sábado, 8 de septiembre de 2012

1968 - TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENSIS


1966-1967 - Tropicália - penetrável de Hélio Oiticica (1933/1980)


1966 - A bela Lindonéia - A Gioconda do Subúrbio - Rubens Gerchman (1942/2008)


Quinta-feira, 1.o de agosto de 1968

FOLHA DE S. PAULO

“Tropicalia” no Avenida Danças

Será no Avenida Danças, no próximo dia 8, o lançamento de “Tropicália”, o ótimo disco de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão, Rogério Duprat, Tom Zé, Torquato Neto e Capinam, lançado no mercado esta semana. O acontecimento será tropicalissimo.


Alem dos responsaveis diretos pelo disco, estarão presentes manecas da Rhodia, atores de cinema e teatro, jornalistas e, naturalmente, muitos “bicões”, os frequentadores habituais do Avenida não precisam preocupar-se, porque a coisa vai ser feita sem nenhum prejuizo para eles. As moças continuarão furando seus cartões etc. e tal. E ainda vão receber homenagem de Gil, Nara e Caetano, que cantarão algumas músicas do disco.


“Tropicália” ou “Panis et Circenses” foi gravado pela Philips. As músicas, algumas, impressionantemente bonitas, inclusive o “Coração Materno”, de Vicente Celestino; “Miserere Nobis”, “Panis et Circenses”, “Lindonéia” (um bolero cantado por Nara), “Parque Industrial”, “Geleia Geral”, “Baby”, “Três Caravelas”, “Enquanto Seu Lobo Não Vem”, “Mamãe Coragem”, “Batmacumba”, “Hino ao Senhor do Bomfin” e o já referido

“Coração Materno”.



7/8/1968

 


 





Gal Costa e Edy Star










Agosto / 1968
TROPICÁLIA ou PANIS ET CIRCENCIS
Gilberto Gil / Os Mutantes / Nara Leão / Gal Costa / Caetano Veloso
Philips LP R765.040L / CD 512 089-2 [1992]


Lado A
1. MISERERE NÓBIS (Gilberto Gil/José Carlos Capinam) Gilberto Gil / Os Mutantes
2. CORAÇÃO MATERNO (Vicente Celestino) Caetano Veloso
3. PANIS ET CIRCENSIS (Gilberto Gil/Caetano Veloso) Os Mutantes
4. LINDONÉIA (Gilberto Gil/Caetano Veloso) Nara Leão
5. PARQUE INDUSTRIAL (Tom Zé) Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes
6. GELÉIA GERAL (Gilberto Gil/Torquato Neto) Gilberto Gil

Lado B
1. BABY (Caetano Veloso) Gal Costa e Caetano Veloso
2. TRÊS CARAVELAS [Las Tres Carabelas] (Augusto Algueró Jr./G. Moreu - Versión: João de Barro) Caetano Veloso / Gilberto Gil
3. ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM (Caetano Veloso) Caetano Veloso
4. MAMÃE, CORAGEM (Caetano Veloso/Torquato Neto) Gal Costa
5. BAT MACUMBA (Gilberto Gil/Caetano Veloso) Gilberto Gil
6. HINO AO SENHOR DO BONFIM DA BAHIA (João Antonio Wanderlei/Petin de Villar) Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes



Lanzamiento del LP "Tropicália ou Panis et Circensis - 12 de agosto de 1968



14 de agosto de 1968
Folha de São Paulo

Uma Noite Tropicalista
Adones de Oliveira


Às 11 da noite de anteontem o Avenida Danças já estava repleto. Tudo funcionava regularmente. Como nos dias normais as mulheres chegavam, sentavam-se nas cadeiras que rodeiam o enorme salão e ficavam esperando que os cavalheiros as viessem tirar para dançar. Cada um tinha recebido seu cartão numerado na entrada, que seria picotado e devolvido na saída, para o devido acerto de contas. Às 11 da noite de anteontem no Avenida Danças, Ipiranga, 1120, já era grande o número de pessoas que chegavam para assistir ao lançamento de “Tropicália” e viver o maior acontecimento tropicalista já havido, desde que o tropicalismo foi inventado.

Primeiro chegaram Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé e o empresário Guilherme Araújo, produtor da festa, Caetano chegou mais tarde e quando entrou foi recebido com palmas e gritos. O salão tinha sido dividido. Num lado continuava-se dançando, os “habitues” nem davam bola para o que acontecia na outra metade, cheia de mesas, que não chegavam para o número de pessoas presentes. Gil, numa mesa grande, com Nara Leão e as bailarinas da Rhodia, apertava uma buzina e gritava “Tereziiiiinha”.

