lunes, 5 de enero de 2015

1975 - PARCEIROS - Milton Nascimento





“Todas as vezes que Milton me pediu para que eu fizesse letra, por alguma razão misteriosa, fiz numa velocidade estupenda” 
 [Caetano Veloso, Revista Quem, Edição 261 - Set/05]


"A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João."  
[Caetano Veloso, 6/10/2013, O Globo]


(n. Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1942)

● AS VÁRIAS PONTAS DE UMA ESTRELA (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 1982

● A TERCEIRA MARGEM DO RIO (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 1990

● PAULA E BEBETO (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 1975

● PERIGO (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 2005

● SENHOR DO TEMPO (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 2005

● SEREIA (Milton Nascimento/Caetano Veloso) 2005










 

 


 

 


















 


 

 

 





 










Revista Amiga - 3/11/1998 - n° 1.487





 

 
 









 











 
17/10/2005



Eles partiram para outros assuntos
A amizade entre os dois cantores nasceu há 40 anos, quando Milton Nascimento se apaixonou por Dedé Gadelha sem saber que ela já vivia com Caetano Veloso e, como no canto estarão sempre juntos, fazem a trilha de O Coronel e o Lobisomem e um DVD do show que os reuniu pela primeira vez

texto: Dirceu Alves Jr. e Gisele Vitória 
fotos: Murillo Constantino 



De encontros singulares e outros extraordinários nasceu a amizade entre Caetano Veloso e Milton Nascimento. Quando eram músicos iniciantes na batalha por um palco, uma simpatia mútua tomou conta dos dois desde que foram apresentados, em 1966. A conversa que os aproximou passou longe da música e era regida pelo verbo reclamar. Mais precisamente da gelada e difícil São Paulo, cidade que desvendavam aos 24 anos e onde esbarravam em inúmeras dificuldades. Daquela fase, brotam lembranças parecidas. Milton fala do horror de ter passado uma semana sem comer por falta de dinheiro. Caetano diz que, muito antes de amar a metrópole que traduziu em “Sampa”, ele “não morava, simplesmente estava” por ali.

