilberto Gil reconhece que antes de tudo Caetano "é a pessoa mais inteligente" que ele conhece. "É um arauto de determinadas idéias e propostas intelectuais e comportamentais e tem uma enorme capacidade afetiva", diz o parceiro e amigo de décadas.

Gal Costa tem com ele uma sincronia quase telepática. Ela atribui a Caetano sua opção pela carreira artística. "Quando ele compõe para mim, é como se um estivesse conversando com o outro." A admiração, mesmo entre amigos, muitas vezes se mistura com respeito. É preciso saber administrar a oscilação do humor caetanal. "Ele já me chamou para ler o livro dele e eu ainda não fui. Deve estar queixoso comigo. Na verdade tenho muitas dificuldades em incomodá-lo, respeito suas rotinas, seus hábitos, suas horas de lazer", completa Gil.

Os hábitos de Caetano são um caso à parte para quem quiser conviver em paz com ele. Exceto quando está de férias na Bahia, dificilmente acorda antes das cinco da tarde. Seu relógio biológico é muito singular. Um exemplo destas diferenças se deu durante a bem-sucedida temporada que cumpriu na Argentina e no Uruguai. A partida de Montevidéu para Buenos Aires aconteceu ao meio-dia, portanto ele teve de acordar às dez da manhã. "Só que por eu ter sido acordado às dez fiquei muitos dias acordando às dez, embora continuasse dormindo tarde. Eu não posso ser acordado no meio do sono que descompensa tudo." Para recomeçar o arranjo biológico, ele levanta, vê televisão, lê jornais ou brinca com Zeca, seu filho de quatro anos com a segunda mulher, a atriz Paula Lavigne. O primeiro que teve com Dedé Gadelha é o estudante de física Moreno, 23 anos, que nas horas vagas também é músico.

Moreno de vez em quando participa como convidado do grupo Mulheres Q Dizem Sim. Na sua própria banda, a Gold Night Varsóvia - descrita pelo pai como um conjunto de estilo anárquico, que canta em inglês e italiano macarrônicos -, toca violoncelo, pandeiro e trumpete. "Às vezes eles são muito barulhentos, mas o som é interessante." Moreno é daqueles filhos que não dá para negar quem é o pai. Quando pequeno, se fantasiava com brincos, é extremamente observador e cultiva a sensação de poder circular num mundo vários degraus acima do normal. "Fui um pai mais tradicional com ele do que estou sendo com o Zeca", confessa Caetano. À sua maneira jovem, Moreno também curte um figurino diferenciado. É uma característica de família. "Meu pai Zeca era chiquéééérrimo", debulha-se o compositor. "Eu sempre fui naturalmente elegante, visto a primeira roupa que eu pego. Não sou como a Paulinha (Lavigne), que demora horas para escolher um vestido, troca, experimenta. O meu lado mais cuidado devo a ela."

Para provar seu gosto pelo glamour da moda e muitas vezes antecedê-la (leia quadro acima), no início deste ano Caetano Veloso posou para o catálogo da coleção primavera-verão do estilista italiano Romeo Gigli. Garante não ter recebido um tostão pelo trabalho. Em troca ganhou sacolas com coletes, gravatas e ternos. Com o último deles - um modelo de xantungue de seda rosa choque - foi à entrega do Prêmio Sharp na terça-feira 7. Também é de Gigli os óculos estilo Gepeto, o personagem de Pinóquio, com lentes de grau dois que usa para ler e escrever. Parte do sofisticado guarda-roupa Caetano certamente deve levar para a turnê européia que fará de 10 de outubro a 20 de novembro por nove países. Antes, no dia 23 de junho, apresenta-se num festival de verão em Nova York ao lado do músico japonês Ryuichi Sakamoto. Nenhum destes lugares, contudo, fascina tanto Caetano Veloso quanto seu próprio país - uma identificação às vezes segredada com dor, mas na maioria alardeada com paixão atávica nos versos de suas canções.


Colaboraram: Celso Fonseca e Ivan Claudio (SP) e Daniel Stycer (RJ)

Múltiplos estilos do ídolo

Caetano Veloso sempre esteve antenado com a modernidade. Navegante errante, quebrou padrões estabelecidos de comportamento e apontou para novas direções. Como um dos inventores e privilegiado intérprete de uma revolução musical, Caetano alternou momentos de visual espalhafatoso e discreto, mas com estilo próprio. Em 1965, magricela, calçando sandálias de couro e com os cabelos encaracolados, o jovem músico surgia em São Paulo como coadjuvante da irmã Maria Bethânia. Em 1967, com uma blusa de gola olímpica laranja e o famoso paletó xadrezinho, já reluzia para todo o País os acordes e versos do hino Alegria, alegria - "sem lenço, sem documento, nada no bolso e nas mãos".

A gola olímpica ainda fez parte do seu traje de casamento hippie com Dedé Gadelha, na Bahia. Em 1968, em plena revolução estudantil, Caetano inaugura sua fase futurista-psicodélica. Metido em roupas de plástico, com os cabelos eriçados como a juba de um leão, introduz em cena o happening musical e quebra todas as estruturas com o manifesto É proibido proibir, numa histórica performance vaiada pelos estudantes de esquerda. Na extinta TV Tupi, com o programa Divino maravilhoso apura o conceito do tropicalismo e rompe com o chamado bom gosto em aparições anárquicas. Durante o exílio em Londres, surge introvertido, a barba rala crescida, olhar triste e saudoso sob uma vasta cabeleira, enrolado num casaco de pele de carneiro.

De volta ao Brasil, sob o sol dos trópicos, mais uma vez inovou. Troca a bolsa hippie por balangandãs e tamancos coloridos e aparece no seu primeiro show em São Paulo como uma Carmen Miranda rediviva, usando bustiê e batom na boca. Com Araçá azul, de 1972, "um disco para entendidos", Caetano inaugura a fase solar. Seu descontraído visual verão passa pelos discos Qualquer coisa e Bicho - com a emblemática canção Odara - e culmina em Cinema transcendental e Outras palavras. Ao completar 40 anos, em 1982, adota um elegante chapéu na capa do disco Cores nomes. Dois anos depois, em Velô, surge mais amadurecido. Corta o cabelo e passa a usar ternos bem talhados. A irreverência volta à tona na entrega do Prêmio Sharp de 1993, quando aparece envolto numa saia e paletó de smoking. A saia, na verdade um belo tecido oriental enrolado como pareô sobre as calças, deu muito pano para manga. Na versão 1996 do Prêmio Sharp voltou a ser ofuscante. São variações de um estilo de quem tem fina estampa. 

Roberto Comodo

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