domingo, 25 de octubre de 2015

2011 - CANÇÕES DO EXÍLIO: A LABAREDA QUE LAMBEU TUDO


Documentário, 90 min | 2010
Rio de Janeiro/RJ
Direção: Geneton Moraes Neto
Roteiro: Geneton Moraes Neto
Produção: Jorge Mansur
Fotografia: Adreas Palluch
Montagem: Geneton Moraes Neto e Jorge Mansur
Direção De Arte: Joana Passi
Trilha Sonora: Caetano Veloso, Gilberto Gil



 “Só voltem quando forem autorizados” (Julho, 1969)


O GLOBO

Documentário de Geneton Moraes Neto conta a saga de Caetano e Gil no exílio forçado pela ...



 
Do fundo do baú: Caetano e Geneton (Recife: 1973)

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RIO - Duas semanas depois da decretação do AI-5 e dois dias depois do Natal de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos por oficiais do 2 Exército. Como jamais souberam o motivo, admite-se que possa ter sido pela participação em passeatas, ou em movimentos estudantis, ou por suas nada convencionais performances em festivais, ou ainda por suas atitudes de rebeldes tropicalistas, que tanto incomodavam civis e militares. Os dois passaram por celas de vários quartéis do Rio, depois ficaram em prisão domiciliar em Salvador, e só em julho de 69, com uma advertência de três estrelas - "Só voltem quando forem autorizados" -, partiram para um exílio forçado que se estenderia por dois anos e meio, até janeiro de 1972.

Mautner e Macalé participam

Os detalhes dessa história, contados pelos dois personagens, já seriam motivo para Geneton Moraes Neto realizar "As canções do exílio - Uma labareda que lambeu tudo", documentário em três partes de 50 minutos cada, que o Canal Brasil exibirá amanhã, quarta e quinta-feira, às 22h. Mas há pelo menos mais um motivo: Geneton inspirou-se na foto em que, aos 15 anos, aparece entrevistando Caetano para o "Diário de Pernambuco", e a partir dela se entregou ao que considera uma guinada profissional. Tendo começado a vida como jornalista e caído na TV quase por acaso, esses anos todos ele deixou de lado o que realmente queria fazer: cinema documental.

- Este é o meu rompimento amigável com o jornalismo e a retomada da carreira de cineasta interrompida pela TV - diz Geneton, antecipando que os 150 minutos da série serão reduzidos a 120 para os cinemas.

Na produção, e também na edição do filme, ele contou com a parceria de Jorge Mansur, cujos modernos recursos tecnológicos viabilizaram uma empreitada que, na era pré-digital, seria financeiramente inviável.

Caetano e Gil - mais Jorge Mautner e Jards Macalé, que, por diversos caminhos, foram se encontrar com os amigos no exílio - contam a história cronologicamente. 

A detenção, o ano-novo passado atrás das grades, os tempos de prisão domiciliar, a proibição de fazer shows e gravar discos, a vinda ao Rio de um chefe de polícia de Salvador para mostrar aos superiores o absurdo da situação. Graças a isso, foi dada autorização (ou ordem) para que saíssem do país. A fim de que os dois conseguissem dinheiro para a viagem, os militares permitiram que fizessem dois shows em Salvador.

Permissões como esta, em tom de favor, fazem da história um retrato do Brasil da época, mistura surrealista de brutalidade com cordialidade. Um episódio narrado por Gil é exemplar: os mesmos homens que o prendiam sem motivo arranjaram-lhe um violão e ainda pediram que fizesse um show para os soldados do quartel. Outro oficial, generosamente, ajudou-o em sua dieta vegetariana.

- Se eu fosse antropólogo ou sociólogo, poderia escrever, partindo deste documentário, um tratado sobre a alma brasileira - diz Geneton.
Pelos depoimentos, constata-se que o exílio foi menos doloroso para os outros do que para Caetano. Gil, por exemplo, admite ter "caído na gandaia", frequentando a noite londrina sem pensar tanto no que ficara para trás. Já para Caetano, a palavra depressão pontua algumas das passagens de sua narrativa. 