As afinidades da dupla não se esgotam no talento ou nas desventuras de início de carreira. Ambos nasceram em 1942. O baiano de Santo Amaro da Purificação completou 63 anos no último 7 de agosto. Milton veio ao mundo no Rio, em 26 de outubro, e se tornou um mineiro de Três Pontas logo depois de fechar 2 anos de vida. Maduros e reconhecidos, os dois rompem a fronteira dos 60 anos com a mesma febre de vida que, hoje, aquece o encontro numa breve turnê de shows, a pretexto das três novas parcerias para o filme O Coronel e o Lobisomem. Da encomenda do diretor Maurício Farias nasceram em 2005 “ Sereia”, “Perigo” e “Senhor do Tempo”, que já ganham os ouvidos do público nos cinemas e no show Caetano e Milton, que se transformará em um DVD antes do Natal. As três músicas foram compostas num único ano, depois de apenas três parcerias em três décadas.
Os laços entre os dois se estreitaram, surpreendentemente, a partir de uma paixão de Milton por Dedé Veloso, a primeira mulher de Caetano. Foi ela quem tornou-se amiga primeiro, ainda na década de 60. E começou uma convivência mágica, a ponto de Milton virar especialista em ninar o primeiro filho de Caetano, preparar almoços para o casal e, da intimidade, surgir “Paula e Bebeto” em 1975. Os versos eternizados pelo próprio Milton e por Gal Costa, apenas neste show ganham a voz de Caetano. “Durante tempos pensei que Caetano nem gostasse da música. Eu canto ‘Paula e Bebeto’ em todos os meus shows e ele sequer pensou em gravá-la”, diz Milton. O parceiro dá risadas: “O Milton tem cada uma. Adoro a música”.
Apesar do sucesso de “Paula e Bebeto”, a dupla só se encontrou profissionalmente sete anos depois com “As Várias Pontas de uma Estrela”. Um Caetano emocionado com a magnitude do amigo criou uma letra que dizia que seu caminho era guiado pelo parceiro. Foram necessários mais 9 anos para que a dupla voltasse a se reunir. “A Terceira Margem do Rio” surgiu de experiências de Milton na Amazônia entre 1989 e 1990. “Fiz a música inspirado no conto de Guimarães Rosa e só via duas pessoas para escrever a letra: o próprio Rosa ou Caetano”, diz Milton, que precisou controlar a ansiedade por seis meses até receber os versos. “O conto é lindo. E fiz uma letra que é quase um comentário do conto”, analisa Caetano.
Apesar da identidade, a dupla exercita a atração dos opostos. Milton é dia, Caetano noite. Para ensaiarem o show na casa de Milton no Itanhangá, no Rio, houve um acordo. Os trabalhos começariam após as 18h, porque Caetano acorda tarde, e se encerrariam às 23h30, porque Milton dorme cedo. Milton deu esta entrevista em sua suíte no Hotel Fasano, em São Paulo, indiferente à cama ligeiramente desfeita, às duas malas e duas sacolas dispostas no chão e ao inalador imprescindível em São Paulo para controlar a garganta seca acentuada pela diabetes. Caetano preferiu resguardar a intimidade e falou numa sala mais impessoal do mesmo hotel. Milton não dá entrevistas ou faz fotos antes do show. Caetano, por sua vez, não se importa em marcar a conversa para duas horas antes de pisar no palco.
O processo de criação também é antagônico. Caetano jamais enfrentou uma crise de criatividade. “Só tem esse tipo de crise quem pode se dar ao luxo de ter. Não encaro essa questão de cria coisas. Talvez eu nunca tenho feito nada que prestasse ou seja uma defesa para continuar fazendo. Não sou modesto. Sou melhor que Chico, Milton, Gil, mas acho que não faço música direito”, diz o baiano. “Chico, Gil, Milton, todos eles têm seriedade. Eu escrevo muito matado. Jamais Chico faria uma música dessa forma. Todas as suas rimas esclarecem o enunciado. Minha obra é muito suja.” Milton, por sua vez, assume que, no fim dos anos 70, passou seis meses sem conseguir tocar no violão. Embalado por lembranças, voltou a viver em Belo Horizonte e, lá, se deparou com uma cidade diferente. “Meus amigos sugeriram que eu procurasse um psiquiatra. Não queria mexer com isso. Procurei um médico amigo”, conta o compositor. “Conversamos um dia inteiro e ele, mesmo lamentando a perda do cliente, me aconselhou a voltar para o Rio.”
A obra de Milton recuperou o vigor. O divisor da retomada foi a gravação de “Caçador de Mim”, que mesmo não sendo dele, traduzia o sentimento daquela fase. Indagado se o Milton sexagenário é mais talentoso que o jovem dos tempos de “Travessia”, ele faz ar de mineiro. “Sinto que sou melhor cantor, mas como compositor devo estar bom também”, afirma. Caetano garante que produz com a mesma agilidade, mas sente saudade de sua imagem aos 20 ou 30. “Eu era mais bonitinho. Não gosto de ver minhas fotos de hoje, mas as antigas eu acho sempre lindas. Não sei como tem gente que pode me achar mais bonito hoje.”


10 segredos de uma amizade



Milton achava que Caetano seria o único capaz de transformar a história de “Paula e Bebeto” em versos


“Tinha dias em que eu estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: ‘Moreno não quer dormir enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir.’ Eu ia correndo”, conta Milton

1 - Eles se conheceram em 1966
O Bar Redondo, perto do Teatro de Arena, era o ponto das cabeças pensantes de São Paulo. Numa madrugada de 1966, entre uma e outra cerveja, Caetano avistou Milton. “Ele era muito bonito, seu rosto parecia uma máscara africana. E misterioso, calado, quieto. Ainda hoje, Milton é profundamente misterioso”, lembra o baiano, na época, dividido entre Rio e São Paulo para acompanhar a irmã Maria Bethânia. “Conhecia uma música de Caetano, ‘Sol Negro’, gravada por Gal e Bethânia. A gente se cruzava nos bares perto da Galeria Metrópole” , diz Milton. Encasacados por obrigação, eles viviam a se queixar. “A gente saía xingando São Paulo por causa do frio que fazia. Caetano depois compôs ‘Sampa’, falando que Narciso acha feio o que não é espelho, mas naquela época ele não achava nada disso.”

