viernes, 27 de mayo de 2016

2014 - Entrevista RADIO SLOVENIJA




11/5/2014 - Cankarjev Dom, Ljubljana, Slovenia

ABRAÇAÇO


Fotos: Nada Žgank











4/5/2014, Matej Praprotnik entrevista Caetano em Milão








MP (Matej Praprotnik): Senhor Caetano Veloso, eu me sinto agora um pouco tímido e nervoso, como você em 1983 na entrevista com o Mick Jagger. Se lembra?
CV (Caetano Veloso): Me lembro que fui ao Nova Iorque, a ajudar um jornalista brasileiro de televisão ao entrevistar o Mick Jagger, porque ele, o jornalista não falava inglês e ele ia fazer as perguntas em francês e me pediu pra ajudar. Falou de inglês um pouco pra ajudar nas perguntas e também porque eu entendia um pouco de rock, coisa de que o jornalista não entendia nada. E eu fui. Não me senti muito tímido, não, mas fiquei ali meio, só de coadjuvante, assim,  meio de lado, mas o Mick Jagger foi muito gentil e muito simpático, depois jantamos juntos e…

MP: Assim disse num video que vi o Youtube. Então vou, para começar nossa entrevista, vou tentar parafrasear aquela, a vossa primeira pergunta ao Mick Jagger. Então eu vou-lhe perguntar, você considera Tropicalismo uma música ou como considera tropicalismo na historia da arte como todo? Ou seja, para entender o tropicalismo é preciso explicar o Brasil dos anos sessenta?
CV: É é preciso entender o Brasil dos anos sessenta e também a história do Brasil. Mas, responder a primeira parte da sua pergunta eu posso dizer que o tropicalismo foi apenas uma virada no aspecto da produção de música popular no Brasil que, é, pretendia ao mesmo tempo expressar a sintonia que nos sentíamos, a identificação com a onda contracultural internacional e uma resposta à situação opressiva em que nos brasileiros estávamos vivendo. É sobre uma ditadura militar e então eu acho que foi mais isso, não acho que possa fazer uma marca muito notável na história da música, muito menos nas artes em geral.

MP: O Brasil é um pais muito grande. Onde foi que o movimento tropicalismo se tornou público com os primeiro concertos, com as primeiras manifestações? Ou seja, qual foi a primeira música que se tornou grande?
CV: Foi o lançamento da canção Alegria, Alegria que eu tinha escrito de 66 pra 67 e que apresentei no festival de música na televisão que era um concurso de canções, em 1967. Isso foi um pequeno escândalo, e no mesmo festival no dia seguinte ou dois dias depois o Gilberto Gil, meu colega, meu amigo apresentou uma canção chamada Domingo no Parque e nós dois optamos por apresentar cada um de nós, a sua canção, como um grupo de rock...acompanhando...a própria composição já pressupunha isso, sobretudo a minha, mas o fato de nós subirmos ao palco naquele festival de música popular brasileira com uma banda de rock com os caras com os cabelos grandes e a gente sem smoking, porque todo mundo cantava de smoking, já foi um escândalo, foi uma virada virada muito grande e daí em diante o negócio só fez crescer, a começar pelo meu cabelo, os nossos cabelos.