Chegaram os componentes do “New Vaudeville Band”, sete ingleses vestido com moda de 1920. Os “Beat Boys” barbudos e de boina, à “Che” Guevara, também transitavam no meio da multidão de manecas, bailarinas, artistas, jornalistas, desconhecidos, fotógrafos, etc. Caetano usava um casaco comprado em Londres e um boa cor-de-rosa, espécie de estola, enrolada no pescoço. Ele e Gil ficavam andando de um lado para outro, cumprimentando uns e outros.
À uma hora os apresentadores oficiais do Avenida Danças, impecavelmente vestidos, anunciaram o show. Ninguém conseguia ouvir direito o que diziam, o barulho era enorme, todo mundo gritava “Terezinha”. Um grupo ficou chamando o poeta Décio Pignatari, afastado um pouco da turba. Um fotógrafo quis brigar com um rapaz, que o impedia de trabalhar direito. Guardas, com a indelicadeza costumeira, exigiam a saída dos que se sentavam na passarela, à falta de lugares melhores. O pano se abriu, começaram a gritar “senta, senta!”, Gilberto Gil iniciou o espetáculo com “Miserere Nobis”. Houve um pouco de silencio quando Caetano cantou “Coração Materno”. Nas outras o público acompanhava e batia palmas. No palco estavam Nara, Gil, Caetano, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé. Saíram, uma a uma, todas as músicas do disco. “Miserere Nobis”, “Coração Materno”, “Parque Industrial”, “Panis ET Circenses”, “Hino do Senhor do Bomfim da Bahia”, “Baby”, “Lindonéia”, “Três Caravelas”, “Batmacumba”, etc.
Na vez do hino o ator Antonio Pitanga ficou dando vivo ao Nosso Senhor do Bomfim, como nas procissões. O auge do entusiasmo deu-se em “Batmacumba”, cantado por todos. A orquestra, muito boa por sinal, era da casa e Rogério Duprat a regeu. Terminado o show apareceu Jorge Ben, que também subiu ao palco. Todo mundo cantava e dançava.

Lenie Dale subiu na passarela e ficou se exibindo. Nas mesas as moças da Rhodia dançavam e davam gritos. Outros artistas também aplaudiam: Claudete Soares, Da Kalafe, Walmor Chagas, Rejane Medeiros e outros. Gil e Caetano desceram do palco, ficaram abraçando as pessoas. Algumas pessoas saíram, mas a confusão continuou. A orquestra voltou a tocar os boleros, recomeçaram a dança. Os homens que saiam tinham que devolver os cartões, picotados ou não. O Avenida Danças viveu uma noite “social” das mais movimentadas, mas o faturamento não foi grande. Muitos fregueses deixaram de dançar para ver de perto uma noite tropicalista.





CAPA



“Veja-se a capa: ela compõe a alegoria do Brasil que as músicas apresentarão fragmentariamente. Na primeira sobressai a foto do grupo, à maneira dos retratos patriarcais; cada integrante representa um tipo: Gal e Torquato formam o casal recatado; Nara, em retrato, é a moça brejeira; Tom Zé é o nordestino, com sua mala de couro; Gil sentado segurando o retrato de formatura de Capinam, vestido com toga de cores tropicais, está a frente de todos, ostensivo; Caetano, cabeleira despontando, olha atrevido; Os Mutantes, muito jovens, empunham guitarras e Rogério Duprat, com a chávena-urinol, significa Duchamp. As poses são convencionais, assim como o décor: jardim interno de casa burguesa, com vitral ao fundo, vasos, plantas tropicais e banco de pracinha interiorana. O retrato é emoldurado por faixas compondo as cores nacionais, que produzem o efeito de profundidade. O título – Tropicália ou Panis et Circensis, em latin macarrônico, apresenta as mesmas cores. É curioso que no selo do disco a música título vem grafada de modo diferente – Panis et Circenses [sic] – simples descuido ou aplicação da oswaldiana “contribução milionária de todos os erros?. Na capa representa-se o Brasil arcaico e provinciano; emoldurados pelo antigo, os tropicalistas representam a representação”



(Extraido de FAVARETTO, Celso. tropicália alegoria alegria. 3ª edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000. pág.79-82)



CONTRACAPA
(excertos) [À guisa de roteiro cinematográfico]

- SEQÜENCIA 5
CENA 3

GIL: O Brasil é o país do futuro.
CAETANO: Este gênero está caindo de moda.
CAPINAM: No Brasil e lá fora: nem ideologia, nem futuro.