Mas, no homem que lembra, e não no que viveu, há lugar para humor, como suas discussões com Glauber Rocha. E palavras afetuosas, como as que dedica a Violeta Arraes ("Ainda a adoro, vou adorá-la sempre"), a mulher que abria o coração aos exilados que a procuravam em Paris.

Deprimido, Caetano chegou ao Rio para o que esperava ser um reencontro feliz: autorizaram-no a participar da festa dos 40 anos de casamento de seus pais. 

Logo ao desembarcar, foi preso e levado para um depoimento de seis horas, cujo objetivo era tão somente pressioná-lo a fazer uma canção enaltecendo a Transamazônica. Negativo. Só concordou com duas apresentações na TV, quando, em vez de cantar algo a alegre, pop, como supunham ele ter trazido de Londres, reviveu a triste "Adeus, batucada".

Callado, futebol e Chico

Gil guarda detalhes de sua prisão e, mais ainda, do exílio: o apoio que o escritor Antônio Callado lhe deu no cárcere ao vê-lo de cabeça raspada; a criação de "Aquele abraço"; como "Can't find my way home" virou sua canção de exílio; as palavras "Rivelino revelation" pintadas nos muros de Chelsea no dia seguinte à vitória do Brasil sobre a Inglaterra em 1970 (torcer ou não pelo Brasil de Médici era a questão, resolvida pela paixão maior pelo futebol). Gil conta, ainda, como escreveu com Chico Buarque a proibida "Cálice" (ou "Cale-se"), já de volta a um país ainda sem liberdade.

Caetano fala do medo de morrer e da certeza de que matar, mesmo, os militares só queriam o Geraldo Vandré. E de como prefere não passar recibo da informação que os policiais lhe deram sobre quem eram seus "colaboradores".

As histórias são muitas e se desenrolam depois de a atriz Lorena da Silva lembrar trechos de crônicas de Caetano para o "Pasquim" e de Paulo César Peréio dizer um texto de Geneton sobre seu projeto.

Jorge Mautner, que foi dos Estados Unidos para a Inglaterra ao encontro dos amigos, tem de tudo uma visão mais filosófica. E, mais que tudo, positiva. Acreditava e ainda acredita que o futuro está no Brasil. Dizendo-se "filho do Holocausto criado no candomblé", não esquece o pai judeu para quem toda a cultura europeia acabou em campos de concentração. "Isso aqui é o Brasil", bradava o velho Mautner.

Jards Macalé viajou a convite de Caetano para ajudá-lo no que seria o LP "Transa". Vêm dele as únicas referências à relação do grupo com as drogas, já que, sabidamente, todos, menos Caetano, recorreram a elas nos tempos de exílio. Foi sob a ação de LSD que Macalé, em visita ao museu de Madame Tussaud, apaixonou-se por uma Branca de Neve de cera. Não fosse o guarda, teria matado o desejo ali mesmo: "Ainda hoje sinto saudades daquela Branca de Neve." É dele o subtítulo de "Canções do exílio". Ao retornar ao Rio, vindo do inverno britânico, sentiu uma forte calor entrar pela porta do avião adentro, como "uma labareda que lambeu tudo".