MP: Imagino que então o governo brasileiro não quis ouvir nada do tropicalismo. Que então provocou o governo e a Policia Militar para que você foi presso e eventualmente exilado? Foi o espetáculo na Boate Sucata? Ouvi dizer uma vez que ese foi o espetáculo mais radical que foi feito no Brasil desde sempre?
CV: É, de ponto de vista da attitude rock, e relativamente à época em que foi feito, o espetáculo na Boate Sucata no Rio foi o mais radical que você pode imaginar. E bom, em princípio, o que gente fazia não parecia chamar a atenção dos militares que estavam no poder, porque a própria esquerda reagia mal ao que nós fazíamos, considerando que era uma, que nos estávamos vendidos aos pop internacional e a influência norteamericana, em suma, ao imperialismo. E então é nós não julgávamos que por parte dos militares houvesse uma reacção mais forte. Também, a gente sabia que era uma resposta agressiva à uma situação violenta de opressão. Porque era um tipo, um estilo artístico violento, esse estilo com elementos do rock e com evidentes elementos da contracultura. Mas os militares ainda não entendiam muito bem disso. Eles entendiam de canções de protesto e tal. E eu tive impressão que uma consciência relativa ao potencial subversivo do que a gente estava fazendo cresceu em pouco tempo a partir do show da Sucata. Mas por causa de enganos e também de reações intuitivas, um sujeito que ‘tava assistindo ao show achou que aquilo era um desrespeito e protestou, e então um radialista do São Paulo ouviu isso, e como ele falava na palavra bandeira, porque na verdade tinha um, um estandarde feito pelo Hélio Oiticica, um artista plástico, em que havia a fotografia de um bandido do morro que tinha sido morto pela polícia e sobre esse estandarte vinha escrito “Seja marginal, seja herói”. Era uma dessas coisas rebeldes assim que faziam parte do show. Então ouvindo a palavra bandeira, porque o sujeito que protestou contra os shows ouviu a palavra bandeira se referindo ao esse estandarte. Mas o radialista do São Paulo achou que nos estivéssemos feito alguma coisa contra a bandeira brasileira. Ele era de direita, era un cara reaccionário, então ele fez uma, sei lá, uma peroração pelo rádio, chamando atenção das autoridades dizendo que nos tinhamos desrespeitado a bandeira brasileira e que tinhamos cantado o hino nacional com a letra pornográfica, ele já foi, ele foi imaginando e querendo criar uma situação. E a partir daí, os militares ficaram de olho na gente e logo que veio o Ato Institucional n° 5, em que eles proibiram habeas corpus e em que eles tinham direito de entrar nas casas sem mandato, enfim aquela situação propriamente de ditadura, porque foi um golpe dentro do golpe, né, em 1968. Que o golpe mesmo foi em 64, em 68 houve um endurecimento e o Ato Institucional n° 5 é que deu esses poderes abusivos as autoridades brasileiras. Depois nos pouseram na cadeia, prenderam a gente. A partir apenas dessas informações mau averiguadas, porque nos ficamos dois meses na cadeia, no segundo mês eles nós interrogaram, e eu respondi que era tudo mentira. Eles disseram, mas você tem testemunho, eu disse, tenho dei nome de testemunhos, o dono da boate, o DJ da boate, e que tava lá todas as noites e tudo o que eu disse, que eu contei, expliquei, quando eles foram chamados pra depor, foi confirmado. Então, o militar que ‘tava me interrogando, disse, olha, parabéns você não mente, você será liberado, mas eles não me liberaram.