- SEQÜENCIA 5
CENA 4

TORQUATO: Será que o Câmara Cascudo vai pensar que nós estamos querendo dizer que bumba meu boi e iêiêiê são a mesma coisa?

- SEQÜENCIA 5
CENA 5

DUPRAT: A música não existe mais. Entretanto sinto que é necessário criar algo novo. Já não me interessa o municipal, nem a queda do municipal, nem a destruição do municipal. Mas a vocês, mal saídos do borralho, vocês baianos, terão coragem de se preocupar comigo? Terão coragem de fuçar o chão do real? Como receberão a notícia de que o disco é feito para vender?. Com que olhar verão um jovem paulista nascido na época de Celly Campelo e que desconhece Aracy, Caymmi e Cia? Terão coragem para reconhecer que este jovem tem muita coisa para lhes ensinar...
- Sabem vocês o risco que correm? Terão mesmo coragem de saber que só desvencilhando-se do conhecimento atual que tem das formas puras do passado é que poderão reencontrá-las na sua verdade mais profunda?. Por acaso entendem alguma coisa do que eu estou dizendo? Baianos repondam...


- SEQÜENCIA 5
CENA 7

NARA: Pois é... e as pessoas se perdem nas ruas e não sabem ler. Consultam consultórios sentimentais e querem ser miss Brasil... e se perdem.
OS MUTANTES: E aquela distorção dá a idéia de que a guitarra tem um som contínuo...a até a boutique dos beatles se chama ‘a maçã’...

- SEQÜENCIA 5
CENA 10

Em New Jersey João Gilberto conversando com Augusto de Campos:
AUGUSTO: E o que é que eu digo a êles?
JOÃO: Diga que eu estou daqui olhando pra êles.




ROTEIRO DO OUVINTE
[Com destaques para citações musicais]

MISERE NOBIS
0:10 - Orgão de igreja, clima de MÚSICA SACRA.
0:26 - Violão dá o pulso da canção, introduzindo um clima profano.
0:27 - Gil canta / Madeiras e metais??? ao fundo, em função harmônica  - Gil canta em ritmo de marcha militar “Bê-rê-a-bra-si-i-lê-sil / Fe-u-fu-z-i-le-zil/Ca-    a-ca-nê-h-a-o-til-ão” (Brasil - Fuzil - Canhão) - Tiros de canhão abafados : “1812 caipira???”

CORAÇÃO MATERNO
0:00 - Violoncelos, tons graves, fazem a introdução da música, sugerindo clima sombrio de OPERETA melodramática, de VICENTE CELESTINO
0:09 - Violinos entram em contraponto, em andamento um pouco mais rápido, sugerindo intensidade dramática.
0:33 - Caetano Veloso entra com voz sem intensidade (loudness), sugerindo um clima intimista. Violão dedilhado. Orquestra acompanha o tema principal, sempre reforçando as tensões dramáticas.   
2:20 - “Chega à choupana o demônio...”. Cordas comentam e dramatizam a letra que chega ao climax dramático
3:10 - “Mas em meio à estrada caiu...”, orquestra retoma o lirismo do motivo principal.
3:40 - Cordas fazem acorde em suspenso.

PANIS ET CIRCENCIS
0:00 - Introdução - coro canta o motivo básico da canção, repetindo os intervalos básicos, cuja estrutura harmônica não apresenta tensão. Na sequência, as vozes fazem ornamentos melódicos, passeando pela escala. Nota-se um sutil dissonância
0:45 - Trumpete solo, imita o timbre de clarim, numa citação sonora dos BEATLES (“PENNY LANE”)
1:15 - “Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar...”, alusão “alucinógena” ao Solar da Fossa, pensionato dos artistas recém chegados ao Rio de Janeiro
1:55 - A rotação da música cai a zero, assumindo o caráter discográfico da canção. MÚSICA ELETRÔNICA
2:00 - Clima psicodélico, com efeitos eletroacústicos
2:20 - Surge uma música incidental, à base de um arranjo de ROCK (baixo, bateria, guitarra, teclado), com instrumentos eletrificados e distorcidos
3:05 - A música incidental é interrompida. Ouve-se vozes à mesa, ruídos de talheres, a valsa “DANÚBIO AZUL”  ao fundo. MÚSICA CONCRETA.
3:25 - Um efeito ELETROACÚSTICO aumenta de intensidade ao mesmo tempo que ouve-se um crescente ruído de vidros (copos) espatifando.
3:30 - Corte súbito

LINDONÉIA
0:00 - Melismas no naipe de cordas, reproduzem uma sonoridade orquestral “romântica”, anunciando um BOLERO.
0:15 - Break orquestral abre espaço para a voz de Nara Leão
1:15 - Citação sonora, com timbres de um outro gênero: IÊ-IÊ-IÊ ( ao fundo do trecho: “Nas paradas de sucesso...”)