2 - Caetano não se interessava pela música de Milton
Gilberto Gil o achava genial, mas Milton não despertava Caetano musicalmente. “Eu, com minha limitada capacidade musical não tinha percebido nada de especial. Demorei a gostar artisticamente. Eu achava as músicas dele bonitas mas não me interessava”, diz Caetano. Ele conta que ouviu a “Canção do Sal” numa gravação mostrada por Gil, e observou que Milton desenvolvia muito bem a levada harmônica.“Eu estava com todas as idéias tropicalistas e queria jogar para fora. Logo, não estava interessado em canções harmônicas. Embora percebesse a originalidade de Milton não tinha vocação para perceber sua genialidade.”

3 - Milton se apaixonou pela primeira mulher de Caetano
No fim dos anos 60, logo que chegou ao Rio, Milton foi entrevistado pela baiana Dedé Gadelha (depois Dedé Veloso), sem saber que se tratava da primeira mulher de Caetano. Eles não eram casados oficialmente mas já estavam juntos havia tempo. “Fiquei louco por ela. Precisava namorar aquela menina. Comentei com uns amigos e eles falaram: ‘É a noiva do Caetano’”, conta Milton. “Ele ficou apaixonado, propôs casamento a Dedé. Aí ela disse que já era comprometida. Foi engraçado, ela chegou em casa contando: ‘O Milton me paquerou...’ E ele não tinha idéia de quem ela fosse”, confirma Caetano.

4 - Recém-chegado do exílio, Caetano foi convidado por Milton para dividir o palco
Em 1972, Caetano pôs um ponto final nos três anos de exílio em Londres e retornou ao Brasil. Buscou na hospitalidade da Bahia a energia para voltar a enfrentar a oposição dos militares. Milton já era cultuado. O Weather Report o elogiou e Milton ganhou renome no jazz americano e no rock progressivo. “Mas eu não gostava de nada disso. Gostava de reggae, Steve Wonder e de punk”, relembra. Em uma visita ao Rio, Caetano e Dedé ficaram na casa de Bethânia, em Ipanema, e Gal Costa comentou que o show de Milton no Teatro da Lagoa era deslumbrante. “Fiquei maravilhado. Tudo se revelou. Compreendi a genialidade da criação dele. Me deu vontade de ficar debruçado”, sorri Caetano. Poucos meses depois, já fã confesso, o baiano voltou a aplaudir o amigo, desta vez no MAM. Diante de uma platéia abarrotada, Milton avistou Caetano na primeira fileira, olhar paralisado em sua direção. “Eu o chamei para subir ao palco. Foi a primeira vez que cantamos juntos. Tenho certeza que se estivesse em um show dele também seria chamado”, diz Milton. “Não teve ensaio e saiu lindo. O engraçado é que, apesar da força, não lembro qual música cantamos”, afirma, desapontado, Caetano.

5 - Moreno Veloso só dormia se Milton cantasse para ele
Depois de 1972, ano do nascimento de Moreno Veloso, viraram amigos. Quando Caetano e Dedé se mudaram para o apartamento da Delfim Moreira, no Leblon, em 1974, Milton morava na Barra e eles se freqüentavam. Muitos almoços, com Milton cozinhando. “Moreno me adorava. Ele era bem pequeno. Tinha dias em que eu estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: “Moreno não quer dormir enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir. Eu ia correndo. Às vezes falava: não dá para vocês virem com o Moreno aqui pra casa?”, lembra Milton. Hoje, Moreno diz a Milton que lembra de tudo, mas Milton duvida. “Ele ficava um ou dois dias lá em casa. Cantava para Moreno e no outro dia o Moreno acordava e Milton ainda estava lá”, conta Caetano. Milton dormia no quarto do som, onde havia a vitrola, os discos, um gravador, seus violões e muitas almofadas. Eram os anos hippies. Não havia cama nem sofá. “Ali Milton ouvia as próprias gravações. Isso é curioso. Não é freqüente que um cantor ouça
seus próprios discos. Ele ouvia tudo e muito na nossa casa”
,
conta Caetano.