MP: Pois não, e vou lhe perguntar sobre a sua experiência em Londres também, Quora é uma das páginas na internet, onde as pessoas façam perguntas e os profissionais no assunto respondem. Uma é sobre o senhor Caetano Veloso e Gilberto Gil. E diz: What did Caetano Veloso and Gilberto Gil's do in Chelsea, London, 1969 to 1972, while exiled from their native Brazil? Who did they meet? Which musicians did they see perform? Which musicians and producers did they play or record with? What was their daily life like? How do they now remember that time? Não se importa responder sobre a sua vida em Londres, aqueles tres anos.
CV: Não, foram quase tres anos. E na verdade, eu ‘tava muito deprimido com a situação e não tinha muita animação pra procurar viver lá, ou me enturmar, mas o Gil era mais comunicativo. Se você fizesse a mesma pergunta ao Gil, ele poderá responder com alguma coisa mais interessante. Eu na verdade depois que foi melhorando, ao fim do primeiro ano. Fui, assisti aos espectâculos que havia, entendeu. Fui ver o Festival da Isle of White que encerrava com o Bob Dylan. Mas era aquela 600 mil pessoas eu ví de longe no ano logo que eu cheguei. E no ano seguinte eu fui ver o Festival do Isle of White que terminava com o Jimmy Hendrix, mas aí já foi diferente. A gente já tinha, eu já ‘tava melhor, não ‘tava tão deprimido com a situação de ter sido preso e de estar exilado, e tinha sido procurado, nos dois tinhamos sido procurados por um produtor chamado Ralph Mace. Ele tinha trabalhado na Polygram, à qual nos trabalhávamos no Brasil, tinhamos contrato, e ele soube que nos tínhamos chegado, mas ele tinha sido convidado pra ser director artístico de uma, de um selo pequeno da Paramount, um selo chamado Famous. E pra esse selo ele quis, ele viu o nosso nome, viu a nossa historia lá na PolyGram, e ele ficou curioso, disse o cara, quando ele entrou na Famous, saiu da Polygram, entrou na Famous, ele disse, eu quero ver o que vocês brasileiros o que que são. E nós procurou e foi à nossa casa em Londres, pediu pra ouvir e nos cantamos. Ele ficou muito bem impressionado e achou que ai queria produzir disco. Terminou produzindo dois discos comigo, e um com Gil. E então nessa altura do festival do Jimmy Hendrix, isso já tinha acontecido. O Ralph Mace me tinha encontrado, ele queria até que colaborasse com David Bowie. Que ele achava que tinha muita identificação e me levou pra ver um show do David Bowie no Roundhouse. E me apresentou ao David Bowie e tudo. Mas eu na verdade não gostei muito do show que eu vi. E terminou não a houver nada. Eu não fiquei animado e não sei porque o David Bowie ficaria, não tenho menor ideia, então, mais fui apresentado, eu tive com outras pessoas tambem lá, mas não colaborei com artistas ingleses, nem procurei. Eu queria voltar pro Brasil. E Gil teve mais dialogo. Me lembro que aquele pessoal que criou o festival, esse festival que tá até hoje, de Glastonbury, esse festival, quando eles foram planejar, eles conversaram conosco, eu mesmo tava na reunião dos criadores que ainda mantem o festival hoje. Faz pouco tempo ele deu uma entrevista e disse que Gilberto Gil e Caetano Veloso opinaram sobre festival e eu me lembro que fui lá, mais eu não dava muita importância. Pra mim não tinha, eu queria voltar pro Brasil.