PARQUE INDUSTRIAL
0:10 - Naipe de metais reproduz os timbres de uma BANDA DE “CORETO”
0:15 - Voz de Gilberto Gil, ao fundo vozes infantis em alarido, como numa praça em festa
0:55 - Clarinete faz uma intervenção cômica, reproduzindo uma trilha sonora de filme tipo “chanchada”, acentuando o tom de paródia da letra
1:55 - Tom Zé canta numa entonação ufanista
2:35 - Trombone faz os primeiros compassos do HINO NACIONAL brasileiro
3:07 - “Made, made, made/ Made in Bra...zil”, espécie de coda cômica, entonação paródica do nome da nação, seguida de uma ovação popular

GELÉIA GERAL
0:10 - Violão percutivo e baixo, prepara o efeito sincopado (“embolada”?)
0:28 - “Ê bumba iêiê boi...” (citação BUMBA MEU BOI, dança dramática brasileira)
0:50 - “Alegria é a prova dos nove”, citação famosa de Oswald de Andrade
1:27 - “As relíquias do Brasil”, frase cantada por Gil, prepara a sequência de citações sonoras, funcionando como uma “suite”.
1:30 - Trecho de “IL GUARANY”, de Carlos Gomes, num andamento e coloração de CHORO
1:35 - Trecho de “ALL THE WAY”, sucesso de Frank Sinatra
1:45 - Batuque de ESCOLA DE SAMBA
2:27 - “CAROLINA...” , citação da personagem poética da canção de Chico Buarque.
3:10 - “TROPICÁLIA, bananas ao vento”, frase síntese do disco e do “movimento”
3:35 - Naipe de sopros faz um acorde de conclusão, citando a introdução de “DISPARADA”, de Geraldo Vandré, canção síntese da CANÇÃO DE “PROTESTO” brasileira.

BABY
0:00 - Baixo e percussão anunciam uma balada pop romântica, andante ma non troppo??
0:25 - Cordas em contraponto anunciam o motivo preparando a voz de Gal Costa
0:43 - Gal Canta, entonação intimista
1:40 - “Aquela canção do ROBERTO...” (CARLOS), nome “maldito” para a esquerda nacionalista, visto na época como síntese da “alienação”.
2:55 - Caetano Veloso entra ao fundo, cantando “DIANA” (balada rock, sucesso dos anos 50), em contraponto com a voz de Gal, que canta o refrão de “Baby”

TRÊS CARAVELAS
0:00 - Introdução, naipe de metais anuncia um MAMBO (gênero cubano)
0:20 - Caetano entra, cantando em espanhol a letra original.
1:00 - Gil entra, cantando a versão em português de JOÃO DE BARRO.

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM
0:00 - Percussão de agogô,  sem cadência, sugerindo um clima de monotonia
0:15 - Entra violão
0:25 - Entra a voz de Caetano.
0:50 - Coro canta ao fundo “Os clarins da banda militar”, contraponto dissonante com
o motivo principal da canção. Clarins tocam motivos curtos, como uma chamada militar.
1:24 - “Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil”
1:33 - Citação da “INTERNACIONAL”, hino comunista
1:52 - Citação do “HINO À BANDEIRA”, hino cívico brasileiro

MAMÃE CORAGEM
0:00 - Sirene de fábrica, chamado para o trabalho, som típico das periferias urbanas
0:40 - Flauta faz uma interessante sustentação harmônica, logo complementada por... 
0:50 - ...fagotes
1:00 - Flauta executa uma melodia suave e nostálgica, sugerindo as emoções da mãe que lê a carta do filho ou do próprio filho que lembra da  mãe distante.
2:15 - Flauta executa um motivo, sustentado harmonicamente por instrumentos do naipe de metais ????? mais graves
2:30 - Corte súbito, entra bruscamente os acordes iniciais da próxima faixa...