                                           1973 - Recife                              2010 - Rio de Janeiro





           1973 - Recife                             2010 - Rio de Janeiro





Jorge Mansur e Geneton Moraes Neto




Caetano revela: militares gravaram interrogatório a que foi submetido no Rio de Janeiro e pergunta: “Onde estarão estas fitas ?” 
E mais: o dia em que Chico Anysio se ofereceu para ajudar Caetano a voltar do exílio


Pouco depois de chegar a Londres, para um exílio que duraria dois anos e meio, Caetano Veloso teve uma surpresa : recebeu uma carta em que o humorista Chico Anysio se oferecia para intermediar um possível retorno ao Brasil. O gesto  solidário de Chico Anysio comoveu Caetano – que tinha sido preso em São Paulo, juntamente com Gilberto Gil, duas semanas depois da decretação do AI-5, o ato que dava poderes absolutos ao regime militar. Trazidos ao Rio de carro, os dois passaram por três quartéis, até viajarem para Salvador, onde passaram seis meses sob regime de prisão domicilar. Em seguida, em meados de 1969, receberam autorização para sair do Brasil. Destino: Londres. Voltaram ao Brasil no início de 1972.


Diz Caetano:



“Chico Anysio me escreveu uma carta bem cedo, logo que eu tinha chegado a Londres. Respondi: “Chico, agradeço muito. Não há nada que eu queira mais do que voltar ao Brasil. Mas não quero dialogar com essas autoridades que trataram do jeito que me trataram….”. É a primeira vez que estou contando assim. Mas aconteceu. As cartas provavelmente estarão perdidas”.


A referência a Chico Anysio é parte do longo depoimento que Caetano Veloso gravou para o nosso documentário “CANÇÕES DO EXÍLIO: A LABAREDA QUE LAMBEU TUDO” (a ser exibido nesta terça, quarta e quinta, em três episódios de 50 minutos, no Canal Brasil. A negociação para a volta ao Brasil é parte do segundo episódio. Além de Caetano Veloso, o documentário, produzido pela Multipress Digital para o Canal Brasil, traz depoimentos de Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner – e participações especiais de Paulo César Peréio e Lorena da Silva).

Cerca de um ano depois da oferta de Chico Anysio, Caetano Veloso recebeu, por fim, uma autorização para uma viagem ao Brasil: iria comparecer à comemoração dos quarenta anos de casamento dos pais, na Bahia. Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso, se encarregou de fazer os contatos, numa operação que incluiu o empresário Benil Santos e – de novo – o próprio Chico Anysio. “Bethânia estava trabalhando com o empresário Benil Santos – que trabalhava, também, com Chico Anysio”, diz Caetano, no documentário. “Chico se dispôs, através de Benil Santos, a ajudar Bethânia. De fato, ele ajudou Benil a ajudar Bethânia a conseguir”


A autorização foi dada para que Caetano Veloso permanecesse um mês em Salvador. Mas, ao desembarcar no Rio, uma surpresa esperava Caetano Veloso, ainda na pista do aeroporto:


“Vim com Dedé (n: mulher de Caetano na época). Quando chegamos ao Galeão, a gente desceu aquela escadinha. Já no pé da escada, tinha um Fusca: me pegaram e dali mesmo saíram comigo. Levaram-se para um apartamento na avenida Presidente Vargas (centro do Rio) e, ali, me interrogaram. Estavam com um gravador de rolo. Onde estarão estas fitas hoje ? Gravaram tudo o que estavam perguntando e todas as minhas respostas. Isso durou seis horas. Queriam que eu fizesse uma canção louvando a Transamazônica. Disseram: “Alguns colegas seus estão colaborando conosco, fazendo músicas”… Pensei: “Voltei ao Brasil para ser preso de novo! Quase morro”.




Caetano Veloso, em CANÇÕES DO EXÍLIO: onde estão as fitas do interrogatório? 

As exigências apresentadas a Caetano Veloso: neste mês de permanência no Brasil, ele não deveria cortar o cabelo ou tirar a barba, para dar uma aparência de “normalidade”; não deveria sair da cidade de Salvador; ficaria sob a vigilância permanente de dois agentes; deveria fazer duas apresentações na TV. As exigências foram cumpridas.





Comando Militar do Leste informa : não há registros do “evento citado”



PS: Tentei, junto ao atual Comando Militar do Leste, obter alguma informação sobre o paradeiro das tais fitas que registraram o interrogatório de Caetano. A resposta que me foi enviada é um primor de concisão: “Prezado jornalista: Em atenção à sua solicitação informamos que: não foram encontrados registros sobre o evento citado em sua mensagem”.