MP: Então isso não foi a época mais feliz da sua vida ou da sua carreira musical. Vou lhe perguntar quando foi em Londres que percebeu que podia voltar para o Brasil. Se não me engano, tem a ver com o telefonema do João Gilberto.
CV: Tem, sim. Primeiro, eu, nós estávamos lá desde sessenta e nove. Mas em setenta e um meus pais faziam quarenta anos de casados, então iam fazer uma missa, uma festa e iam estar todos os filhos menos eu. Ai Bethânia, minha irmã que é cantora famosa do Brasil, foi famosa antes de mim, embora seja mais nova. Ela fez um esforço grande, procurou se comunicar com os militares, com as autoridades, para conseguir uma permissão para eu ir porque meus pais estavam amargurados, que tem um filho exilado, que ia ser o único que não ia estar nessa solenidade. Então Bethânia conseguiu a autorização. Eu podia ir, ficar um mês, mas tinha que chegar no Rio, ir direito para Salvador, ficar um mês em Salvador, não podia sair da cidade, nem pra minha cidade que é pertinho, a cidade onde eu nasci, que é setenta quilômetros de Salvador, não podia ir.
Então.. E também tinha que fazer duas representações na TV Globo. Porque o cara que arranjou o negocio que era empresario de Chico Anysio junto com Bethânia que tinha.. Chico Anysio tinha dialogo com os militares e então a traves disso a Bethânia conseguiu essa permissão para eu ir. Mas acontece que quando eu cheguei no Rio eles me pegaram num Volkswagen, e eles estavam á paisana e me levaram, parecia um sequestro. E minha mulher ficou com medo no aeroporto sem saber para onde eu estava sendo levado. Eles me pegaram na porta do avião. Onde você desce aquela escada que antigamente não tinha fingers. E me levaram e fiquei seis horas sendo interrogado, eles queriam exigir coisas de mim, coisas que eu não queria fazer, eles me ameaçaram de me manter presso, eu fiquei angustiadíssimo, pensei puxa, Bethânia me conseguiu esse negócio para mim e essas caras também botaram uma armadilha. Mas depois de seis horas de muito sofrimento eles me liberaram, eu fui para casa de Bethânia que morava no Rio. E ai acalmei, fomos para Bahia, fiquei um mês, fiz a apresentação na Globo quando voltei pelo Rio. E voltei para Londres. Eles me proibiram também de cortar o cabelo, raspar a barba, que eu estava de barba naquela época, quando estaba em Londres, para não parecer que eu tinha sido forçado pelos militares. E não podia mudar nada e não podia dar a entrevista, a não ser com a presença de dois observadores da Policia Federal e as perguntas embora os jornalistas estivessem presentes tinham que ser escritas e mostradas e entregas e.. enfim, um negocio meio terrível. Então com aquelas seis horas de perguntas e de ameaças eu fiquei apavorado, fiquei mal de novo, voltei para Londres e pensei isso: olha, vai estar difícil, a gente não vai voltar pro Brasil nem tão cedo, a gente vai ficar anos aqui. Mas no fim do ano o João Gilberto me telefonou pessoalmente. E disse Caetas venha, ele me chama de Caetas, Caetas venha aqui, estamos começando a gravar, eu e a Gracinha que e a Gal Costa um programa na televisão de São Paulo. E nos queremos que você viesse, você vem, venha, vai dar tudo certo. Disse ‘João olha, eu fui ao Brasil meses atrás e eu fiquei angustiado, fiquei seis horas sendo interro..’ Contei tudo a ele. Disse, ‘eu sei Caitas, eu sei de tudo, mas não vai acontecer mais nada disso, você vai chegar, todos vão sorrir pra você, não vão nem parar para olhar o seu passaporte.’ Eu fiquei.. aí eu falei com Dedé que era a minha mulher e disse “Olha, João Gilberto e ele disse “é Deus que quer,” porque é um negócio assim que ele tem uma dimensão religiosa, e eu fiquei meio impressionado, e João Gilberto, pra mim nessa altura ele era Deus. Então eu disse, olha, eu vou.. mesmo assim perguntei à uma amiga, uma senhora, que vivia em Paris, Violeta Arraes, que ela era a pessoa que recebia os exilados, politicamente uma pessoa da esquerda, de Pernambuco, irmã do governador Miguel Arraes, que estava exilado, e ela sabia, tinha informações mais precisas e eu disse, olha,  eu vou obedecer a uma ordem do João Gilberto, é uma loucura mas eu vou, mas eu quero saber se você acha que vai ser.. ela disse olha, pelas informações que eu tenho, é possível mesmo que não haja problemas e tal.. se você quer ir.. Ai eu fui.. Fui pro Brasil e de fato aconteceu o que João Gilberto falou. Fui recebido sem.. ninguém me parou.
A pessoa da alfândega e da emigração que falou comigo falou ‘o Caetano’, sorrindo, eu pensei não e possível, João Gilberto é um visionário. E passei direito, tomei o avião, fui para São Paulo, gravei o programa de televisão com ele, fui a Bahia, vi meus pais, meus irmãos, fui a Santo Amaro, minha cidadezinha, ninguém se meteu comigo, estava tudo relax. Eu voltei para Londres com Dedé e disse assim vamos arrumar tudo e voltar pro Brasil.
Ai, Ralph Mace que era um tecladista e também produtor e que produziu meus discos ele tinha acabado de produzir Transa, que era o segundo disco que eu fiz em Londres, do qual eu gosto muito e ele gostava muito.. Ele disse, mas Caetano, agora, eu lhe peço um ano, agora com esse disco a gente vai fazer um negocio como eu acredito aqui na Inglaterra para você, uma coisa global.. Eu disse pra ele “Mas eu prefiro voltar pro Brasil”. Ele ficou triste, mas eu voltei pro Brasil e fiquei alegre.