BAT MACUMBA
0:15 - Início da série verbo-voco-visual “batmacumbaiêiê-batmacumbaobá...”. Solo de viola ao fundo, desenvolvendo um motivo parelelo como consequência da melodia principal. Percussão de atabaque, sugere “PONTO” de terreiro
1:10 - Entonação atinge o fonema mínimo da série: “ba...” e retoma os outros fonemas progressivamente
2:00 - Série se completa de novo.

HINO AO SENHOR DO BONFIM
0:00 - Metais, tons graves, anuncia o hino cívico.
0:45 - Refrão: “Nesta sagrada colina...”
2:10 - Caetano canta a melodia de forma sincopada, em ritmo de SAMBA, com leve percussão.
3:05 - Vozes emitem sons sem cadência e reproduzem efeito acústico vertiginoso.
3:20 - Tiros de canhão abafados. Fim da sequência musical do LP.


MAPA DO OUVINTE
(Extraído de FAVARETTO, Celso. tropicália alegoria alegria. 3ª edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.)

“O disco é estruturado, musicalmente, como uma polifonia, ou longa suíte; as faixas sucedem-se sem interrupção, com a abertura, recapitulada no final. Esta concepção é a de SERGEANT PEPPER’S dos Beatles. Por sua vez, cada música mantém uma relação dialógica [conforme conceito bakhtiniano]  com as demais e é estruturada, letra, música e arranjo, como montagem de fragmentos (referências musicais, sonoras, litarárias, diálogos, manipulações eletroacústicas, etc). Compostos segundo a linguagem de mistura, cada música e o conjunto levam à metáfora terminal, que alegoriza o Brasil. A coexistência do heteróclito é ressaltada pelo arranjo (...) pois coloca num mesmo plano as referências históricas arcaicas e modernas e possibilita a devoração das dualidades, mantendo as diferenças através do tratamento sonoro cafona (...) Diferentemente das canções da época, não há no tropicalismo uma demarcação entre músicas líricas (que seriam caracterizadas pelo intimismo , como na bossa nova)  e música épicas (significadas pelo engajamento, como na música de protesto) (83)
(...)
“Dentre as músicas, GELÉIA GERAL, de Gil e Torquato Neto, pode ser considerada o interpretante do disco: ela é a matriz que condensa todos os paradigmas redistribuídos na combinatória das outras músicas, da capa e contracapa. Nela se representa a representação em grau máximo: ato de fazer música, referência ao contxto, música-tipo que se faz como descontução (de si, do referente, de outros textos)” (86)

“No disco-representação, o intróito (MISERERE NOBIS) é destacado pelo solo de orgão  e tilintar dos sininhos, consoante a tradição (...)

Segue-se a esta invocação [ É no sempre será oi-ia-ia / É no sempre sempre serão] repetida no final de cada estrofe, o discurso que conota o imobilismo da situação e da proposta de intervir nele”.

“Os tiros de canhão terminam a música num misto de ação acabada , de ação se efetivando ou de violência silenciadora” (90)

“Articulando-se com o intróito, o HINO AO SENHOR DO BONFIM, fecha o disco-ritual. É um hino sincrético, popular-religioso: o hino é cantado com naturalidade por Gil e Caetano e com ênfase no coro o que lhe confere um tom afirmativo. Se no início se afirmava a contrição, virtude passiva, agora ressalta-se a confiança” (90)

“Entre as duas religiosidades profanadas (...) monta-se e desconstrói o painel tragicômico do Brasil (...) A fala tropicalista se entremostra no disfarce e no deboche tensionando a audição: o ouvinte tanto mais participa quanto mais percebe o diálogo de letra, música, arranjo e interpretação”

“CORAÇÃO MATERNO, de Vicente Celestino, aponta para o espaço arcaico da sentimentalidade rural, justaposta, social e psicologicamente, ao meio urbano- industrial (...) A interpretação de Caetano e o arranjo de Rogério Duprat cruzam-se com a versão original de Vicente Celestino, gerando vários níveis de paródia. Ouvem-se duas versões da música: a Cantada por Caetano e a relembrada de Celestino(...) A versão tropicalista de Coração Materno ressalta o grotesco de um tipo de música tida como a expressão do sentimento rural, quando não passa de mera convenção”  (96)

“O lirismo de BABY não deixa de tematizar a dominação, misturando o dado econômico (essencial) da gasolina com os do consumo (supérfluo): margarina, sorvete, lanchonete, aprender inglês, Carolina e Roberto Carlos (...) Uma antologia de estereótipos do consumo forma-se através de suaves metáforas da dominação imperialista” (97)

“ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM também fala do presente, mas de um presente real, o da dominação pela violência política. Se em Baby o desejo passa pelo consumo, em Enquanto... afirma-se apesar da repressão, que deve ser iludida (...) Fato importante: durante a enunciação do passeio, Gal repete insistentemente a frase: “os clarins da banda militar”, marcando os limites do passeio (98/99)

“PANIS ET CIRCENSIS é um enfoque mais limitado dos interditos do desejo. É a contraposição entre a exceção e a ‘ordem’ cotidiana (...) a música contrapõe o desejo de libertação ao ritual da sala de jantar. À afirmação do sonho, opõe-se a vida regida pela ‘ocupação’ de ‘nascer e morrer’ (102)

“MAMÃE CORAGEM  contrapõe o espaço urbano da cidade grande ao espaço doméstico da classe média. Alude à ruptura com a família por parte de jovens decididos, à busca de uma vida aberta, perigosa, mutável” (102)

“LINDONÉIA é um bolero inspirado em Lindonéia ou a Gioconda do Subúrbio, de Rubens Gerchmann. É uma música melancólica, falando dos sonhos românticos de uma moça de subúrbio, solteira, empregada doméstica, leitora de fotonovelas, que ouve rádio e vê televisão. Nela se sobrepõe a sentimentalidade alienada e a violência social e policial. O mundo de Lindonéia é sem alternativas: só lhe resta a fuga onírica dos folhetins. A letra é construida por imagens violentas, como nas montagens cubistas” (104)

“PARQUE INDUSTRIAL critica a ideologia ufanista-desenvolvimentista e os estereótipos da indústria cultural (...) Operam na letra a carnavalização, o deboche e a ironia dos mitos oficiais, em que a festa mimetiza a natureza e sacraliza o desenvolvimento industrial (...) O arranjo figura um parque de diversões, indicando moviemntos, gritos, cores, conversas” (106)

“GELÉIA GERAL é a cena onde se desconstrói a ideologia nacionalista-ufanista. Por uma operação que age ‘por dentro’, criticando o discurso retórico ao nível das camadas fônica, vocabular, sintática e semântica, a ‘geléia geral brasileira’ é enunciada pelo cantor, na sua condição de poeta-sujeito da enunciação. Aponta para três níveis de significação: o dos produtos culturais -justaposição arcaico-moderno; o da confusão  cultura-natureza, da ideologia ufanista; o da música que enuncia a ‘geléia geral’ (...) esta montagem é uma mistura de citações literárias e musicais e um colcha de clichês ufanistas. Daí ser um discurso duplo, produzido pelo distanciamento entre duas situações de enunciação: a do poeta que canta e a do poeta cantado” (107)

“BATMACUMBA é a única música que, nos três discos tropicalistas, realiza a proposta concreto-antropofágica , de modo intencional. Realiza uma superposição dos códigos verbal, sonoro e visual, com referências culturais sincréticas: Batman (os quadrinhos, e por extensão a indústria cultural); macumba (elemento cultural brasileiro); iêiêiê (música jovem, proveniente do rock). Visualmente, o texto apresenta o procedimento de contração e expansão vocabular da poesia concreta com rompimento da sintaxe e da semântica lineares (...) A figura que resulta é um grande ‘K’ , que corresponde ao som-fonema que repercute em toda a música. É somente a partir do arranjo que se percebe o sincretismo cultural , em forma de devoração antropofágica” (111)


CITAÇÕES LITERÁRIAS DO DISCO
(Extraído de FAVARETTO, Celso. tropicália alegoria alegria. 3ª edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.)

BERTOLD BRECHT, incorporação do título Mamãe Coragem (no original: Mãe Coragem)

COELHO NETO, em Mamãe Coragem (paródia):
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos

GONÇALVES DIAS, em Geléia Geral (diluição):
No disco: Minha terra onde o sol é mais linpo/E Mangueira onde o samba é mais puro
No original (“Canção do Exílio”): Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá...

DÉCIO PIGNATARI, em Geléia Geral (apropriação do termo que dá o título da canção):
No original (num dos Manifestos da Poesia Concreta): Na geléia geral brasileira, alguém tem de exercer as funções de medula e osso

OSWALD DE ANDRADE, em Geléia Geral (paráfrase)
Alegria é a prova dos nove (Manifesto Antropófago)
Brutalidade jardim (livro “Serafim Ponte Grande”)












1968
Revista InTerValo
Ano VI - nº 293
Editora Abril







Bibliografía


FAVARETTO, Celso. tropicália alegoria alegria. 3ª edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000. 192 pág.

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