Fica a dúvida no ar: as fitas foram preservadas ? Algum oficial teve o cuidado de guardá-las? Como o interrogatório não foi “oficial” – até porque não havia uma acvusação formal contra Caetano Veloso-, é improvável que um dia haja uma palavra oficial sobre as gravações. Mas, como tanta coisa fica nas mãos do acaso, pode ser que um dia, no fundo de uma gaveta, na prateleira empoeirada de uma estante ou, quem sabe, na casa de um militar da reserva, estas fitas apareçam. 

Com certeza, seriam um documento precioso sobre aqueles tempos conturbados: uma época em que um compositor popular, tido como ameaça ao bem estar da República, era submetido a um interrogatório que teve momentos de teatro do absurdo. Ou alguém imaginaria que, sob coação, o compositor fosse criar um hino de louvação à rodovia Transamazônica, um dos símbolos do chamado “Brasil Grande”?






Compositores lembram canções do exílio


Documentário de Geneton Moraes Neto traz depoimentos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Mautner e Jards Macalé



Beto Feitosa

O jornalista Geneton Moraes Neto volta a sua juventude no documentário Canções do exílio - A labareda que lambeu tudo, que será exibido em três episódios (entre 8 e 10 de fevereiro, às 22h) pelo Canal Brasil. Na série, que depois será condensada em um filme, ele entrevista Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e Jards Macalé reconstruindo um capítulo da história recente cultural e política do país.

O filme na verdade tem início em 1973 quando Geneton, aos 15 anos, entrevistou Caetano Veloso em sua volta de Londres. "Caetano reclamava que no exílio parecia que ele estava morto, que tinha virado uma entidade fora do mundo. Ficou no ar essa queixa", conta o jornalista em entrevista por telefone. "Ao longo dos anos fiz outras entrevistas com ele, mas quando resolvi fazer essa série era como se estivesse retomando, complementando uma frase que começou a ser dita há 38 anos", resume.

O filme costura depoimentos importantes dos artistas. Momentos de dúvida, de medo e também de muita criatividade. "É um período muito conturbado na história do país e também muito rico que eles viveram em Londres", resume. "Isso teve influência na vida cultural do país". A história é contada através de narração de Paulo Cesar Peréio, depoimentos recentes e trechos de entrevistas antigas.

Geneton diz que não acredita em assunto esgotado. "A história existe pra ser revirada e revisitada. A gente produziu um documento". Gilberto Gil surpreende com a lembrança de que fez um show para a tropa, e compôs quatro músicas com um violão emprestado por um sargento. "Eu considero uma cena surrealista que só poderia acontecer no Brasil, essa mistura de brutalidade com delicadeza. Se eu fosse sociólogo faria uma tese sobre o espírito brasileiro a partir dessas histórias", conta.

O documentário dialoga com um recente sucesso do cinema documental brasileiro, o longa Uma noite em 67 , de Ricardo Calil e Renato Terra, que mostra o festival que revelou o movimento tropicalista. "Dificilmente haverá uma noite igual a essa para a música brasileira", avalia. "A diferença é que eles tratam essencialmente do lado musical, e Canções do exílio fica na parte política. Talvez a gente até faça um episódio com a parte musical que ficou de fora", revela Geneton. "Mas os dois podem se complementar, falam sobre a mesma época. Canções do exílio mostra o que aconteceu com eles depois daquela noite", resume.

Atualmente apresentando o programa Dossiê Globo News, Geneton conta: "Como jornalista sempre procurei produzir documentos, recuperando assuntos esquecidos e revirar a história". "O que é um documentário se não um jornalismo no cinema?", indaga. Com olhar de repórter, o cineasta Geneton Moraes Neto monta o painel dessa história política e cultural do país.










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