MP: Parece que o senhor tive uma infância feliz, era quinto dos sete filhos, os pais nunca se brigaram, mãe carinhosa, pai muito sábio. Não se importa ilustrar em breve a vida no Santo Amaro?
CV: Rapaz, de tudo isso ai, o que é mesmo verdade é que meus pais nunca brigaram, isso é verdade. Agora a infância feliz, eu não sei se isso existe. Eu acho que a infância não é um período muito feliz na vida das pessoas. E um mito, dos adultos. Eu acho que a pessoa quando é criança fica louca por deixar de ser. Mas minha casa era boa, com meu pai, minha mãe muito pacíficos, meus irmãos são muito queridos, muito carinhosos. Mas eu gostei de ficar adolescente.

MP: Hoje em dia é muito fácil gravar qualquer coisa, audio, vídeo, até com celular. Quando você tive 4, 6, 10 anos, não foi bem assim. Qual e a primeira gravação da sua voz ou composição que ainda têm?.
CV: Olha, a primeira gravação da minha voz foi feita num 78 de acetato por um cara de Santo Amaro. Eu tinha 9 anos e eu cantei uma música do Noel Rosa, Feitiço da Vila, e é interessante porque cantei uma obra de um grande compositor brasileiro, né. Eu gostava desde menino, meu pai gostava do Noel Rosa, admirava Noel Rosa, mas  minha mãe que cantava, meu pai não cantava, como a minha mão cantava sempre. Cantava músicas dele e de outros. Cantava músicas antigas, e Noel Rosa realmente é um génio, é um sujeito, morreu com 26 anos, deixou uma obra maravilhosa, entre os anos 20 e anos 30 que até hoje é, qualquer canção dele é, tá em pé hoje com uma presença de composição, de capacidade, que se mantem. É um grande autor, eu gravei essa música dele, Feitiço da Vila, acompanhado por minha irmã mais velha no piano. E do outro lado uma canção sentimental sobre a mãe, chamada Mãezinha Querida, que era um valse que eu não sei nem o nome do autor. Ao contrário da música do Noel Rosa que é uma obra prima. Era uma música sem muita importância, mas era uma música que falava de mãe, de negócio de carinho de mãe, e era pra minha segunda mãe, que era uma prima minha que morava no Rio, que ia fazer aniversário. Era um cara em Santo Amaro que gostava de coisas eletrônicas, não sei o que, e que tinha, tinha microfones, e que tinha um aparelho que gravava num acetato, e essa gravação existe em algum lugar ou uma cópia em fita cassete, em algum lugar ela tá guardada. Eu com a voz bem aguda de criança, assim. É a primeira gravação que eu fiz. Não tem nada a ver com a composição a não ser o fato do que a composição do Noel Rosa é génial.