6 - A história real de “Paula e Bebeto”
Precisou um amor se dissolver para que a dupla consumasse uma parceria. Em 1975, no início de uma noite, Milton bateu à porta de Caetano às lágrimas.
“Ele me contava a história de Paula e Bebeto e chorava muito”, lembra Caetano. Milton conheceu Paula e Bebeto em Três Pontas no início da década de 70. Ela era uma linda garota de 15 anos e Bebeto tinha pouco mais de 17. Em uma roda de violão na praça, o casal se aproximou e amanheceu ouvindo o compositor. “Virei uma espécie de padrinho deles. Foi a história romântica mais linda, mais completa que já vi”, afirma Milton. Anos antes, ao lado de Bebeto, Milton criou a melodia e chegou a esquecê-la.
Um dia, precisou que Bebeto cantarolasse para ele. Quando o casal brigou, veio o desejo de gravá-la e Milton achava que Caetano seria o único capaz de transformar aquele amor em versos. Algumas noites mais tarde, Caetano, Dedé e Moreno foram à casa de Milton. “Eu e ele nos trancamos em outra sala e sentamos no chão. Milton tocou três vezes a música. As palavras entraram na minha cabeça e fechei a letra na hora”, revela Caetano. Da sala, ao ouvir “Paula e Bebeto”, Beth, irmã de Milton, disparou: “Quando eles ouvirem a música, voltam na mesma hora”. Mas Beth falhou. A dupla nunca reatou. A música ficou eternizada na voz de Gal Costa pelo refrão “qualquer maneira de amor vale a pena...”. “Esse refrão diz a coisa mais perfeita para mim”, diz Milton. Hoje, Bebeto é casado, tem quatro filhos e acaba de vender a fazenda de seu pai, no interior mineiro, que administrou por duas décadas. Paula também se casou, teve três filhos e vive em Belo Horizonte, onde produz artigos de couro. Milton batizou um filho de cada um.

7 - Caetano faz “declaração de amor” em letra que Milton não teve coragem de interpretar
Perto de gravar o disco Anima, em 1982, Milton telefonou para Caetano e propôs aquela que seria a segunda parceria da dupla. “Agora vai ser diferente. Você manda a letra e eu coloco a música depois”, avisou Milton. Menos de um mês depois, Caetano entregou os versos de “As Várias Pontas de uma Estrela”. Sem pestanejar, Milton virou-se para o amigo e perguntou: “Você está louco? Essa letra é uma declaração de amor. Como é que vou cantar isso a meu próprio respeito?”. Caetano reforçou o elogio ao amigo: “Você é tudo isso e muito mais”. Humilde, Milton chamou Caetano para cantar a parceria no disco. “Caetano chegou ao estúdio e não tinha ainda ouvido o arranjo. Ele começou a cantar e nos abraçamos. Meu contracanto foi nascendo na hora”, diz Milton.

8 - Mesmo quando esteve doente, Milton passou recentes verões em Salvador com Caetano e Paula Lavigne
Até três verões atrás, Milton passava férias na Bahia junto com Caetano e a empresária Paula Lavigne, de quem o músico se separou este ano. “Ninguém sabia, mas ele ia para lá. Na casa de uma amiga. E sempre ele nos visitava na minha casa no Rio Vermelho. Ele conviveu com Zeca também”, conta Caetano. Mesmo quando enfrentou a diabetes, Milton descansou vários janeiros e fevereiros em Salvador. Ele e Caetano cantaram juntos na praça de Santo Amaro num show que dona Canô, mãe de Caetano, organiza anualmente para arrecadar recursos para a igreja. “A praça ficou em êxtase. Milton adorou e disse: ‘Quero vir ano que vem’. Ele participou mais três vezes. Ficou muito emocionado e minha família também”, conta Caetano. Depois todos iam almoçar na casa de dona Canô. Também na Bahia, Caetano se emocionou com Milton sobre o primeiro Expresso 2222, trio elétrico de Gilberto Gil. “Tive uma das maiores emoções que o Carnaval da Bahia já me deu.” O trio elétrico entrou na praça do Farol da Barra com Milton cantando “Raça”. “A praça inteira pulava com ele. Ninguém pensa que Milton canta em trio elétrico e arrasa, mas ele cantou horas e arrebatou uma multidão. Puxou mais gente que a Ivete Sangalo (risos)”, diz Caetano.