MP: E já como criança mudou pra Rio de Janeiro. Gostaria de saber qual já foi a razão pela sua primeira visita do Rio ainda quando era jovem. Era saúde, você tive problemas com garganta?
CV: Olha a razão foi essa prima, que era minha segunda mãe, que tinha se mudado pro Rio. Eu com onze anos, ela veio a Bahia e quis me levar para passar um pedaço do verão, das férias do verão no Rio com ela. Eu fui, e assim eu conheci o Rio com onze anos. Mas voltei. Fiquei lá um mês e meio e voltei. Mas quando tinha treze anos, ela voltou a Santo Amaro para visitar meus pais e tudo isso e.. porque ela era minha prima, mas muito mais velha, né. Pessoas que eram já adultas quando eu era bebé e ela quis me.. eu tava mal na escola, tinha perdido o ano, estava mal de saúde, não tava bem. Com treze anos.. meus pais estavam um pouco preocupados e ela ficou muito preocupada e quis me levar p’ro Rio para passar outro verão e me levar fazer uma serie de exames de saúde, porque ela era enfermeira, trabalhava num hospital, então ela ia me levar nos médicos, bons, p’ra fazer... eu fui, fiz uma porção de exames. Mas ela depois quando o verão já estava acabando ela pedia meus pais para me deixar ficar um ano todo lá. Ai fiquei um ano no Rio. Que ela me matricularia num ginásio no Rio, mas ela não conseguiu me matricular. E fiquei um ano no Rio, sem estudar. Com esta minha prima que chamava de Minha Inha. Mas ai eu vi muitos cantores brasileiros na Rádio Nacional, ia no auditório, vi muitas coisas de que eu já gostava antes, podia ouvir ao vivo muitas vezes, o importante vi o Rio de Janeiro, vi o carnaval do Rio.

MP: Eu sou da Rádio Nacional, mas é Rádio Nacional Eslovena, gostaria de aprender, o que é, o que tipo da instituição, a Rádio Nacional no Rio de Janeiro?
CV: A rádio nacional do Rio de Janeiro nessa altura ela era estatal. Mas era extremamente popular. Era onde os melhores mais famosos cantores e programas de música com auditório, eram feitos. E na verdade quando ela foi, ela foi implodida quando, não fisicamente, mas a instituição, quando do golpe militar, no 1964. Porque muitos dos artistas e dos produtores eram da esquerda e simpatizavam com, o presidente era apoiado pela esquerda, meio de esquerda, o presidente que foi deposto, né Jõao Goulart - Jango, e daí … a Rádio Nacional ficou sem expressão, mas antes ela era uma rádio, era rádio mais ouvida do Brasil e onde as maiores estrelas se apresentavam.

MP: Acho chato perguntar o músico sobre as suas canções preferidas, então vou lhe pedir para me explicar como nasceu Sampa? Você morou também no São Paulo?
CV: Morei todo o período do Tropicalismo foi vivido em São Paulo. Tudo aquilo foi desenvolvido mesmo em São Paulo. Morei dois anos e um pouco em São Paulo. Quando me casei, a primeira casa que tive, o primeiro apartamento que era meu, onde eu morava com a minha mulher, foi em São Paulo. Eu tenho, muito da minha vida se deve ao São Paulo, da minha vida artística e pessoal - se deve ao São Paulo. E, é mais São Paulo é uma cidade que não é fácil, a primeira vista. Ele é uma cidade neutra, uma cidade pesada, grande, com engarrafamentos, com poluição, sem muita beleza natural, e que se desenvolveu muito rápido antes das outras cidades brasileiras, se industrializou, então não é uma cidade fácil. Então depois que já tinha sido exilado, já tinha voltado, já tinha morado na Bahia três anos, tinha voltado a morar no Rio, uma televisão de São Paulo fez um programa, um especial comigo. E gravou canções, entrevistas e fizeram em vários dias. E me pediram para o dia seguinte que eu preparasse um depoimento sobre São Paulo. E eu ai fui a anotar e aí achei, as primeiras frases que achei que fui anotando, achei que tavam meio poéticas assim e achei que podia cantar. O fato que compos no outro dia que eles chegaram, o depoimento era a canção Sampa. Eu fiz durante a noite, no outro dia, e eu disse, olha, eu fiz em forma da canção o depoimento. Era pra esse programa só. Mas eles ficaram impressionados e depois tudo mundo. A música pegou todo mundo, até hoje conhece, sabe, acho é assim.

MP: Mas não é cara de São Paulo ou seja da grande cidade. Mora no Rio de Janeiro?
CV: Moro no Rio de Janeiro. Eu morei no Rio de Janeiro dos 13 aos 14 anos, depois voltei com Bethânia em 1964, fiquei até 65, depois fui a São Paulo, fiquei um tempo e voltei pra Bahia. No final do 66 eu fui pra o Rio. E pra finalmente trabalhar com música mesmo. E finalmente hoje, depois disso eu fui pra São Paulo, na época de Tropicalismo, fiquei lá dois anos e pouco, e depois fui preso, exilado, volteir e fiquei na Bahia e quando eu quis voltar pra o sudeste, eu ia pra o São Paulo. Mas a Dedé que era a minha mulher não queria ir pra São Paulo, porque achava muito pesado. O Rio é mais ameno, é mais mais agradável, é no litoral, a gente está acostumado com praia, é mais como na Bahia. Então nos fomos pra Rio. O fato que hoje a cidade onde eu mais morei, até hoje na minha vida foi o Rio, porque os meus filhos foram crescendo, um nasceu lá e o outros dois que nasceram … quem nasceu no Rio foi Zeca. Moreno nasceu na Bahia, mas foi com 13 anos de idade pra o Rio. Tão cedo que quando tornou na escola no Rio, aí ficou fazendo escola no Rio, também o meu filho tem sotaque carioca, que estudava na escola, e os outros dois que nasceram já eu com a segunda mulher, que é carioca, um nasceu no Rio, o outro nasceu na Bahia nas ferias de verão, porque eu nunca deixei de ter uma casa na Bahia, né. Tenho uma casa em Salvador e aí passo sempre o verão em Salvador. De dezembro a março ‘tou em Salvador. Mas onde eu mais moro, é no Rio. é onde eu fiquei a maior parte da minha vida, até hoje, e no Rio.

MP: Eu disse Moreno, porque eu só conheço o seu filho Moreno Veloso. Ele, eu entreviste o Domenico +2 quando eles pararam em Ljubljana dois vezes.
CV: É, eles foram a Ljubljana, eu sei, eles me disseram.

MP: O seu último album, Abraçaço. Primeira vez que ouvi a palavra “abraçaço”, foi naquela música. Quem inventou a palavra, você?
CV: Não, não, inventar não, inventei porque as pessoas dizem muito um beijaço, um filmaço, um golaço, então o abraçaço nunca ouço as pessoas dizerem mas não e impossível e fica interessante porque abraço para ter esta desinência -aço.. então vem o outro -aço Ficam dois, parece um eco, né, abraçaço, tem dois 'c' cedilha, né.. quando está escrito. Então achei bonito. Eu comecei a usar como as respostas de emails para amigos. Vem mandar um beijo, um abraço, um abraçaço, beijo, abraçao, abraçaço, e ficou.. eu gostei, achei bonito .. ai fiz, fiz a canção, ai escolhemos o título do disco.. e essa palavra porque ela e interessante e..e pronto, ficou este título.

MP: Sabe compor, sabe cantar, escrever, pensa em escrever a sua autobiografia?
CV: Eu escrevi um livro que em grande parte é autobiográfico. Que se chama Verdade Tropical. Que é uma especie de rememoração e tentativa de interpretação do que foi o movimento tropicalista. Mas pra isso eu preciso contar a minha formação, então eu conto muito de Santo Amaro, da minhã infância, da minha formação musical, artística, intelectual, da minha família, das pessoas com quem eu convivi, e dou um retrato do Brasil dessas épocas e depois do golpe militar, depois a minha reação a tudo aquilo. De uma certa forma, em grande parte, aquilo é autobiográfico. Mas muito mais do que isso eu não creio que euqueira fazer, não.

MP: Senhor Caetano Veloso, muito obrigado pelo seu tempo e essa entrevista. Bom concerto amanhã em Milão e depois em Ljubljana.
CV: Amei, um abraçaço.
MP: Um abraçaço.



























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