9 - Caetano criou no carro letra para canção de Milton a caminho do estúdio
Caetano seguia para o estúdio onde gravaria “Senhor do Tempo” para a trilha de O Coronel e o Lobisomem sem ter cumprido sua missão. “Milton me esperava no estúdio e eu não havia terminado a letra”, diz Caetano. A caminho da gravação, Caetano colocou o CD com a melodia para tocar e, acomodado no banco traseiro, pediu correndo a sua secretaria Giovana um bloco de anotações. Em 15 minutos, completou a letra sem que o parceiro ou os produtores imaginassem que a gravação poderia ter sido adiada. Mas Milton entenderia. Trinta e cinco anos antes, em 1970, ele criou uma música sob pressão: encarregado da trilha do filme Os Deuses e os Mortos, Milton foi intimado pelo diretor Ruy Guerra a lhe entregar um tema na manhã seguinte. “Filmamos desde as 5h em Ilhéus e já anoitecia. Disse: ‘Ruy, você acha que eu tenho condição de compor alguma coisa?’”, lembra Milton. O cineasta, sem dó, retrucou: “Se vira”. Milton pegou uma garrafa de cachaça e se trancou no quarto. Junto com o efeito da aguardente, veio a inspiração para criar “A Chamada” e, pouco depois da meia-noite, Guerra foi acordado para receber a canção.

10 - Em O Coronel e o Lobisomem, Caetano diz que a produção queria mesmo era Milton
“Eles (a produção de Paula Lavigne e de Guel Arraes) queriam o Milton. Eles me puseram na história porque sabem que eu sou um bom interlocutor do Milton. Eu armei o contato”, conta Caetano. A composição da trilha sonora é toda de Milton Nascimento, Caetano participou com as letras. “Eu não fiz uma nota”, diz. Milton fez as músicas em três dias: “Fiz tudo num gravador pequeno, isso tudo por causa do close na Ana Paula Arósio. Passei a fita e Caetano se encarregou de mostrar para o Guel e a Paula”, conta Milton. Indagado sobre quem é o coronel e quem é o lobisomem da dupla, Caetano abre um sorriso largo. “São coisas permutáveis. É fácil identificar Milton como o lobisomem porque ele é misterioso, mas também posso ser o lobisomem porque sou extrovertido”, diz Caetano. “Eu poderia ser coronel porque falo demais, parece que chego nos lugares dando ordens. Porém, quem manda é o Milton. Ele é mais organizado e, de fato, ordena. Nossa química é complementar.” No camarim, depois do show na breve turnê em São Paulo, Milton é surpreendido com a mesma pergunta. “É muito peso para carregar”, afirma, mineiramente, o compositor.


 
 “Milton ficou apaixonado, propôs casamento a Dedé. Aí ela disse que já era comprometida. Foi engraçado, ela chegou em casa contando: ‘O Milton me paquerou...’ E ele não tinha idéia de quem ela fosse”, diz Caetano

“Tinha dias em que eu estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: ‘Moreno não quer dormir enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir.’ Eu ia correndo”, conta Milton





6 de Outubro de 2013

Caetano exalta música de Milton Nascimento



Segundo o compositor baiano, "a música de Milton Nascimento é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom Jobim e João Gilberto"


Em sua coluna no jornal O Globo, o compositor Caetano Veloso exaltou a música de Milton Nascimento e afirmou que ela é a maior presença da MPB no mundo depois de Tom Jobim e João Gilberto. 


Milton: a música - CAETANO VELOSO



A música de Milton Nascimento é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom Jobim e João Gilberto

Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”, escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs “Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton, coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba Trio do que ao rigor fundador de João.
Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos 60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a mirada pop da produção cancional.
Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton. Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior. Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro, era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e “Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo (bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura: a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton com a banda no palco, de repente entendi tudo.
A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se no Brasil.
E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco…
Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça.

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